A TRADIÇÃO CORPORAL DO YOGA

Atualizado: 17 de out.


Cultura é um conjunto de costumes, ideias e comportamentos de um determinado coletivo. Tradição é a transmissão dessa cultura de uma geração a outra. Toda cultura, portanto, é uma invenção humana (leia Roy Wagner, A invenção da Cultura). E toda cultura humana só se torna visível pelo "choque cultural" que produz ao estrangeiro. Este, em choque, de forma automática, inventa um jeito de entendê-la. Assim, nascem todas as tradições de yoga, com suas escolas, ordens religiosas e metodologias que conhecemos. Estas, por sua vez, podem ser transmitidas de forma oral, escrita, mas sobretudo, todas, passam de geração em geração, de forma corporal.


A tradição religiosa afro-brasileira, por exemplo, é oral, a católica é escrita. A tradição védica (essa cultura indiana inventada), foi oral por milênios e, só por volta do século II a.C., transcrita, ou seja, passou a ser transmitida de forma escrita. Os hinos védicos, portanto, eram cantados e, não apenas "recitados". Há uma imprescindível incorporação para se compreender uma cultural oral e, muito mais ainda, as suas tradições. Por isso que se diz, ser "uma ingenuidade ler um texto oral uma ou duas vezes" e supor que já o compreendeu. Segundo Fu Kiau, do Zaire, toda tradição oral "deve ser escutado, devorado, digerido, como um poema, e cuidadosamente examinado" para que se possa apreender seus múltiplos significados (apud J.Vansina, A tradição oral e sua metodologia).


Já está bem documentado que a tradição hatha-yoga Natha (e suas inúmeras ordens e subgrupos religiosos), são constituídas por muitos poetas (leia A.Muñoz e D.Lorenzen, Yogi Heroes and Poets: Histories and Legends of the Naths). Toda poesia natha expressa verbalmente uma rítmica de afecções (sensações, sentimentos, pré-sentimentos, emoções) que atravessa corpos de um dado coletivo, mas condensados no verbo, antes, no corpo. Todo yogin-natha-poeta é um observador atento da sua realidade, e não seria isso mesmo a definição do que é ser (ou estar) yogin?


Já é também exaustivamente demonstrado, que Yoga não possui uma, mas várias "raízes" (leia M.Singleton, The roots of yoga). O trabalho mais recente e importante sobre Yoga possui, já no seu título, o plural de raiz, corroborando conosco que a Cultura e as tradições yoguicas serem multifacetadas. Isso nos autoriza a pensar Yoga não enraizado, ou fincado na terra, mas rizomático. Ou seja, não é que suas raízes estejam "perdidas", aguardando serem resgatadas por abnegados mestres, gurus ou acadêmicos, mas espalhada pelo solo e produzindo infinitas dobras de si mesma, sendo inventada, convencionada e reinventada mais uma vez. Os yogins ascetas errantes (os sadhus), por exemplo, pertencem a uma cultura e tradições distintas dos yogins da cultura e tradições védicas. Ficou convencionado, nestes últimos 120 anos (desde Vivekananda), que o Yoga-Sutra de Patanjali, ser a base textual de todos os yogins do mundo - a "Bíblia do Yoga" -, mas isso não se sustenta pelo que apresentamos até aqui.


Segundo a pesquisadora Daniela Bevilacqua, investigando os yogins sadhus contemporâneos (aqueles que estão vivos hoje, peregrinando pelas ruas da Índia), que a sua imensa maioria nunca leram um sutra de Patanjali e, alguns outros, nem de sua própria tradição yoguica - como o Pradipika ou o Gheranda. Nos parece lícito pensar que a tradição dos yogins sadhus é, eminentemente corporal; ou seja, eles não são intérpretes de seus textos, mas experimentadores. A tradição yoguica dos sadhus (Hatha-Yoga) e suas inúmeras ordens religiosas (sampradayas), pertencem a uma cultura yoguica ascética, ou seja, canais espirituais de mestre para discípulo (parampara). Mas o parampara é muito mais corporal, do que oral e, muito pouco, textual, numa acepção como entendemos entre os exegetas cristãos, por exemplo. Os sadhus incorporam costumes, práticas, gestos, regras yoguicas de sua cultura ascética nas experimentações que realizam, sobretudo, nos tapasyas (leia D.Bevilacqua, Let the sadhus talk).


Meu foco de estudos sempre foram os yogins vivos e não os que já morreram, por isso me interessa menos como eles viveram (o que não desmerece quem se dedica ao estudo arqueológico e filológico - até teológico - de seus textos, costumes e comportamentos), e muito mais como vivem hoje. Por isso, sempre me perguntei o porquê algumas formas de yoga (e yogins) são legítimas e outras não. No meu mestrado investiguei como as escrituras do yoga se ressignificaram no seu encontro com a Ciência, sobretudo a biomédica. Dissertei ali, que muito da fisiologia "sutil" havia sendo redesenhada com os contornos da fisiologia científica: nadis como sistema nervoso e chackras ao sistema endócrino e etc. Meu objetivo não estava na mística e, muito menos, em "desmascarar" os yogins modernos, como Iyengar, Jois ou Sivananda; de como eles estavam se "apropriando" da Ciência ou se tornando mais "comerciais" ao público "ocidental"; mas nas inovações culturais de uma antiga tradição, que não mais se encaixava frente a nova Cultura ("Ocidental") em que estava sendo transplantada (ver SIMÕES, 2013). O yoga entre os brasileiros que investiguei e os yogins-sadhus indianos de Bevilacqua traçam linhas-de-fuga constantes, pois vivos e coexistem com os contraditórios de seus próprios contextos sociais atuais. Mais simples, há uma tradição que nasceu à 122 anos (1897 com Vivekananda até hoje, 2022), que hoje denominamos de Yoga Postural Moderno, mas há também uma dobra dessa tradição yoguica embrionária sendo gestada em geografias espirituais fora do contexto espiritual asiático, são inspiradas nestes, sem dúvidas, mas não, de forma alguma, "iniciadas" por aqueles (ver SIMÕES, 2018).


No doutoramento sai à campo e entrevistei yogins brasileiros que se dedicavam a "formar novos professores de yoga" (ou yogins) inspirados, mas fora da Cultura e Tradições Yoguicas indianas. E, para espanto de alguns, viram eu desenvolver a tese que o Yoga Brasileiro era malandro, pois poderia ser compreendido como uma (possível) nova religião em andamento no país (leia R.Simões, Yoga Malandro: sofrimento, libertação e outras ficções).


Quando Mircea Eliade escreve sua tese (M.Eliade, Yoga, Imortalidade e Liberdade) descreve a tradição dos yogins sadhus que Bevilacqua estudou hoje, como selvagens e primitivos, como proto-yogins feiticeiros, o que não é uma inverdade, mas ele utiliza essa expressão de forma pejorativa e imoral. Foi a trinca de pesquisadores M.Eliade, G.Feuerstein e H.Zimmer que inventaram uma "tradição yoguica" onde Patanjali e seu Yoga-Sutras, são a própria personificação ideal e absoluta do Yoga, e as demais (tradições hatha-yoguicas) como secundárias; as mesmas que hoje continuam vivinhas-da-silva, como já demonstramos com o trabalho de Daniela Bevilacqua. É só por volta dos anos