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O corpo que deseja obedecer: Reich, Safatle e a possibilidade de um yogar antifascista

há 4 dias
9 min de leitura

Há uma pergunta que me parece incontornável para pensar o yoga/meditação no Brasil de hoje: o que acontece com o desejo, com o corpo e com a nossa capacidade de agir quando o autoritarismo deixa de ser apenas um programa político e passa a organizar a maneira como sentimos, amamos, odiamos e nos relacionamos com os outros?


A questão é importante neste momento em que nos aproximamos do segundo turno e a possibilidade de retorno da família Bolsonaro ao centro do poder recoloca em disputa não apenas um projeto de governo, mas também formas de vida, modos de relação e concepções de liberdade. O bolsonarismo não se sustenta somente em argumentos, promessas eleitorais ou interesses econômicos. Ele também mobiliza afetos, produz identificações, oferece pertencimento e transforma o ressentimento em força política.


Para compreender essa dimensão, Wilhelm Reich continua sendo um interlocutor incontornável. E, para pensar a especificidade brasileira dessa política dos afetos, as análises de Vladimir Safatle oferecem ferramentas importantes. O encontro entre esses autores permite formular uma questão que interessa diretamente a quem pratica, ensina ou pesquisa yoga: é possível transformar o corpo sem transformar as relações de poder que atravessam esse corpo? A resposta exige abandonar a ideia de que trabalhar sobre si mesmo seja, por definição, um gesto de libertação.


O fascismo não começa na urna: ele também se aprende no corpo

Em Psicologia de massas do fascismo, publicado originalmente em 1933, Reich procura compreender um paradoxo: por que pessoas submetidas à exploração e à repressão podem aderir a movimentos políticos que aprofundam sua própria submissão? Por que a promessa de autoridade, disciplina e obediência pode ser desejada justamente por quem precisaria de mais liberdade?


Sua hipótese é que não basta explicar o fascismo pelas condições econômicas ou pela propaganda política. É necessário investigar como as relações de poder participam da formação do caráter, da sexualidade, dos desejos e das maneiras de experimentar o próprio corpo. A família autoritária, a moral sexual repressiva e a identificação com figuras de autoridade constituiriam, nessa análise, condições para a formação de sujeitos inclinados à obediência e à agressividade contra aquilo que ameaça a ordem estabelecida.


O fascismo, portanto, não seria apenas uma doutrina que alguém aprende a defender, mas também encontraria sustentação em disposições afetivas e corporais que tornam a submissão desejável e a liberdade ameaçadora. É preciso, evidentemente, ler Reich criticamente, i.e., suas explicações sobre sexualidade, repressão e homossexualidade carregam limitações históricas e não podem ser tomadas como uma teoria causal suficiente do fascismo. Não existe uma relação mecânica entre repressão sexual e adesão autoritária, todavia, a contribuição de W.Reich sobre assunto mais fértil está em deslocar a pergunta: não apenas o que as pessoas pensam, mas como se constituem sujeitos capazes de desejar a própria submissão.


Esse deslocamento nos interessa porque o bolsonarismo não se explica somente pelo conteúdo de suas propostas; ele também mobiliza uma determinada relação com a autoridade, com a violência, com a diferença e com a vulnerabilidade. A exaltação das armas, a nostalgia da ditadura, o desprezo por grupos historicamente marginalizados e a defesa de uma ordem moral rígida não são elementos isolados. Eles compõem uma gramática política na qual a força se apresenta como virtude, a obediência como segurança e a diferença como ameaça.


O que está em jogo não é simplesmente uma disputa entre opiniões conservadoras e progressistas, mas a produção de uma sensibilidade na qual a liberdade de algumas pessoas parece exigir a submissão de outras.


O circuito dos afetos: por que o autoritarismo pode ser desejado?

É aqui que Vladimir Safatle permite ampliar o problema. Em O circuito dos afetos: corpos políticos, desamparo e o fim do indivíduo, o filósofo investiga como os afetos participam da constituição dos sujeitos e das formas de vida coletiva. A política não atua apenas sobre o que pensamos; ela participa da produção daquilo que somos capazes de sentir, temer, desejar e reconhecer como possível. Em artigo anterior, Safatle sintetiza essa perspectiva ao afirmar que a tarefa política envolve a reconstrução dos nossos afetos. Essa perspectiva ajuda a compreender a força do bolsonarismo.


O medo (base do fascismo bolsonarista - e de todos), para o autor, não aparece apenas como reação espontânea a perigos reais, ou seja, pode ser continuamente alimentado, direcionado e convertido em instrumento de mobilização. Medo da criminalidade, do comunismo imaginário, da perda dos privilégios, da autonomia das mulheres, dos direitos da população LGBTQIA+, das transformações culturais e de qualquer forma de vida que coloque em questão a autoridade patriarcal. Ao produzir inimigos permanentes (e imaginários), esse discurso oferece uma explicação simplificada para angústias que têm origens muito mais complexas. A insegurança social ganha um culpado; a frustração encontra um alvo; o ressentimento adquire uma identidade política. E a promessa de proteção se confunde com a promessa de restaurar uma ordem na qual determinadas pessoas possam voltar a ocupar posições privilegiadas.


Em suas análises do bolsonarismo, Safatle chama atenção para a transformação dos afetos sociais, para a normalização da violência e para a construção de identificações políticas assentadas na exclusão e na indiferença diante do sofrimento alheio. Em A ameaça interna: psicanálise dos novos fascismos globais, ele também propõe investigar as condições sociais que tornam o fascismo possível, em vez de reduzi-lo a uma patologia individual ou a um desvio irracional, e isso me parece decisivo aqui, pois o sujeito autoritário (não se perde agora) não precisa ser alguém permanentemente tomado pela raiva, ele está em alguém cordial no cotidiano, disciplinado no trabalho, dedicado à família, praticante de meditação e defensor de uma rotina de autocuidado. A questão não é identificar o fascismo por uma aparência ou por um temperamento, mas investigar quais relações esse sujeito estabelece com a diferença, com a autoridade e com o sofrimento dos outros.


É possível cultivar serenidade para suportar melhor um mundo injusto sem jamais questionar a injustiça que o organiza, aprender a respirar profundamente e continuar desejando que determinados grupos tenham menos direitos, desenvolver uma extraordinária capacidade de observar as próprias sensações e permanecer completamente indiferente à dor que não se considera sua. A regulação do corpo não é, por si mesma, uma transformação política do desejo.


E o que isso tem a ver com yoga?

Tem tudo a ver, desde que deixemos de tratar o yoga como uma prática naturalmente libertadora. O yogaBR (e na Índia também, vejam Narendra Modi) pode funcionar como espaço de experimentação, ampliação da autonomia e questionamento das formas de vida que nos aprisionam. Mas também pode ser integrado à mesma racionalidade que transforma a vida em desempenho, a saúde em obrigação individual, a serenidade em produto e o sofrimento social em problema de gestão pessoal. Nessa segunda configuração, o sujeito aprende a administrar o próprio mal-estar para continuar funcionando; e é aí que a respiração serve para suportar a exploração; a meditação, para recuperar a produtividade; a disciplina corporal, para produzir uma imagem idealizada de si. Enfim, o conflito hermano(a)s deixa de ser uma experiência que pode revelar contradições do mundo e passa a ser tratado como falha de autorregulação.


Não se trata de negar os benefícios da prática corporal ou da meditação, mas se perguntar a serviço de que formas de vida esses benefícios são colocados. A pergunta reichiana nos ajuda a investigar o corpo como lugar em que as relações de poder se inscrevem, enquanto Safatle nos permite compreender que os afetos não são apenas acontecimentos privados: eles participam da constituição do campo político.


O encontro entre essas perspectivas abre uma possibilidade de pensar o yoga para além da busca por equilíbrio individual. Um yogar antifascista precisaria começar por desconfiar da própria promessa de equilíbrio quando ela exige que o sujeito se adapte a tudo, pois nem toda inquietação é um problema a ser eliminado, nem toda raiva é um obstáculo à consciência ou conflito precisa ser resolvido pela conciliação. Às vezes, o mal-estar expressa a percepção de que algo não pode continuar como está.


Isso não significa transformar a raiva em virtude absoluta, nem fazer da agressividade um programa político. O que se propõe aqui é reconhecer (relaborar em si) que os afetos precisam ser elaborados e que a serenidade, quando se converte em obrigação moral, também pode servir à obediência. Um corpo antifascista não é necessariamente um corpo relaxado, sacou? É um corpo capaz de reconhecer a violência, sustentar a diferença, suportar a incerteza e agir coletivamente sem precisar eliminar a alteridade para se sentir seguro. Em suma, é um corpo que não confunde liberdade com a possibilidade de dominar os outros.


A disciplina de si ou a invenção de outras formas de vida?

Há uma contradição importante em determinadas culturas do yoga: se fala muito em liberdade interior, mas pouco nas condições sociais que tornam a liberdade possível. Se Exalta a autonomia enquanto se reproduzem hierarquias rígidas entre mestres e discípulos. Celebramos a paz enquanto evitamos qualquer conflito que possa ameaçar a autoridade. Do mesmo modo que se defende a unidade de todos os seres enquanto se tolera a exclusão concreta de pessoas que não correspondem a determinado ideal moral, sexual, religioso ou político.


A questão não é acusar o yoga em bloco, tampouco imaginar que exista uma essência original e pura a ser recuperada. É reconhecer que nenhuma prática está fora da história.


O yoga que praticamos no Brasil (segue o fio tiazona) é atravessado pelas nossas condições econômicas, pela herança colonial e escravocrata, pelas desigualdades de classe, raça e gênero, pelo mercado do bem-estar e pelas disputas políticas do presente. Por isso, um yogar antifascista não pode consistir apenas em meditar pela paz, cultivar pensamentos positivos ou procurar uma suposta neutralidade espiritual diante da violência. A neutralidade (renansantista) também tem efeitos políticos quando serve para suspender o julgamento sobre práticas concretas de opressão.


Tampouco basta se declarar antifascista. A pergunta precisa alcançar as relações que reproduzimos nos espaços de prática: como lidamos com a autoridade? Que corpos são acolhidos e quais são constrangidos a se adaptar? Que formas de sofrimento reconhecemos? Como reagimos quando alguém questiona uma tradição, um professor ou uma crença? Que tipo de comunidade construímos quando nossas certezas são colocadas em questão?


Se o fascismo oferece pertencimento mediante a identificação com um líder e a exclusão de um inimigo, a tarefa não é simplesmente substituir um líder por outro, todavia experimentar formas de associação que não dependam da obediência, da fabricação de inimigos ou da promessa de uma identidade definitiva. Isso exige compreender a prática como investigação, e não como submissão a uma verdade superior. Exige que a transmissão não se confunda com a reprodução de uma hierarquia inquestionável, que o cuidado de si não seja separado do cuidado com as condições de existência dos outros, mas e sobretudo, precisamos abandonar a fantasia de que a transformação individual, por mais importante que seja, possa substituir a transformação das relações sociais.


Antes do segundo turno: de que lado está o nosso desejo?

A ameaça de retorno da família Bolsonaro ao poder deve ser compreendida nesse horizonte mais amplo. Não está em jogo somente quem ocupará a Presidência ou quais alianças serão construídas no Congresso. Está em disputa o tipo de sociedade que consideramos aceitável, quais vidas reconhecemos como dignas de proteção e que formas de violência estamos dispostos a tolerar em nome da segurança, da ordem ou da liberdade individual.


Uma derrota eleitoral do bolsonarismo não eliminaria automaticamente os afetos, as estruturas sociais e as formas de subjetivação que o sustentam. Da mesma maneira, a resistência a esse projeto não pode se resumir à denúncia de seus representantes. Precisamos investigar como o autoritarismo encontra apoio nas nossas relações cotidianas, nos nossos modos de consumir, nas nossas fantasias de superioridade e até nas práticas que imaginamos dedicadas exclusivamente à libertação. Reich nos obriga a perguntar como se forma um sujeito que deseja a autoridade que o submete, enquanto Safatle nos ajuda a perguntar quais circuitos de afetos tornam essa submissão suportável, desejável ou mesmo prazerosa. O yoga pode participar dessa investigação se deixar de se apresentar como um território naturalmente protegido das contradições políticas.


Talvez seja esse o sentido mais radical de um yogar antifascista: não buscar uma posição de pureza a partir da qual possamos julgar o mundo, mas desenvolver a capacidade de perceber como o mundo nos constitui e como participamos da reprodução de suas violências. Não se trata de usar a meditação para nos tornarmos pessoas melhores dentro de uma sociedade que permanece intacta. Trata-se de perguntar se a prática pode nos tornar mais capazes de transformar, com outras pessoas, as relações que produzem sofrimento, medo e submissão. Porque se "libertar" não pode significar apenas aprender a suportar melhor aquilo que nos oprime, como o "cuidar de si" não pode significar abandonar o mundo àqueles que o desejam governar pelo medo.


Um yogar antifascista não promete paz a qualquer preço; ele investiga as condições em que a paz deixa de ser o nome da obediência e passa a significar a possibilidade concreta de vivermos juntos sem que alguns precisem dominar os outros. Insistiria uma vez mais que precisamos, antes de falar em liber[t]ação, perguntar o que estamos dispostos a fazer com a nossa liberdade. E, sobretudo, se somos capazes de desejá-la também para aqueles que não se parecem conosco.


Referências fundamentais

REICH, W. Psicologia de massas do fascismo. Obra original publicada em 1933.

SAFATLE, V. O circuito dos afetos: corpos políticos, desamparo e o fim do indivíduo. Belo Horizonte: Autêntica, 2015.

SAFATLE, V. A ameaça interna: psicanálise dos novos fascismos globais. São Paulo: Ubu Editora.

SAFATLE, V. Uma política dos afetos. Folha de S.Paulo, 7 jan. 2014. Ler o artigo.

SAFATLE, V. República fundamentalista. Folha de S.Paulo, 23 nov. 2018. Ler o artigo.

 
 
 

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