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2. Swásthya-Yôga de Luiz Sérgio Derose

Atualizado: 30 de jul. de 2022




Biografia:

Luiz Derose, é contemporâneo a nossa personagem anterior e, como veremos, se apresenta quase como antítese do Yogaterapia. Luiz Derose é um jovem negro carioca da zona sul que aparece, no seu início dos anos de 1960, de certa forma, subvertendo toda moralidade cristã representada pelo Yogaterapia do Prof. Hermógenes. Em plena ditadura militar brasileira, Derose envereda para o oposto da medicalização do yoga hermogeano, e investe no aspecto hinduísta e tântrico do yoga, assim, com forte apelo moralista, tradicionalista e, ao menos no início (entre os anos de 1960-1990), bastante atrelando-se a imagem sensualista, autodidata e à técnicas para se alcançar hiperorgasmos (DEROSE, 1996. Hiperorgasmo, uma via tântrica. Ed. Martin Claret).


Segundo Derose, sua doutrina yoguica, o Swásthya-Yôga, foi sistematizado-lhe por intermédio de um espírito indiano desencarnado, de nome sri Bhavajananda, e seria anterior a chegada da cultura védica na Índia – fatos estes sem nenhum vestígio histórico material, mas que se fixou de tal forma consolidada no imaginário de suas escolas e livros, que poucos alunos contestaram essa estória (DEROSE, 2006, pp.47-49; 58-63).


Há duas fases bem distintas da vida em Luis Derose: a primeira da revelação do swásthyá-yôga quando jovem e todo o seu período (1960-2008) de consolidação das diversas escolas credenciadas com a sua marca; e a segunda, a partir de 2008, quando se amplia para Método Derose, onde o swásthya é relegado apenas as “técnicas” e o “conceito” comportamentalista se inclui na criação do Método Derose enfim, como ele mesmo hoje define seu trabalho com o yoga[1].


Atualmente, com mais de 75 anos, Luiz Derose vem buscando migrar essa imagem de corpo, sensualidade, ocultismo, mística e espiritual que construiu na maior parte da sua vida, removendo o nome swásthyá-yôga da linha de frente da sua marca de yoga, para Método Derose, onde busca direcionar para o público masculino, predominantemente, empreendedor e jovem que almejam “alta performance” e se reeducarem comportamentalmente[2].


Influências:

Este aspecto mais sensual e jovial do yoga em Luiz Derose acumulados em sua juventude, entrementes, sempre o conduziu (e seus adeptos) as perspectivas mais sensoriais e de extrema relutância por parte da terapeutização e medicalidade do Yogaterapia de Hermógenes. Estes, rivalizaram-se (nem sempre de forma velada) na disputa pela narrativa dominante do campo yoguico espiritual brasileiro até os anos de 2000. O yoga que Luiz Derose inventou, ao contrário de Hermógenes, é composto, de posturas coreografadas, mas que migrou, como adiantamos, a partir de 2008, para incluir “conceitos de reeducação comportamental”, tornando-se Método Derose. Por isso, suas influências também mudaram acompanhando sua idade septuagenária.


Segundo Luiz Derose mesmo relata, numa entrevista em 2015 para meu doutoramento, uma das suas influências passam por Caio Miranda, general em plena ditadura militar que escreve o primeiro livro sobre yoga no Brasil no início dos anos de 1960. Caio Miranda, no que lhe concerne, por mais contraditório que possa parecer, foi o primeiro brasileiro a associar yoga com a terapia, por forte influência do francês Léo Costet - idealizador do Sarva Yoga (SIMÕES, 2019).


Entre os yogues indianos, destaca-se swami Vivekananda (mas que hoje o critica) e Sivananda em que admira e visita sua espécie de templo (ou ashram), de tempos em tempos. A Maçonaria, onde é iniciado, assim como em outras ordens esotéricas, o inspira profundamente como é possível perceber em certa organização hierárquica que preza no yoga em que difunde e seus graus de elevação[3].


Entrementes, a partir da mudança do mercado yoguico brasileiro começar a receber outras escolas de yoga (norte-americanas e indianas), segundo Derose mesmo se queixa em entrevista concedida, muito “espiritualizadas”. Sendo assim, parece lícito supor, por uma mudança de estratégia mercadológica, Luiz Derose se reinventa mais uma vez, enveredando para uma certa simbiose entre seu yoga revelado, swásthya-yôga, com elementos da psicologia comportamental, como de A. Maslow, J.B. Watson e Skinner, além do Coaching, fez surgir o Método Derose.


Este aspecto novo que Luiz Derose inclui no seu yoga, como de reeducação comportamentalista aparece, sobretudo, na fase dois de sua vida. O próprio Derose encarna seu método, como o mais bem-sucedido empreendimento de yoga no Brasil e do mundo; e as dezenas de comendas de honra ao mérito que o orna em fotos, fecha o perfil yoguico neoliberal e monarquista que busca construir em torno de si mesmo e de seu yoga: de uma certa nobreza e fidalguia oligárquica que busca representar[4].


Repercussões e Legado:

Se há algo que o Brasil herda de Luiz Derose, podemos apontar dois:

1. Mercantilização do yoga em diversas escolas tipo credenciamento, mas também na comercialização de produtos de yoga;

2. Pluralização de cursos de capacitação de novos professores de yoga, como profissionais para atuar no mercado de yoga brasileiro.

Luiz Derose e seu yoga foram inspirados nos próprios indianos, como Vivekananda, Yogananda, Sivananda e Kuvalayananda, por exemplo, que criaram as primeiras escolas de yoga e cursos para formar yogues no mundo. Mas sobretudo na retórica mística de encontros com mestres de yoga desencarnados, epifanias causadas por ascetismo e outras construções mágicas. Os europeus, da fase inicial de transplantação do yoga entre os latino-americanos, como Cesar Della Rosa Bandio, no Uruguai e Argentina nos anos de 1930-40, são os que iniciam essa narrativa sobrenatural que Derose, e mesmo Hermógenes e, depois Janderson Oliveira, como veremos (SIMÕES, 2015; Id., 2020). Hermógenes, por exemplo, contemporâneo de Luiz Derose e, uma personagem antagônica a Derose, nunca expandiu seu Yogaterapia para outras cidades ou criou cursos de formação para novos professores de seu Yogaterapia atuarem profissionalmente. Isso foi pioneirismo do Luiz Derose e seu yoga.


De certa forma, e mesmo sem admitir, muitos outros yogues no Brasil se espelham nesse modelo de negócios yoguico em que Derose instituiu, sobretudo alicerçado por 3 pilares:

1. Franquiamento ou Credenciamento de novas unidades de suas escolas, ou métodos de yoga. Todos seus professores formados podem abrir suas escolas, mas se comprometem a adquirir por mês uma cota de produtos do Método Derose bastante lucrativo.

2. Cursos de Formação para capacitar novos profissionais de yoga para atuarem no mercado yoguico, em geral, como adiantamos no item anterior, se filiando ao método e, depois, abrindo seu próprio curso de formação.

3. Venda de produtos de yoga: de tapetes, props, incensos, mas sobretudo, os livros de Derose. O que, com as mensalidades dos alunos da escola e, posteriormente, abrindo um curso de formação (item 2), ajudam a manter a escola e o Método, uma rede organizada de difusão do yoga de Derose. É um negócio que se retroalimenta.

Luiz Derose, devido a sua mentalidade neoliberal e empreendedora, conseguiu expandir seus negócios empresariais em yoga para países sul-americanos, Estados Unidos e Europa e é, mesmo velado, inspiração a yogues empreendedores que assistimos hoje no Brasil.

.

(continua)


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