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UM YOGAR SEM PROMESSAS OU GARANTIAS


O não-todo, o gozo outro e um yoga que não se fecha

Há experiências humanas que não se deixam organizar por totalidades. Elas não fundam sistemas, não estabilizam identidades, não se deixam transformar em método transmissível sem perda. São experiências que não culminam, mas insistem. Não resolvem, mas retornam. Não fecham, mas abrem um resto. Esse campo, frequentemente nomeado como místico, extático ou espiritual, pode ser pensado não como elevação, mas como desalojamento.


O que chamaremos aqui de lado não-todo não se refere a um gênero, nem a um conjunto de práticas específicas, tampouco a uma identidade espiritual. Trata-se de uma posição subjetiva possível, marcada pela impossibilidade de totalização. Nela, a experiência não se organiza a partir de um princípio único, de uma lei que governa tudo, ou de uma promessa de fechamento final. Ao contrário: o não-todo é o regime do excesso sem síntese, do que escapa à contabilidade, do que não se deixa representar por inteiro.


Nesse campo emerge um tipo de gozo radicalmente distinto do gozo organizado pelo domínio, pela apropriação ou pelo saber. Um gozo que não confirma o sujeito, mas o descentra. Não produz soberania ou identidade, mas vulnerabilidade com um certo apagamento provisório das bordas do eu. É por isso que, historicamente, esse gozo foi frequentemente descrito como místico: não porque pertença à religião, mas porque não se deixa dizer sem resto.


A experiência mística, quando não capturada por instituições ou doutrinas, não oferece garantias ou promete nada. Ela não assegura salvação, nem progresso, nem iluminação definitiva. Ao contrário do que prometem muitas narrativas espirituais contemporâneas, ela não estabiliza o sujeito em um estado superior. Ela o coloca diante de algo que o atravessa sem se deixar possuir.


Samādhi: fechamento ou furo?

No yoga, o samādhi é muitas vezes apresentado como ápice, culminação, coroamento da prática. Uma espécie de ponto final: cessação do sofrimento, dissolução do ego, união com o absoluto. Essa leitura, porém, é profundamente marcada por uma lógica de totalidade, de completude e de idealização. O samādhi torna-se um objeto a ser alcançado, acumulado, exibido ou certificado.


Mas há outra maneira de lê-lo.


Em muitas tradições, sobretudo quando lidas fora da lógica devocional ou mercadológica, o samādhi não aparece como fechamento, mas como ruptura. Não como conclusão, mas como interrupção. Não como estado permanente, mas como acontecimento instável, impossível de ser retido.


Timothy Schipke (2018), em seu artigo “Samādhi as perceptual transformation: a re-examination of Jung’s views on yoga”, argumenta que samādhi deve ser compreendido em termos de transformação epistêmica ou perceptual, e não simplesmente como um “estado ontológico fixo” ou culminação estática. O autor mostra que interpretações que tratam samādhi como uma aquisição final ou um estado ontológico são equivocadas, já que, na tradição do Yoga Sūtra, o foco está na mudança relacional e transformativa da consciência, não em um fechamento total do sujeito num estado transcendental permanente.


Nessa leitura, o samādhi não organiza uma identidade (“sou iluminado”), nem funda uma autoridade (“sei o caminho”), nem garante uma posição ética superior. Ele aparece como um ponto de falha da experiência ordinária, onde o sujeito não se reconhece mais inteiramente como centro, agente ou mestre do que vive.


É aqui que o samādhi pode ser colocado em diálogo com o gozo outro: ambos não confirmam o sujeito; ambos o colocam diante de algo que não se deixa simbolizar plenamente; ambos são experiências que não produzem saber totalizante.


Yoga como perda, não como conquista

Quando yoga é pensado como libertação definitiva, ele tende a ser capturado por uma lógica de conquista: algo que se alcança, que se possui, que se completa. Essa perspectiva de yoga combina muito bem com pedagogias espiritualizadas, com hierarquias de saber e com economias simbólicas baseadas em autoridade.


Mas há uma alternativa (na verdade, muitas): pensar yoga não como resolução, mas como perda; sem fechamento da falta, mas convivência com ela. Não há como sair do mundo, mas aprender a bancar nossos desejos ou da impossibilidade de aderir completamente às promessas de sentido.


Nesse registro, yoga/meditação não elimina o desejo, nem o sofrimento ou conflito; o que há é uma dança que desloca o modo de relação com a realidade. Yogar/meditar aqui neste registro, não há casta ou imunidade ao encontro com o Real, mas uma exposição diferente. É um yogar que não diz “acabou”, pois “não há último passo”.


Um yogar, portanto, não-todo (ou IMpleno) não funda um estado estável, mas uma ética precária ou alcança a homeostase divina. Ele não produz sujeitos pacificados, mas sujeitos menos alienados pela promessa de plenitude, uma espécie de "céu cristão" calçado de birkenstock e tomando kombucha. Não gera mestres, mas testemunhas de um limite.


O “mais, ainda”: insistência sem redenção

A experiência do gozo outro (seja chamada de mística, samādhi ou êxtase) não se organiza pela lógica do “uma vez por todas”. Ela retorna, insiste, reaparece de modo imprevisível, não se deixa acumular como capital espiritual ou progride linearmente - é sempre um processo lento (incerto) e gradual (tendo recaídas).


Por isso, ela pode ser descrita como um “mais, ainda”: não no sentido de acréscimo quantitativo, mas de insistência sem fechamento. Algo que volta a tocar o corpo e a linguagem sem jamais se estabilizar como verdade última.


Essa insistência é justamente o que a torna perigosa para instituições, escolas e mercados espirituais. Um gozo que não se totaliza não funda comunidade homogênea. Um yogar que não se completa não legitima hierarquias e/ou conduz a samādhis definitivos (e/ou definidores); aqui, não há método garantido.


Talvez por isso tantas tradições tenham tentado domesticar essas experiências, transformando-as em ideais, metas ou dogmas. Mas o preço dessa domesticação é alto: perde-se justamente aquilo que nelas havia de mais vivo - o encontro com um real que não se deixa governar.


Conclusão: uma espiritualidade sem garantia

Pensar o samādhi em diálogo com o gozo outro e com um yogar não-todo implica renunciar à promessa de plenitude (onde nada falta). Implica aceitar que há experiências que atravessam o sujeito sem o redimir, sem o curar por inteiro, sem o pacificar definitivamente.


Essa não é uma espiritualidade do alívio, que tampona angústias, mas da exposição e do desejo. Não uma prática de adaptação, mas de fricção com o limite, sem uma pedagogia da harmonia, por isso uma ética do inacabado ou da inconstância que habita os espíritos selvagens (salve Viveiros de Castro).


Talvez seja justamente aí, nesse ponto em que nada se fecha, nada se garante e nada se possui, que algo do real se deixa tocar. Não para ser dominado, mas para ser sustentado; mesmo que seja apenas por um instante, num acontecimento de atos poéticos (salve Mago Emiliano, meu querido patrício lisboeta). Mesmo que seja sempre, ainda, mais, ainda.


Referência Bibliográfica

LACAN, Jacques. O seminário, livro 20: mais, ainda (1972–1973). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1985.


SCHIPKE, Timothy. Samādhi as perceptual transformation: a re-examination of Jung’s views on yoga. International Journal of Jungian Studies, v. 11, n. 1, p. 65-78, 2019.

 
 
 

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