Yoga Malandro: O início de tudo na América Latina


3.1. As origens do ioga brasileiro a partir da história latino-americana

Não é tarefa fácil traçar um panorama histórico e social do ioga na América Latina. Sempre que buscamos referências do ioga, invariavelmente, o encontramos descrito sem identidade própria e parte indistinta de algum outro fenômeno religioso. É como se o ioga apenas “emprestasse” partes da sua doutrina e práticas rituais corpóreas para compor outras espiritualidades, sem possuir microuniverso religioso próprio de atuação (ver GUERRIERO, 2006; Id., 2014).

O caráter mais terapêutico das práticas ioguicas são as que recebem o apelo maior do meio acadêmico. Para um praticante do ioga e cientista da religião, entretanto, o ioga já está bem documentado como possível fenômeno religioso autônomo em processo (DeMICHELIS, 2004; JAIN, 2014; GUERRIERO, 2014) – e ser religioso/espiritual não é menor sob o ponto de vista cognitivo. Mas não foi sempre assim, o ioga dos seus períodos antigo e medieval era percebido como darsana, o que significa pertencente ao hinduísmo. Um iogue rezando o pai-nosso, pais-de-santo praticando surya-namaskar, daimistas cantando mantras e iogues consagrando altares com os seus mestres indianos ao lado de orixás são cenários, sem dúvidas, do universo malandro brasileiro[1].

O ioga sofre modificações no seu encontro com o mundo ocidental, sobretudo da teosofia, da educação física, da biomedicina e da economia capitalista neoliberal (SINGLETON, 2005), mas também da ideologia marxista via Nova Era. Isso fez com que emergisse o que acadêmicos europeus denominaram de Ioga Postural Moderno (DeMICHELIS, 2004) como uma prática religiosa do corpo (JAIN, 2014). O meu desafio, no entanto, está em construir não somente a origem do ioga brasileiro, mas mostrar que, ao contrário de países europeus e dos Estados Unidos, os iogues latino-americanos receberam influências sociorreligiosas diferentes, o que ocasionou reformas soteriológicas e míticas interessantes e singulares.

O ioga latino-americano passou por um processo de insulamento aproximado de 80 anos. Durante todo esse período (de 1900 a 1980), o ioga na América Latina resistiu como espiritualidade sem qualquer legitimação indiana mais contundente como ocorreu na europa e estados unidos por exemplo. Isso parece ter sucedido por um afastamento natural — talvez devido a barreira idiomática (espanhol e português em vez do inglês?) —, o que dificultou a vinda e permanência de gurus indianos e, consequentemente, no estabelecimento tardio de organizações espirituais do ioga “nativo”[2]. Esse fato, por outro lado, não desautorizou o ioga a disseminar-se na América Latina, pelo contrário, produziu crenças, mestres e sistemas de práticas sincretizados por elementos religiosos nativos e cristãos, tornando algumas expressões ioguicas únicas — como é o caso do ioga brasileiro Caminho do Coração do Swami Prem Baba, o Sattva Yoga do chileno Gustavo Ponce, o Yoga Cubano de Eduardo Pimentel, o SwáSthya-Yôga d’DeRose disseminado por muitos países sul-americanos, o Yoghismo desenvolvido na Venezuela por Serge Raynaud e a Yogaterapia do Prof. Hermógenes no Brasil.

Pela escassez de informações acadêmicas, coletei o maior número possível de dados sobre as principais escolas e tradições ioguicas que chegaram às cidades latino-americanas nos próprios sites de divulgação das mais importantes organizações ioguicas presentes, mas também em biografias, revistas de divulgação dos próprios núcleos e alguns poucos trabalhos acadêmicos. Identifiquei também os principais personagens nativos e estrangeiros que participaram (e ainda participam) da difusão do ioga como fenômeno espiritual latino-americano. Por fim, verifiquei a veracidade desses dados com iogues representantes dessas instituições, além de livros, teses e dissertações acadêmicas sobre o assunto. Para enriquecer ainda mais este livro, entrevistei dez iogues brasileiros e três cientistas da área da saúde que pesquisam o ioga como terapia (descritas no próximo capítulo).

Em posse desses dados, identifiquei cinco fases distintas que compuseram a identidade do ioga na América Latina: 1) Fase Místico-esotérica, 2) Fase Visitando a Índia, 3) Fase Ioga Indiano conhecendo o Ioga Latino-Americano, 4) Fase Busca Identitária, e 5) Fase Tensão Híbridos vs Tradicionalistas.

A análise da configuração do ioga latino-americano nos auxiliará a perceber os caminhos pelos quais os iogues brasileiros inovam e readequam a teoria dos klesas, descrita no capítulo anterior pelos indianos, emprestando termos e conceitos biomédicos e das religiões nativas.

3.1.1. Fase Místico-Esotérica

Segundo informações coletadas nos sites dos próprios personagens e de outras fontes, o ioga desembarca na América Latina entre 1899–1900 com a norte-americana Katherine Augusta Westcott Tingley. Essa discípula de Helena Blavatsky, funda a primeira escola de ensino infantil com influências filosóficas do ioga de que se tem notícia na América Latina: o Raja Yoga Academy, na capital cubana (TINGLEY, 2012). O objetivo de Tingley será o mesmo dos próximos três personagens que aparecem neste início de ioga latino-americano: difundir os ensinamentos ioguicos por meio de denominações esotéricas, como a teosofia, o martinismo, a rosa-cruz e a maçonaria. Neste momento histórico, pela ausência de iogues indianos que legitimassem o que era ou não da “tradição do ioga”, figuras carismáticas e controversas, em sua maioria pertencentes de instituições herméticas e ocultistas como Tingley, farão o ioga se estabelecer no contexto latino-americano entre os anos de 1900–1950. A principal contribuição deles para o ioga é o caráter de terapia espiritual e hibridismo religioso que difundem entre seus discípulos.

Assim como Tingley, acredita-se que outro imigrante, o francês Léo Alvarez Costet de Mascheville (antes Jehel, depois Swami Servananda) viaja a Argentina, o Uruguai e o Brasil entre os anos de 1924–1947. Arrolando ensinamentos secretos de uma ordem iniciática chamada de Grupo Independente de Estudos Esotéricos (GIDEE), apresenta o ioga como veículo de desenvolvimento espiritual. Ao lado da Cabala, da Astrologia, do Budismo e de outros elementos ocultistas de origem martinista e da Associação Mística Internacional (AMO) — ordem esotérica originada por outro iogue francês estabelecido no Uruguai: Cesar Della Rosa[3] —, o ioga latino-americano vai se difundindo discretamente e bastante difuso.

Serge Raynaud de La Ferriere, o nosso último personagem da primeira fase ioguica latino-americana, parece ter chegado a Medelim, Colômbia em 1947. O seu intento estava em difundir o ioga através da ordem mística europeia Grande Fraternidade Universal ou A Missão da Ordem de Aquarius. Em Caracas, Venezuela, Serge Raynaud inaugura a primeira sede da sua ordem esotérica e um ashram com aulas gratuitas e repetindo o mesmo acontecimento na capital colombiana em 1958. Pode-se pressupor que o ioga entre os latino-americanos, até meados dos anos de 1960, ainda não possuía características autônomas que o diferenciasse como espiritualidade singular. Tingley, Léo Alvarez, Cesar Della Rosa Bandio e Serge Raynaud de La Ferriere, disseminam e iniciam outros em um ioga esotérico e místico, além de exercerem um papel quase mítico na história do ioga pelos países latino-americanos.

Cesar Bandio, por exemplo, é reconhecido ainda hoje, em alguns círculos ioguicos modernos, como discípulo direto de Ramakrshina e amigo íntimo do Swami Sivananda — fato este não confirmado pelos discípulos modernos nem de um nem de outro. Registros também atribuem a Cesar Bandio a fundação da primeira Federação Internacional de Ioga na França, no Uruguai e na Argentina, entre os anos de 1936–1941. Os fatos mostram também a importância de Léo Costet no início do ioga sul-americano, pois em 1947, L. Costet teria realizado uma palestra sobre ioga, provavelmente em alguma ordem esotérica do Rio de Janeiro, Brasil, despertando o interesse do público conservador e católico, em especial do General Caio Miranda, que virá a ser o primeiro e grande difusor do ioga brasileiro.