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E AÍ, FUNCIONA?


Um jovem de, aproximadamente, uns 16-17 anos está numa área verde de um camping praticando yoga. A cena mostra a realização de alguns asanas encadeados, talvez vinyasa flow, mas qual a forma de yogar que o rapaz utiliza, é o que menos importa aqui. Ele está sem camisas e vestindo uma bermuda jeans surrada que um dia foi uma calça. Cabelos compridos presos em um rabo de cavalo desgrenhando, despojado, veste a persona do ideal-yogin-desapegado. Tudo no rapaz apresenta que sabe o que está fazendo, não é um principiante, fica evidente que já pratica há algum tempo. Ele domina as técnicas do seu yoga muito bem. Seu corpo é magro, esguio, forte. É um virtuoso do yoga.


Perto dali, mas sem ser avistada pelo rapaz, uma garota de mesma idade, o observa sentada num balanço do parque enquanto fuma um cigarro desajeitadamente. Segura e traga o cigarro de forma performática. Enquanto ela fuma, ele yoga, unidos pela insegurança. Tudo neles é ensaiado, mas, enquanto o corpo dela passa despercebido para ele, o dele, intensidades no dela. Olhos pintados com lápis preto forte, rímel, veste camiseta e calças pretas para combinar com o loiro dos seus cabelos, programadamente rebeldes. Ela parece o oposto da saúde “natural” que o rapaz ostenta. Mas são muito similares na diferença: ingênuos e alienados em seus próprios mundos|ficções ou mayas. É que o rapaz compartilha muito pouco do coletivo em que vive nele. Numa high school típica estadunidense, ela é estranha ou representa bem a obrigatória bad girl. Tudo neles, está, estranhamente, próximos e distantes.

Isso é yoga?

Ela dispara sem admiração exagerada, apenas o questiona se é o que ela imagina, por saber de vista, talvez já tenha folheado algo similar em revistas, assistido em TV ou arrastado para cima em mídias sociais. O rapaz, assim que percebe que está sendo observado, absorto, distraído ou alienado em sua prática e nos processos que lhe envolvem, se levanta rapidamente. Totalmente desconfortável, veste às pressas sua camiseta de costas para ela. Enquanto se recompõe, responde:


É a sua respiração, eles a chamam de pranayama. Ela flui com os seus movimentos, seu asana. Supõe-se que isso, conecte a mente e o corpo para abastecer seu samadhi.


Enquanto ele fala, ela, sempre na persona da parisiense, continua a se balançar. Corpo totalmente relaxado, cigarro entre os dedos, a cabeça acena afirmativamente, enquanto ele explica na persona do iluminado mestre zen. Quando ele acaba a sua exposição professoral, ela compreende que ele não está sendo arrogante, nota bem antes certa ingenuidade sedutora. Talvez, pensa ela sem se dar conta, com certeza foi assim que lhe ensinaram e dispara:


E isso, realmente, funciona?

Ele fica sem saber o que responder. Seu corpo desajeitado, congela com a pergunta e a situação, nova, distante das cartografias que ele conhece. Ninguém nunca havia questionado de forma tão pura seu sistema de crenças. Cultua Noam Chomsky, pois acha non sense o Natal, mas, contraditoriamente, afirma chackras, nadis, prana e outras invenções humanas, iguais a do menino Jesus. Toda a sua tentativa de esclarecer o que fazia, perdeu sua tração absoluta: se a Bíblia não faz sentido, por que os sutras teriam? Ele sabe que ela entendeu o que disse, não precisaria explicar mais uma vez; pior, ele não sabe responder a simples pergunta dela:


Does this, really, works?

Seu corpo não sabe como se portar à indisciplina dela. Há uma indisposição que aquela impostura comporta. Ela, seu corpo, suas roupas, o cigarro, o relaxamento, não é desconfiança se aquilo tudo sobre yoga que ele disse seria verdade. Não, não. A pergunta o obriga se posicionar se “realmente” aquilo ali que estava fazendo, realmente funciona nele. Há uma drástica transição daquele corpo de menino-homem flexível, forte, decidido sobre o que e como se colocar de novos jeitos frente a uma nova cartografia yoguica. Ela seria também uma yogin que deseja saber se o yoga dele (ou nele) está dando certo. Talvez, só seu endurecimento, sem jeito diante da presença do corpo-pergunta-jeito dessa menina-mulher que o observa, o interpela, mas, sobretudo, deseja só saber que se trata aquilo tudo nele, não em livros, mestres ou escolas.


Passam-se mais de 20 segundos entre a última pergunta dela. Bem da verdade, ele responde, mas é gestual sua fala, ele não sabe como dizer, mas o corpo sempre responde nessas e em todas as outras horas. E o corpo do menino-yogin-homem é clara: “eu não sei lhe responder”. Ela, “ouvindo” a resposta corporal dele, se levanta, anda calmamente, mas firme para mais próximo dele. Quem sabe os corpos se entenderão melhor que suas mentes? Seu quadril o enlaça no andar, mas é duro também, aquele andar performático de que pensa que sabe o que faz aos seus plenos 17 anos. Ela é tão insegura perante ao mundo quanto ele, mas conhece melhor o mundo que a envolve e atravessa do que ele, que até ontem, se deslocava na floresta. Mas ali, sozinho com ela, diferia.


Se pudesse correria, mas não tinha mais idade para tal ação disparatada, seus hormônios diziam para ficar e seus pensamentos para fugir. Yoga é um processo lento e gradual de desenvolvimento do estar à espreita. Há dois dias vencia um cervo com uma faca, hoje morria pela língua de uma Durga urbana. Ela caminha e senta há uns 10 passos dele. Ele rijo, olhar pro chão, tentando encolher o que dizer. Então ela o ajuda, e se apresenta dizendo seu nome: Claire. Parece que ele está vestindo uma roupa que não serve mais de tão apertada, seu corpo não encontra jeito de se ajustar ao encontro. É tanta intensidade pedindo passagem que ele não sabe quais comportas abrir e quais fechar, por isso, tudo entra no modo espera. Ela é plena e ele luta-fuga-congelamento. É como se sua vida corresse perigo. Sim, ele responde para mim: A minha vida, realmente, está prestes a morrer... morreu. Ele já não é o mesmo e experimenta, pela primeira vez, um savasana em tadasana.


Seu rosto se contrai em micro-expressões de fuga. Seu maxilar não cabe mais em sua rostidade: Bodevan, ele responde, meio que balbuciando seu próprio nome a ela.


Bodevan? Que tipo de nome é esse? Ela o interpela mais uma vez.

A jaula-corpo do rapaz yogin se fecha ainda mais. Quanto mais contraído, menor os pensamentos que expressam o que se passa em intensidades, muito mais forte do que passava no seu yogar alguns minutos antes. Ele se percebe encurralado. Foi pego de surpresa em sua prática pela vida vivida na vida real e, desprevenido, tem seu yogar e nome questionado. Ele está sendo desterritorializado, seu chão, nome, organismo e tudo o que o sustenta parece não se aguentar mais nesta composição. Haveria outro jeito de estar ali? Ele desapareceu. Não há um lugar em que consiga estar confortável. Apesar disso, ou devido a tudo isso, há uma nova composição se construindo. Ele é o mesmo yogin de nome Bodevan, mas não é o mesmo. Ambos se atraem. Algo está em metabolização ali.

Ele parece escolher melhor as palavras agora, antes de respondê-la:

Meus pais inventaram, responde ele olhando para o lado oposto ao corpo dela que busca encontrar frestas para os encaixes certos.

Ela, inconsciente, é também uma yogin; é a sua guru ali, naquele momento tão delicado de tentativas de (re)composição. Pode não dar nada certo. Assim, como que traçando uma fuga, mas não de afastamento, de atravessamentos. São os desejos por mais vida que desorganiza corpos, há que se alargar superfícies para afectar e ser afectado.


Ela diz:

Que esquisito, por quê?

Ela não entende o motivo de um nome tão inusitado. Qual seria o motivo do nome dele? Ele, olhando para baixo, mas na direção do corpo dela, mira os pés dela, e depois vem subindo para responder:

Nossos nomes são únicos. Só há um de nós em todo o mundo.

Elevando o olhar na seta dos olhos dela, ela que completa:

Isso é muito esquisito, retruca.

Franzindo a testa e o canto da boca, ela o desmonta mais uma vez. Não há ironia no tom de voz, é contradição na sua força mais pura que aqueles corpos buscam se completar. Mais uma vez, ele parece não caber no corpo; eleva os dois ombros juntos, movimento ríspido jogando o queixo para o lado, quase como um tique ou tentativa de sair do corpo que não lhe cabe do jeito que está, pede outro corpo, clama por Artaud e seus corpo-sem-órgãos. Ele mira sua cabeça para o alto, como se estivesse buscando algum apoio, divino talvez? Ele acredita em deuses? É possível ser yogin e ignorar Shiva? Ou seriam todos os deuses uma fraude, mayas ou só mitos?


Ela sorri de forma malandra. Parece agora que já o leu desde o início - estaria ela em samyama nele? Acomoda um novo cigarro no canto da boca, agarrando-o entre os dentes, sem tocar nos lábios. Ela parece brincar com eles agora - o cigarro, a boca e o que restou de Bodevan - tamanho o domínio corporal sobre ele|corpo-dele. Cada gesto, propositadamente pensando para deixá-lo constrangido de quem ele pensava ser, sem ação, força uma abertura em ato-reflexo, como que os corpos realizam, naturalmente, depois que se prende por muito tempo o ar, sabe? Ela é uma xamã quebrando a demanda que fizeram para ele. Ela está abrindo os portais ou canais de um corpo fechado. A frequência cardíaca acelera, falta ar no lugar, parece que vai morrer, mas depois de alguns segundo do limite, nos abrimos num grau profundo de relaxamento e fruição pelas aberturas. Ela sabe disso, é uma fisiologista espiritual.


Todos seus movimentos foram calculados com prudência para encurralá-lo, deixando-o sem ação, sem saber para onde ir. Ele busca construir uma rota-de-fuga. Ela desmonta todo um discurso pronto sobre o que é o yoga, não para buscar uma resposta definitiva, mas para levá-lo ao cerne do yogar autêntico: duvide. Até seu nome é dissolvido no processo. O que era, até então, algo exclusivo em todo o mundo - perde o sentido. Samadhi, ela sabe muito bem, pois é Durga naquele corpo de menina-mulher. Talvez, ambos, repitam um para o outro em silêncio no segundo ato: isso tudo é muito esquisito, rindo das vidas que viveram. Ambos sabem que são estranhos um para o outro e para os coletivos, que insistem em ordená-los de fora. Eles não se sente bem com isso, desalienando-se.


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