Depois do êxtase, lave a roupa suja
- PhD. Roberto Simões

- há 1 dia
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No mundo do yoga, da meditação, do reiki, da astrologia, das medicinas da floresta, de seus ritos com enteógenos e demais terapêuticas nova era e suas novas racionalidades médicas, quase sempre o êxtase (frequentemente nomeado como samadhi, miração, expansão, abertura do coração) costuma ser tratado como prova.
Algo aconteceu, logo algo foi curado. Algo se moveu, logo algo foi restaurado, equilibrado, alinhado. A experiência transcendental passa a funcionar como certificado simbólico de avanço subjetivo.
Mas essa lógica carrega um equívoco estrutural: ela confunde suspensão com elaboração. O que retorna depois do êxtase místico (os conflitos, invejas, ressentimentos, erotizações, disputas de poder, vaidades sutis, dependências afetivas, messianismos) não é, necessariamente, sinal de falha no caminho. Pode ser, ao contrário, o indício mais claro de que o processo terapêutico foi interrompido cedo demais. O êxtase suspende o sofrimento, mas não reorganiza automaticamente a relação do sujeito com seu desejo, sua agressividade, sua história, seus fantasmas.
O êxtase cria uma pausa, não opera trabalho. E é justamente quando essa pausa é tomada como solução definitiva que nasce a espiritualidade como defesa. Tudo precisa ser harmonizado, elevado, transmutado e o conflito vira erro técnico. O mal-estar vira desalinhamento vibracional, a angústia se transforma em “energia densa” e o negativo precisa ser rapidamente convertido em luz - ou em qualquer outra metáfora moral que impeça a sua escuta.
Nesse cenário, o sujeito não se transforma; ele se protege. Se protege daquilo que não fecha, que não resolve, que não se (des)integra. A espiritualidade passa a operar como um sistema sofisticado de recalque, agora perfumado por discursos de amor, consciência (planetária, ecossistêmica) e cura. O preço dessa operação é alto: o que não encontra lugar de fala retorna como atuação: mascara quem insistimos não ver ou escutar. Retorna nos vínculos, nos grupos, nas instituições espirituais, nas relações de cuidado.
“Lavar a roupa suja” é o oposto dessa lógica, pois aceita o trabalho sem aura. É olhar para o que sobra quando a experiência passa. Para o que permanece no corpo, nas relações, no exercício do poder, na posição de quem ensina, facilita, conduz, cuida. É reconhecer que nenhuma vivência (por mais intensa, bela ou transformadora) elimina o resto.
Não há iluminação que dispense trabalho depois, nem há prática que elimine o que deve vir depois à superfície. O resto é aquilo que não se harmoniza; aquilo que insiste e segue desorganizando a fantasia de pureza espiritual. É um desejo que não se pacifica; a agressividade que não vira compaixão; a sexualidade que não se espiritualiza; o narcisismo que sobrevive intacto à experiência mística e se expressa como certeza, autoridade, salvação/liberação oferecida ao outro.
Para professores de yoga, instrutores de meditação e terapeutas holistas, esse não é um ataque: é um chamado ético. O ponto não é abandonar as práticas, mas a promessa silenciosa que muitas vezes as acompanha: a promessa de cura total, de resolução final, de sujeito pacificado. Toda vez que essa promessa aparece, algo da ordem da violência simbólica se instala.
Porque onde há promessa de totalidade, não há espaço para o sujeito real. A maturidade talvez comece quando se abandona o ideal de purificação, purificador e pureza e se assume a implicação. Quando se reconhece que conduzir práticas, rituais, cerimoniais não autoriza ninguém a ocupar o lugar de “limpo”, “resolvido”, “curado”. Quando se aceita que ensinar estados de "ampliação consciência" não equivale a sustentar processos; do mesmo modo, precisamos remover do discurso de xamã, mestre, facilitador, curador ou spiritual healer qualquer resquício garantidor de salvação, cura e resolução de problemas, pois quem fará isso será o próprio sujeito em processo, nunca o terapeuta, psicanalista, psicólogo, padre ou pedagogo.
Menos espetáculo de elevação e mais responsabilidade pelo depois... depois que o êxtase acaba, que a miração se dissolve, que o samadhi passa; é aí que começa o trabalho que realmente importa. Não o trabalho de brilhar, mas o de sustentar. Não o de prometer, mas o de responder. Não o de harmonizar tudo, mas o de suportar o que não fecha e bancar seus desejos de pé.
Depois do êxtase, não vem a salvação, mas a pia, o sabão e a água fria. E é nesse gesto simples, poético (ou do saber artístico - pois toda cura da alma/espírito/mente opera sob o signo da arte e não da ciência, filosofia ou teologia) repetitivo e sem aura (longe do palco espiritual) que algo, de fato, pode começar a mudar.




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