Yogis-Cientistas ou Cientistas-Monges


Introdução

O ioga moderno se vê envolto em uma posição identitária paradoxal e de difícil compreensão tanto aos acadêmicos que investigam os aspectos biológicos ou sociais de seus ritos e escrituras, quanto a seus próprios atores sociais (leigos, mestres ou simples praticantes). Especificamente me refiro as suas relações com a real disposição como fenômeno social contemporâneo. Me explico melhor: o ioga se confunde atualmente entre uma denominação espiritual vinculada aos valores religiosos hinduístas, e uma técnica laica de desenvolvimento comportamental, físico e terapêutico, vinculada aos saberes da Ciência (SIMÕES, 2011).

O que demonstrarei neste pequeno ensaio será uma possível chave interpretativa do ioga moderno que, ao invés de buscar defini-lo excluindo uma ou outra classificação, as une numa única perspectiva a partir dos conceitos de Campo, Habitus, Capital de poder e Sistema simbólico da sociologia de Bourdieu. Não fuja se você não for da área, encare, vai dar certo. Te conduzirei pela mão.

O fenômeno social ioga pode ser avistado como uma estrutura estruturante gerido por um corpo de especialistas que atuam em seu próprio campo espiritual. Este campo atua aonde a cura do estresse é a moeda de disputa (capital simbólico) atualmente. Dessa forma, a questão do ioga ser uma prática espiritual, terapêutica ou de condicionamento físico perde sua relevância, pois todas essas classificações estarão em disputa no mesmo microuniverso mascarando uma luta (nem sempre) velada entre seus agentes.

Ioga, ciência e Nova Era

Em complexas sociedades modernas, a secularização e a privatização religiosa autorizaram novas expressões espirituais ingressarem na disputa pela hegemonia com antigos fenômenos religiosos dominantes (BOURDIEU, 2011, p.79-98). Com isso, práticas rituais antes incorporadas exclusivamente no seio de religiões já institucionalizadas, foram transplantadas do Oriente para o Ocidente à convite do movimento Nova Era como terapêuticas espirituais (CHAMPION, 1989). Foi assim que o ioga, a partir do seu vínculo com o Hinduísmo, é transplantado para nossa cultura (MALUF, 2005).

As principais características da espiritualidade Nova Era estão em sua obsessão pela cura, no flerte com a Ciência, no caráter errante e de bricolagem de seus agentes; mas sobretudo, por se desenvolverem com mais propriedade no meio urbano das grandes cidades de economia neoliberal (AMARAL, 2000). Só no Brasil por exemplo, são mais de 14 milhões de indivíduos - cerca de 7% da população - que se declaram seguir denominações religiosas de matiz oriental de acordo com o censo do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas) de 2010; e dentre estas, não seria surpresa (se o recenseador incluísse a opção) observar uma parcela significativa adotando o ioga entre seu sistema de crenças. O ioga por aqui vem incorporando elementos religiosos daimistas, umbandistas, espíritas e cristãos e ganhando adeptos, além de multiplicar o seu número de cursos de formação das mais diversas escolas e tradições. Ao mesmo tempo, observamos um crescente de publicações de artigos, livros, dvd’s e sites associando as práticas ioguicas com a remissão das mais diversas doenças.

Em outro estudo investiguei o quanto das escrituras ioguicas antigas foram sendo ressignificadas modernamente no seu contato com a Ciência, em específico a fisiologia. Desse flerte revelamos ao mesmo tempo iogues que se auto-afirmam seculares e desencantados, convivendo com outros mais espiritualizados e tradicionalistas (SIMÕES, 2011). Ao final do meu mestrado ainda em 2011 me interrogava como o ioga, mesmo assistindo a ciência biomédica profanar as suas práticas rituais em técnicas terapêuticas laicas de cura, conseguia ainda sustentar-se como caminho espiritual para muitos.

O que nos propomos a seguir será descrever a dialética que se estabelece entre ioga-biomedicina que, ao invés de desencantar o ioga, tem se comportado como legitimador de seu novo sistema de crenças. Em palavras mais simples, ao invés dos textos sagrados indianos, são os artigos científicos em biologia que autenticam a "veracidade" do ioga contemporaneamente.

O ioga e sua proposta clássica de Libertação espiritual

O ioga clássico se propõe em libertar espiritualmente o seu adepto das agruras da vida através de um caminho religioso óctuplo ou asthanga ioga (AI). O AI foi descrito no Ioga Sutras (IS) - texto sagrado aos iogues e concebido na Índia bramânica pelo iogue Patanjali alguns séculos antes e depois da era cristã - que nos apresenta a teoria dos klesas como o seu núcleo. Os klesas entendem os comportamentos de ignorância, apego, aversão, medo da morte e orgulho como obstáculos espirituais, pois serão eles os responsáveis em produzir os vrttis ou “agitação da consciência” (citta-vrttis). A Libertação da alma ioguica surgiria a partir da atenuação de citta-vrttis culminando na experiência mística do samadhi ou de comunhão com Deus (GULMINI, 2002, p.262-273; SIMÕES, 2011).

Revelamos portanto, três conceitos fundamentais à proposta clássica de libertação do ioga: os klesas, os vrttis e o samadhi. Ao contrário, os iogues e praticantes modernos parecem manifestar maior interesse na aquisição de saúde e bem-estar, do que reverenciar algum tipo específico de ética religiosa ou conduta comportamental de culto à Deus (Energia, Eu Maior, Vida Plena, Culto a Alta Performance, enfim, só se alteram as palavras, mas o conceito é o mesmo: ser mais do que se é, pois se está insatisfeito consigo mesmo) (ALTER, 2004; BAIER, 2012). Em outras palavras, minimizar os efeitos deletérios do estresse e promover o aumento dos níveis gerais de condicionamento físico e mental parecem ser a tônica do ioga praticado atualmente.

Discussão acadêmica contemporânea sobre o fenômeno ioga

Estudos revelam que as diferenças que caracterizam a passagem do ioga clássico para o moderno estão na sua medicalização e, por conseguinte, na popularização (e transformação) dos seus ritos corporais em técnicas terapêuticas e corroboradas pela ciência biomédica ocidental (ALTER, 2004; DE MICHELIS, 2008, p.23-27; LIBERMAN, 2008, p.100-116). Mesmo assim, ambivalentemente, o ioga continua a manter ainda latente a sua verve espiritual de sentido de vida e proposta de libertação religiosa.

Em uma pesquisa realizada em 2002 com 750 praticantes de ioga, revelou que 80% deles compreendem as suas práticas como auxiliares no combate o estresse, e 83% que as mesmas os permitem gozar de uma vida espiritual plena (NEWCOMBE, 2005). A investigação descreve apenas uma das denominações modernas do ioga (Iyengar ioga), mas o seu líder constitui um dos mais conhecidos mestres iogues do mundo e o seu pensamento pode representar a articulação ioga-biomedicina que buscamos revelar. Segundo Iyengar, “a pessoa indisciplinada é alguém sem religião; a pessoa disciplinada é religiosa; a saúde é religião; a doença é falta de religião” (IYENGAR, 2001, p.38). Na antropologia, pesquisas mostram ser possível estabelecer uma conexão entre doença-sagrado, medicina-religião e cura-libertação espiritual (LAPLATINE, 2011, p.213-252).

A cientista Sarah Strauss corrobora nos esclarecendo que a doença para o ioga contemporâneo não corresponde a um simples mecanismo resultante da fisiologia orgânica, mas surge da experiência subjetiva de um sentir-se mal, quase como uma angústia ou uma dor incorporada (STRAUSS, 2008). No entanto, os conceitos ocidentais de doença, dor, sofrimento e estresse podem se manifestar diferentemente dentro do pensamento indiano.

Segundo Rao, as noções de klesa (ou obstáculos espirituais, como vimos) e dukha (lit.dor, sofrimento) são os representantes mais próximos para o conceito de estresse dentro da espiritualidade contemporânea do ioga. O autor nos esclarece que klesa poderia corresponder ao agente estressor ou estresse propriamente dito, e dukha a experiência dolorosa (dor incorporada, angústia) advinda de klesa (ou estresse). O Asthanga Ioga (aquele de Patajanli e não de Jois), por sua vez, seriam as técnicas desenvolvidas pela doutrina clássica do ioga em dominar o estresse/klesa (RAO, 2012).

Bem, vamos lá! A partir dos dados obtidos de nossa discussão até agora, podemos deduzir 4 características do ioga contemporâneo que dialogam entre si dando coerência ao seu pensamento moderno: