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O PENSAR CERTO YOGUICO: YOGA COMO CLÍNICA


Há uma comunhão existente entre o corpo|sujeito e a sociedade que o compõem também. A coletividade são as populações que o habitam, ou a sociedade de outros corpos|eus assujeitados, mas que se compõem como um só ser organizado. Cada um singular: revoada de pássaros. A quebra de um tabu ou crença rompe essa tessitura coletivizante de assujeitamentos ajuntados. Se, mesmo que momentaneamente, acontecer uma perda de confiança (confides) ou fé no ordenador de realidade que os organizam (cosmologias, mitos, signos), tudo pode (e vai) ruir. Todos únicos, mas atravessados por subjetividades similares. Em uma só palavra: desterritorialização.


Essa desorganização, se abrupta ou imprudente, forçará uma reorganização ou reterritorialização descuidada, desatenta, às vezes grosseira. Toda reorganização de si, é uma incorporação (possessão de espectros) de antigos tabus, inovações com novas crenças: ora mantendo práticas tradicionais (consensuais) ou rompendo antigos padrões, ora “feitura” de novas crenças|tabus e práticas; um novo culto surge dissidente de antigas seitas ou religiões, jeitos outros de pensar, clinicar, participação política, etc. Em suma, toda "perda de chão", um movimento de reterritorialização faz morrer algo para (re)nascer outro. Uma coisa é certa, nada, mas nada pode ficar fora do lugar, se não corpos adoecerão. Nós humanos organizamos tudo.


Toda cura, então, não é outra coisa do que uma restauração da ordem.

A doença é algo fora do lugar, por isso muitas doenças da área psi, médicas ou xamânicas|espirituais podem envolver o reviver da situação inicial que rompeu o ordenamento. Esse deslocamento que permitiu a doença deve ser vivido, experienciado para “produzir a liberação do afeto associado ao trauma”: do trauma de um tecido orgânico, do inconsciente psicanalítico, psicofisiológico e|ou social.


“Fulano não tem nada clínico, a questão ali é do campo espiritual”.
“Não, não é possessão demoníaca, é histeria”.
“Depressão é causada pelo espírito da cobra que o estrangula e o deixa sem se mover”.
“A questão da impotência sexual é energética, precisamos fazer voltar a circular prana no chackra básico”.
“O estresse ou TDAH são inimigos de qualquer um, por isso a meditação para relaxar e diminuir os vrttis ou turbilhão da mente”.

Antes de ser serotonina, dopamina, beta-endorfina e melatonina, toda terapêutica no yoga, operava no campo mítico dos chackras desalinhados, o sêmen não controlado, a urina não ingerida, um sutra ainda não incorporado e|ou mantra não dominado. Um dia não foram as explicações neurobiológicas, mas da fisiologia sutil de uma Índia medieval com seus alquimistas, sadhus e terapeutas ayurvédicos consensuais.


Não se perde, são perspectivas e não “evolução cognitiva” de como o corpo funciona que está em jogo. Você, pensador sudestino urbano brasileiro, que conhece mais (e melhor) o mundo e seu corpo do que um carijó que viveu em 1245 em Meiembipe (antiga ilha do Desterro, hoje Floripa). Não se dominam corpos alegres. Mito e fisiologia oscilam dependendo da tecnologia clínica empregada, mas sobretudo, que construção sentido a dados corpos em espaços sociais. Revisite L.Strauss descrevendo o canto de um xamã Cuna panamenho ajudando|curando no parto de uma mulher da aldeia com pouca dilatação. O xamã se transforma num espírito (ou o evoca), entra pela vagina e remove o que constrangia sua abertura e impedindo de criança sair a vida.


Há sempre uma restauração da ordem. A reorganização, seja invasiva de uma cirurgia médica, espiritual de um médium kardecista ou de um prof. de yoga moderno, desbloqueando chackras por mantras mágicos, é psicofísica, social e histórica, tudo em simultâneo. Um só corpo aqui é pouco. Entrementes, cada xamã, yogin, médium, médico e doente precisam compartilhar das mesmas crenças|mayas ou ordenadores de realidade para a terapêutica ser eficaz. Sim, eu sei que não preciso acreditar no bisturi do cirurgião para se rasgar minha pele, mas a eficácia da ação (suas explicações de porque e como se deu ou não certo o procedimento), sim.


A cura ou eficácia se relaciona com as ativações das dimensões míticas e fisiológicas, há que expressar estados ainda não formulados: reorganizar o que seja lá que tenha causado

desordenamentos: dietas, yogas, assepsia do lugar... ah os efeitos placebos… mil rolês.


O poder não está nas palavras, toques ou aliados (mantras, asanas ou cristais), mas no “contexto situacional em que toda essa tecnologia será empregada”. A situação é performática. Exemplos: o estresse é um mal a ser extirpado a qualquer custo do corpo de qualquer yogin; relaxamento, uma espécie de encantamento que liberta ou desobssedia corpos doentes (em avidya e mayas?); e a homeostase (esse lugar psicofisiológico e espiritual onde o estresse-mal não se arvora).


Veja bem, estamos aqui destruindo a barreira natureza-cultura: natureza herdada, genética, comum a todos e cultura com todos os signos e subjetividades que nos enxertam goela a baixo socialmente. Corpo e o simbólico aqui se relacionam; não se sabe com clareza onde um começa ou acaba (haveria distinção?).


“A eficácia simbólica de uma dada terapêutica depende dos procedimentos que se operam na dimensão do pensamento, da moral e da fisiologia”.

Há, antes, que se construir um espaço poroso ou “entre” para a efetividade do símbolo conseguir atravessar o psicofisiológico pelo social e o histórico do sujeito|corpo imanente.


O samadhi é anti-estruturante, o agrimensor que possibilita yogins processar seus sadhanas em desterritorializações para se reorganizar de outros jeitos; pois do jeito que está, adoece.

É um voo místico ou despedaçamento do corpo para só depois, reagrupar seus pedaços de novo. O “entre”, aquela porosidade corpórea, precisa restaurar para voltar a fazer passar fluxos ou linhas-de-fuga: o encontro terapêutico propriamente dito.


Entenda, há uma lógica aqui, cada yogar autêntico possui uma lógica clínica também, e são infinitas as possibilidades terapêuticas.


O médico que visita Maria e informa que a paciente não tem nada clínico: “o problema dela é espiritual”.

As duas benzedeiras-médicas, atuando em conjunto com o médico da família no SUS, foram até Maria e começaram a rezar, e a medida que rezavam, pediam a paciente que abrisse os olhos.


Depois 3x o “Pai Nosso”, uma das médicas-benzedeiras correu até o banheiro e vomitou. Quando voltou junto a cama, abraçaram-se e aqueles três corpos começaram a chorar.

Seria a prática de yoga uma clínica? Teriam os espíritos obsessores do ordenamento de realidade espírita kardecista, na cosmologia yoguica contemporânea, sido corporificados em estresse? Seria o relaxamento yoguico uma terapêutica ou aliado clínico para o mal-estresse?



Quando alguém, iniciado ao plano da imanência yoga moderno, começa a meditar para “aumento de serotonina e dopamina” em si (ou auxiliando outros corpos) estaria num dos estratos que antes eram os “chackras em desalinho devido à má circulação prânica”? Não são a mesma coisa dita de outra forma, não isso não; são mitológicas fluindo, deslocando-se por outros corpos, coletivos e compondo novos signos, construindo uma subjetividade outra.


Seriam esses processos vitais (orgânicos e míticos) o motriz dos yogares vivos lá na Índia antiga e agora, aqui no Brasil?

Se injetarmos microdosagens serotoninérgicas e dopaminérgicas nas medidas verificadas em meditadores experientes, produziremos dalais lamas e krishnamurtis? Obviamente que não, pois não somos apenas uma organização biológica ou uma psique hospedada em corpos que perecem, mas composições singulares sendo afectadas por tudo que nos compõem: tudo é natureza, seu corpo inclusive. Yogar como processo terapêutico no cuidar de si: crenças coletivas, signos|subjetividades, acúmulos de tempo, duração e a psicofisiologia nos transformando em seres viventes eternamente sendo.


Não à toa nos autodenominamos de SER-humanos e não apenas, É-humanos. Queridos professores de yogares autênticos, relaxem, é totalmente compreensivo sentirem-se angustiados.

O yogar foi capturado por uma sociedade não mais do espetáculo, mas do pedagógico - salve minha amada Milla Derzett @miiladerzett e querido Thiago Oliveira @_thiagopersonal. A eficácia yoguica e suas terapêuticas exigem bem menos luta por yogas e suas verdades, e muito mais diálogo com a sociedade (e entre si). São vocês, yogins-vivinhos-da-silva que estão (re)produzindo um campo de yogares-clichês que tanto abominam, mas é o amor pelo diferente e não retóricas de aniquilação que resolveram a parada.


 

Referência Bibliográfica:


BANET, O. Do que estamos falando? Eficácia simbólica, metáforas e o "espaço entre". In: TAVARES, F. & BASSI, F. (orgs.). 2013. Para além da eficácia simbólica: estudos em ritual, religião e saúde. Salvador: UFBA. pp.101-120.


OLIVEIRA, T. 2022. Tateamentos de mundos no Yoga: ofertas, demandas, encontros. Orientador: HENS, A. TCC (graduação) – Curso de Psicologia, Faculdade de Psicologia, Universidade Federal de São Paulos, Santos.


DA CUNHA, M. & STRAVAZZON, A. 2020. Espiar e curtir: Como o yoga se transformou num produto exposto numa vitrine a venda nas redes sociais. (no prelo)

2 Comments

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Abdul Jussub
Abdul Jussub
Aug 04, 2022

Por vezes estamos a brincar na água e do nada rebenta um onda, que nos afeta e nos molha, até naqueles sítios em que pensamos ser impossível. Na minha opinião, as palavras também possuem esse poder. Uma dessa palavras é "CERTO". Certo refere que existem duas realidades, a certa e a errada. Não se domina um corpo alegre, refere o autor-xamã como que validando todas as narrativas existentes, evitando a aniquilação de qualquer uma delas. E continua mencionando que o poder não está nas palavras, toques ou aliados (mantras, asanas, mantras ou cristais), mas no “contexto situacional em que toda essa tecnologia será empregada”, validando todo o ritual inútil que tem de existir antes-durante-depois de experimentar de uma forma não…

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Lindas linhas de fuga:))

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