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O RESTO DA FANTASIA \\LIDA// E EU GOZO


Há algo na experiência humana que escapa a toda tentativa de fixação. Não se trata de um objeto oculto, de um mistério esotérico ou de uma verdade profunda aguardando revelação. Trata-se, antes, de um excesso: um resto que insiste, retorna e desfaz as formas que criamos para estabilizar o mundo. Esse excesso não é bom nem mau, não é cruel nem benevolente, mas aquilo que não se deixa capturar. Podemos imaginá-lo como um caleidoscópio em rotação infinita de formas (e fôrmas) que aparecem, se organizam por um instante e logo se desfazem, dando lugar a novas combinações. Se nada interrompesse esse movimento, não haveria continuidade, identidade ou memória: uma vida psíquica num turbilhão sem pontos de ancoragem. Entre[mentes], não vivemos em colapso permanente; algo em nós congela padrões, fixa contornos, cria nomes, imagens e narrativas. É desse esforço que nasce a possibilidade de existir em sociedade.


A linguagem é a tentativa de fixação. Nomear é traçar um limite onde antes havia fluxo, pois quando dizemos “luto”, “amor”, “trauma”, “vocação”, não eliminamos a intensidade da

experiência, mas a simbolizamos num quadro fantasioso, fantasmático ou maya, como se diz no yoga. A palavra funciona como uma borda: permite que o indizível seja, ao menos parcialmente, habitável. O mesmo ocorre com os diagnósticos, os mitos, as teorias e as histórias que contamos sobre nós mesmos, onde cada discurso é uma rede lançada sobre o movimento incessante do viver. As imagens também estabilizam, daí podemos construir figuras de quem somos (professor, mãe, pesquisador, buscador espiritual) e nelas repousamos. Essas identidades não esgotam a multiplicidade que nos atravessa, mas oferecem uma superfície (ou continente) onde o caos ganha forma. O eu, nesse sentido, seria uma pausa no movimento do caleidoscópio? Uma configuração provisória que nos permite reconhecer continuidade entre ontem e hoje? Mas acontece que nenhuma dessas fixações é definitiva. Sempre resta algo que não se encaixa, que retorna como sintoma, repetição, gozo e/ou angústia. O mesmo impasse amoroso reaparece em diferentes relações, onde o corpo manifesta dores sem causa aparente e uma sensação de vazio emerge mesmo em meio às conquistas. Esse retorno não indica falha pessoal, mas talvez,

a impossibilidade estrutural de capturar plenamente o fluxo da experiência. Toda forma deixa um resto, um mais… ainda. Quem sabe não é por isso que certos momentos são vividos como insuportáveis. Não pois algo terrível tenha acontecido, mas porque as molduras que sustentavam a realidade se romperam seja num ataque de pânico, a morte de alguém próximo, o fim de um casamento ou a perda de uma identidade profissional produzindo vertigem, estranhamento e frio na barriga: estamos em queda livre, sem chão de chegada. O que se rompe não é apenas uma situação externa, mas o conjunto de nomes e imagens que mantinham o mundo estável. O fluxo reaparece sem mediação.


Diante disso, criamos (ou nos organizam de fora) roteiros invisíveis que ordenam nosso modo de desejar e sofrer. São pequenas dramaturgias que definem posições de quem somos, o que esperamos do Outro, como nos protegemos do desamparo. Esses roteiros não eliminam o excesso, mas o tornam suportável, funcionando (de novo) como molduras através das quais o indomável se deixa entreVER sem nos destruir. Sem essas molduras, a experiência seria pura vertigem. A “maturidade” não consiste em eliminar o fluxo, mas em reconhecer sua inevitabilidade: eternamente implenos e rizomáticos. Meu deus seria prudente meter Deleuze, Guatarri no meio de Lacan? Toda promessa de harmonia definitiva, de cura total ou de identidade resolvida repousa sobre o fantasma de que o movimento pode cessar. O que denominamos vida é uma oscilação entre fixar e desfazer, nomear e perder o nome, construir formas e vê-las se transformarem?


Aprender a viver não é capturar o que escapa, mas suportar o fato de que sempre haverá um resto, onde as formas existam sem exigir que sejam eternas e reconhecer, enfim, que o chão que nos sustenta é provisório, mas ainda assim, navegar é preciso entre moinhos de vento. O excesso que não se deixa capturar não é um inimigo a ser vencido, aparece como condição mesma de que algo novo possa surgir. Se o caleidoscópio parasse, restaria apenas uma imagem fixa, morta, incapaz de gerar outras jeitos de viver. O que nos desestabiliza é também o que impede a vida de se reduzir à repetição estéril. Habitar o mundo, então, é uma dança ou jogo deangola construindo bordas mesmo sabendo que cederão um dia, abrindo fissuras para o novo atravessar fantasias plenas de sentido até não mais.


Deste modo, se partimos da ideia de que a experiência humana é atravessada por um excesso que não se deixa capturar (esse fluxo caleidoscópico que insiste para além das formas) então o sofrimento sintomático pode ser compreendido como uma tentativa rígida de fixação. Algo em nós constrói uma moldura para estabilizar o movimento, mas passa a depender dela de tal modo que toda fissura é vivida como ameaça. O looping sintomático nasce justamente aí: na repetição de uma forma que já não sustenta a vida, mas que ainda é usada como defesa contra o indomável.

 
 
 

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