Quarando as Roupas Místicas no Varal: um ensaio sobre o esquecimento contemporâneo do conceito de viveka
- PhD. Roberto Simões

- há 7 horas
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(ou: o tempo esquecido entre o êxtase e a decisão)
Depois do samādhi, lava-se a roupa suja. Ressentimentos, raivas, recalques, afetos liberados por uma experiência de êxtase: no yoga, na meditação, numa cerimônia com ayahuasca, num atendimento de reiki ou em qualquer prática que suspenda, ainda que provisoriamente, as defesas habituais do sujeito. Mas lavar não encerra o processo. Lavar apenas retira a sujeira mais grossa, o excesso, o que estava colado à superfície.
Entre lavar e guardar existe uma etapa decisiva, quase sempre esquecida: quarar a roupa no varal.
Estender é expor. Não para o julgamento, mas para o tempo. Para o sol, para o vento, para o olhar que passa. A roupa continua molhada, pesada, instável. Se for dobrada agora, embolora, cria mofo, mantém o cheiro do que tentou ser limpo. Da mesma forma, o material psíquico que emerge no êxtase não pode ser imediatamente interpretado, resolvido ou convertido em sentido elevado. Ele precisa secar ao sol e remover suas manchas mais facilmente.
Quarar não é agir. Quarar é sustentar.
No campo das espiritualidades contemporâneas, esse tempo intermediário costuma ser atropelado. Vive-se algo intenso e logo se corre para a interpretação, para a explicação simbólica, para a moralização da experiência. O sujeito quer saber o que foi, o que significa, o que fazer com isso. E encontra prontamente alguém disposto a responder. O facilitador, o guru, o mestre, o padrinho ocupa esse lugar. O varal é pulado.
Mas sem esse tempo de exposição, o que emerge no êxtase permanece úmido, colado, indistinto. Ressentimentos lavados, mas não arejados. Desejos liberados, mas ainda confusos. Agressividades reconhecidas, mas não diferenciadas. A experiência fica vulnerável a dois destinos igualmente problemáticos: ou é rapidamente idealizada, ou rapidamente recalcada de novo.
Estender a roupa no varal é permitir que o material fique à vista, inclusive para o próprio sujeito. Não para ser corrigido, mas para ser observado. É aceitar a vulnerabilidade de não saber ainda, sustentar o desconforto de não decidir imediatamente e permitir que o tempo faça seu trabalho silencioso.
Aqui começa a preparação para o discernimento, mas ainda não é viveka. Viveka não opera sobre o molhado. O discernimento exige que o material esteja minimamente seco, que os afetos tenham perdido a urgência, que a experiência tenha decantado. Antes disso, qualquer decisão é precipitada, qualquer interpretação tende a ser defensiva.
É nesse ponto que a responsabilidade costuma ser novamente terceirizada. O sujeito, desconfortável com a exposição, pede ao outro que retire a roupa do varal, que diga quando está pronta, que dobre por ele. Nasce aí a dependência espiritual. Não porque o outro seja necessariamente autoritário, mas porque o sujeito não suporta o tempo da secagem.
O êxtase abre. A lavagem limpa. Mas é o quarar que separa o vivido do elaborado.
A metáfora ajuda a compreender por que tantas experiências espirituais, embora intensas, não produzem transformação duradoura. Falta o tempo de exposição. Falta o sol da realidade cotidiana. Falta o vento dos vínculos, das frustrações, dos retornos à vida comum. A roupa é recolhida cedo demais.
A estética espiritual contemporânea tem horror a esse tempo intermediário. Ela prefere narrativas de passagem direta: da sujeira à iluminação, do trauma à cura, da dor ao amor. Mas a vida psíquica não obedece a esse roteiro. Ela exige intervalos, pausas, atravessamentos incertos.
Somente após estendida, arejada e quarada ao sol e ao vento é que a roupa pode ser guardada. E é só então que viveka entra em cena. Não como iluminação, mas como decisão. O que fica? O que muda de lugar? O que já não serve? O que exige outro cuidado? Viveka não resolve o passado; ele organiza o presente com base no que foi visto com clareza.
Radicalizar viveka como antídoto ao guruísmo contemporâneo implica, antes de tudo, defender o direito — e o dever — desse tempo no varal. Um caminho espiritual que não sustenta a exposição, que não tolera a umidade do processo, que promete respostas rápidas, prepara o terreno para a dependência. Onde não há tempo, alguém decidirá por você.
Talvez a ética do cuidado, no yoga, na meditação e nas terapêuticas holistas, comece exatamente aí: não recolher a roupa cedo demais. Não oferecer sentido antes da secagem. Não ocupar o lugar de quem sabe quando o outro está pronto. Sustentar o tempo do varal como parte do caminho.
Depois do samādhi, lava-se a roupa suja. Após lavar, estende-se a roupa ao sol e ao vento para remover suas manchas mais facilmente. E só muito depois (sem pressa, sem promessa) é que se decide o que fazer com ela.




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