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Yoga, hegemonia e proletarização da espiritualidade

Uma leitura crítica do yoga moderno exige abandonar a fantasia espiritualista segundo a qual yogues, professores de yoga e as pessoas ordinárias seriam diferentes, como se ocupassem classes sociais outras, transcendente e exterior à história. O que os estudos históricos recentes demonstram é precisamente o contrário: os professores de yoga, yogues e os considerados ordinários ou subalternizados (ou não "evoluídos espiritualmente") são inseparáveis das transformações produzidas pela colonização, nacionalismo moderno indiano, racionalidade biomédica e expansão global do capitalismo.


Historicamente, inúmeros yogues do sul da Ásia pertenciam a sampradāyas, linhagens religiosas organizadas em torno de gurus, mathas, akharas e ordens ascéticas. Muitos eram sādhus errantes, ritualistas tantrikas, curandeiro(a)s, especialistas em mantra, alquimia corporal, austeridade e técnicas de possessão (WHITE, 2012; MALLINSON; SINGLETON, 2017). Suas existências não estavam organizadam segundo a lógica moderna da profissão liberal, pois viviam de patronagem, terras vinculadas a templos, circulação ritual e inserção comunitária. O trabalho espiritual não se encontrava separado da cosmologia, da política, da medicina, da magia e da organização coletiva da vida. Mais simples, ordens ascéticas e yoguicas sul-asiáticas pré-modernas estavam integradas a eram sustentados por redes complexas de troca social, prestígio religioso, proteção política e economia ritual, não operando segundo a lógica moderna de profissionais especializados e remunerados por isso: clientes -> serviços espirituais -> pagamento (PINCH, 2006) [1].


Com a colonização britânica, ocorre uma ruptura decisiva. O capitalismo colonial corrói essas formas tradicionais de subsistência [2], redefine práticas religiosas segundo critérios de racionalidade moderna e transforma numerosos ascetas em figuras consideradas improdutivas, supersticiosas e/ou perigosas (PINCH, 2006; ALTER, 2004). Simultaneamente, elites indianas reformistas passam a reinterpretar o yoga para torná-lo compatível com o olhar burguês europeu, com o discurso científico e com os projetos nacionalistas modernos (DE MICHELIS, 2004). É nesse contexto que o yoga começa a ser progressivamente reconfigurado como tecnologia corporal universal [3].


Sob perspectiva marxista, tal processo pode ser compreendido como proletarização e mercantilização da espiritualidade [4]. Os yogues pré-modernos controlavam relativamente seus próprios meios simbólicos de produção: rituais, linhagens, iniciações, tempo, espaços o que era ou não sagrado, comunidades. Já o professor de yoga/meditação moderno (e os poucos yogues que conhecemos) passam a vender suas forças de trabalho em academias, aplicativos, retiros, plataformas digitais e estúdios-boutique pertencentes à indústria global do wellness. O capital realiza aqui uma separação clássica, i,.e, separa o trabalhador/artesão de seus meios de produção e converte experiência subjetiva em mercadoria.


Assim, aquilo que antes era sādhana transforma-se em “aula”, iniciação se converte em certificação; samādhi passa a ser traduzido como “redução de estresse” [5]; libertação espiritual torna-se “qualidade de vida” e etc. O yoga moderno deixa gradualmente de operar como cosmologia para funcionar como tecnologia de gestão subjetiva [6]. O professor(a) de yoga/meditação (e aqui incluiria também alguns terapeutas holísticos/nova era) torna-se trabalhador afetivo e imaterial. Ele vende presença, escuta, calma, transcendência, regulação emocional e estética corporal, onde seu corpo se converte em capital performático, sua espiritualidade em branding e, enfim, toda a sua autenticidade adquire valor de mercado.


Nesse ponto, a crítica marxista aproxima-se das análises de Antonio Gramsci, Herbert Marcuse e Michel Foucault. O capitalismo tardio não captura apenas força muscular, mas passa a capturar libidos, desejos, subjetividades, atenção e formas de vida (FOUCAULT, 2008; MARCUSE, 1975).


Pela perspectiva gramsciana, nenhuma ordem social se sustenta apenas pela coerção econômica. O capitalismo produz hegemonia, ou seja, uma dimensão/direção moral, estética, afetiva e intelectual da sociedade (GRAMSCI, 2001). Os sujeitos passam a desejar espontaneamente aquilo que os domina. O yoga atual participa frequentemente dessa hegemonia quando ensina adaptação subjetiva ao sofrimento neoliberal, p.e. Respira-se para continuar produzindo, muitos meditam para suportar precarização e o sofrimento estrutural vai sendo deslocado para o indivíduo, transformando exploração social em falha subjetiva administrável. Nesse sentido, o yoga passa a operar muitas vezes como aparelho privado de hegemonia, semelhante às instituições culturais analisadas por Gramsci. Em vez de confrontar a aceleração capitalista (como yogues budistas confrontavam a hegemonia das castas védicas na Índia), oferece estratégias individuais de adaptação nervosa ao esgotamento.


Entretanto, toda hegemonia contém fissuras. O yoga conserva potencial contra-hegemônico justamente porque trabalha diretamente sobre corpo, atenção, desejo, prazer, sofrimento e temporalidade. Atua precisamente nos territórios colonizados pelo neoliberalismo. Talvez sua potência revolucionária (tanto pelas bandas de lá ontem, quanto pelas bandas de cá hoje) já não esteja em restaurar cosmologias védicas tradicionais ou metafísicas kármicas que, em muitos casos, sustentaram formas históricas de hierarquia social; mas na disputa pela organização sensível da vida cotidiana.


Um yoga contra-hegemônico implicaria deslocamentos profundos, onde o professor(a) de yoga/meditação (quando não alienado do seu fazer) deixaria de operar apenas como coach espiritual da performance emocional ou sacerdotisa de um Tantrismo "não-dual" sexualizado para atuar como intelectual orgânico de novas formas coletivas de existência. Em vez de vender “alta performance consciente”, yogares vidyanos (ou desalienados e desalienantes) poderiam denunciar a captura neoliberal da subjetividade, reconstruir vínculos comunitários, desacelerar temporalidades capitalistas, politizar sofrimento psíquico, apontar capturas religiosas e produzir espaços coletivos de cuidado e escuta.


A questão deixaria de ser “como regular meu estresse?” para tornar-se “que tipo de sociedade produz corpos permanentemente exaustos?”. Aqui o yoga reencontraria algo paradoxalmente próximo das antigas tradições ascéticas: uma recusa prática do mundo dominante. Não mais contra mayas metafísicos, mas se desvinculando à mercantilização integral da vida, a hiperprodutividade, a captura algorítmica da atenção e a colonização do desejo pelo consumo.


No contexto brasileiro, essa problemática adquire contornos particulares. O yoga foi amplamente absorvido pelas classes médias urbanas como prática terapêutica, estética e identitária. Muitas vezes, tornou-se signo de distinção cultural, empreendedorismo espiritual e gestão individualizada do sofrimento. Entretanto, o Brasil atual vive simultaneamente uma intensificação do sofrimento psíquico coletivo, da precarização laboral, da fragmentação comunitária e da medicalização da existência. Talvez o futuro do yoga no Brasil dependa precisamente da forma como responderá a essa contradição.


Sob perspectiva psicanalítica, o neoliberalismo produz sujeitos marcados por imperativos centrados excessivamente no Eu-do-desempenho, felicidade eterna e uma espécie de busca por homeostase divina onde o "mal-estresse" nunca mais o encontre. Como observam leituras contemporâneas inspiradas em Freud e Lacan, o sujeito neoliberal não é simplesmente reprimido, mas compelido a gozar continuamente, a performar saúde, equilíbrio, produtividade e autenticidade.


O yogaBR hoje frequentemente participa dessa economia libidinal quando transforma espiritualidade em ideal narcísico de completude, a tal da Plenitude que virou sinônimo de moksa ou libertação de todo o sofrimento humano: um delírio coletivo ultraconservador inclusive de volta a um passado idílico que nunca existiu. O corpo torna-se objeto incessante de aperfeiçoamento, a meditação se converte em técnica de autorregulação produtiva, o “autoconhecimento” reduzido à administração eficiente da própria performance emocional. Nesse cenário, talvez a questão decisiva não seja mais “como alcançar iluminação?”, mas impedir que o próprio desejo seja inteiramente colonizado pela lógica mercantil.


Um yoga efetivamente crítico, diria radical, talvez precise recuperar algo da sua negatividade perdida. Não uma transcendência escapista, mas a capacidade yoguica de sustentar conflitos, limites, incompletudes e mal-estar sem imediatamente convertê-los em mercadoria terapêutica - ou desespero. Talvez seja precisamente aí que resida sua possibilidade futura: menos como técnica de adaptação narcísica ao colapso e mais como prática coletiva de elaboração do sofrimento histórico, reconstrução do comum e transformação das formas outras de existência.


Notas de Rodapé

[1] Pinch mostra que a memória histórica desses ascetas guerreiros foi progressivamente apagada não apenas pelo imaginário moderno que associa o hinduísmo à passividade espiritual ou ao pacifismo, mas também pelos próprios processos coloniais e devocionais que “domesticaram” essas figuras ao longo dos séculos XIX e XX. O yogue perigoso, transgressor, armado e atravessado por práticas de poder corporal foi lentamente substituído pela imagem higienizada do sábio contemplativo, pacífico e disciplinado. Mas muitos desses ascetas estavam longe de representar uma espiritualidade dócil. Eram figuras que articulavam violência ritual, treinamento corporal, guerra, êxtase, ascese e poder político. As armas não apareciam como simples instrumentos militares separados da espiritualidade. Integravam um campo mais amplo de shaktiyoga, isto é, práticas voltadas ao manejo de forças extraordinárias do corpo, da mente e do cosmos. Pinch resgata justamente esse yogue apagado pela modernidade colonial: não o mestre wellness da paz interior, mas o asceta inquietante, errante, ambíguo e socialmente indomesticável, cuja própria existência atravessava religião, magia, política e guerra. Talvez não seja coincidência que o deus mítico criador do yoga (Shiva), seja meio homem, meio mulher e considerado um artista que, enquanto dança, destrói tudo ao seu redor num bailado de fogo, como o fazem as pomba-giras e exús no terreiros brasileiros.

[2] “Colonização destruiu formas tradicionais”. O colonialismo britânico não “eliminou” os yogues, mas os repriomiu fortemente, criminalizando práticas, reorganizando-os economicamente e também forçando ordens ascéticas a se adaptarem estrategicamente.

[3] Samādhi virou redução de estresse”. Isso é uma formulação ensaística e crítica, não descrição histórica literal. Uso aqui como metáfora sociológica da tradução neoliberal do yoga.

[4] “Yoga como tecnologia corporal universal”. Me alinho aqui à literatura acadêmica contemporânea sobre yoga moderno transnacional; especialmente em Singleton, De Michelis e Alter.

[5] “Proletarização dos yogues”. Essa formulação é minha interpretação crítica marxista e não uma tese formulada literalmente nesses termos pelos autores citados. Ela é plausível teoricamente, mas convém apresentar como leitura interpretativa, não como consenso historiográfico. No entanto, serve bem ao meu propósito ensaístico aqui.

[6] “O yoga deixou de operar como cosmologia”. Isso é parcialmente verdadeiro para o yoga transnacional moderno centrado em wellness e posturalidade, especialmente conforme discutido por Mark Singleton e Elizabeth De Michelis. Mas, é importante deixar bem delienado, que não vale para todas as tradições de yoga atuais na Índia, p.e.. Há linhagens ainda profundamente cosmológicas, ritualísticas e devocionais, ou seja, muito mais próximas do conceito de novos movimentos religiosos ou seitas, no sentido da Teoria da Religião de R. Stark e W. Bainbridge (que já apresentei em outros ensaios por aqui no yogacontemporaneo.com.


Referências Bibliográficas

ALTER, Joseph S. Yoga in Modern India: The Body Between Science and Philosophy. Princeton: Princeton University Press, 2004.

DE MICHELIS, Elizabeth. A History of Modern Yoga: Patanjali and Western Esotericism. London: Continuum, 2004.

FOUCAULT, Michel. Nascimento da biopolítica. São Paulo: Martins Fontes, 2008.

GRAMSCI, Antonio. Cadernos do cárcere. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001.

MALLINSON, James; SINGLETON, Mark. Roots of Yoga. London: Penguin Books, 2017.

MARCUSE, Herbert. Eros e civilização. Rio de Janeiro: Zahar, 1975.

PINCH, William R. Warrior Ascetics and Indian Empires. Cambridge: Cambridge University Press, 2006.

PURSER, Ronald. McMindfulness. London: Repeater Books, 2019.

SINGLETON, Mark. Yoga Body: The Origins of Modern Posture Practice. Oxford: Oxford University Press, 2010.

WHITE, David Gordon. The Alchemical Body: Siddha Traditions in Medieval India. Chicago: University of Chicago Press, 2012.

 
 
 

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