O Mal


Sou um Guardador de rebanhos

Sou um Guardador de rebanhos

E os meus pensamentos são todos sensações. Penso com os olhos e com os ouvidos E com as mãos e os pés E com o nariz e a boca.

Pensar numa flor é vê-la e cheirá-la E comer um fruto é saber-lhe o sentido.

Por isso quando num dia de calor Me sinto triste de gozá-lo tanto, E me deito ao comprido na erva, E fecho os olhos quentes, Sinto todo o meu corpo deitado na realidade, Sei da verdade e sou feliz.

Alberto Caeiro, Heterónimo de Fernado Pessoa

Se Deus existe, por quê o Mal vive? Pergunta teológica antiga com elegantes argumentações que buscam responder tal anseio da humanidade. Em termos da espiritualidade ioguica, podemos pensar que, se somos (todos os 7 bilhões de seres humanos) Perfeitos-em-si-mesmos, por quê sofremos mais do que nos alegramos?

Se há algo universal nas religiões/espiritualidades, é a certeza indubitável da vitória do Bem: a superação da morte ou do Mal. É por isso que em nenhuma doutrina religiosa/espiritual nós morremos de fato: Passagem, Nosso Lar, Céu, Kaivalya, Maha-Samadhi, Nirvana, Reencarnação e por aí vai. Não existindo a morte definitiva – em palavras mais simples, se sobrar alguma coisa de você, seja energia, alma, espírito, consciência/mente, meme ou qualquer outra essência pós-putrificação da carne – abre-se um espaço transcendente legítimo de crença na vitória do Bem sobre o Mal. Mas, sem as religiões, o Bem sempre perde.

Mesmo os devotos das mais antigas tradições espirituais não estão mais entre nós, pelo menos não com a mesma "pele" que habitavam em suas existências corpóreas. Mas algo permanece, ou seja, suas ideias éticas, suas invenções criativas sobre a melhor forma de se viver. James Hillman possui uma expressão que representa bem o que desejo exprimir quando afirma que os Homo-sapiens foram os animais mais hábeis em conceber “ficções que curam” seus mais profundos medos ancestrais. Ou, como abro este ensaio, sob a presença de Fernando Pessoa (Alberto Caeiro), somos “guardadores de pensamentos”.

Imagine nossos patriarcas Sapiens nas savanas da África, andando nus à noite em chuvas torrenciais em busca de uma caverna para se abrigar. Eles não são muitos ainda, bandos de 3-4 com frio, fome e medo; eles se agacham e se abraçam uns aos outros chorando iluminados pelos relâmpagos que lambem a terra molhada e por uma lua pálida, que vez por outra se apaga pelas negras nuvens de chuva. Os ventos arrancam árvores, deslocam rochas, ouve-se os gritos de outros animais sendo arrastados e mortos pela força da natureza. No outro dia, o único bicho-Homem que sobreviveu, olha ao redor e encontra seus amigos sendo devorados por outros animais, pássaros voando no límpido céu azul, enquanto outros se secam ao sol nas mesmas rochas que há poucas horas foram deslocadas violentamente pelas águas da tempestade. Mas este animal que sabe-que-sabe não, ele não possui a mesma “força” de “seguir em frente” como “se nada tivesse acontecido”. Os Sapiens foram abençoados e amaldiçoados por uma autoconsciência que os faz perceberem – cognitivamente falando – que a sua vida é finita, mas sentindo-se infinitos. Ele, ao contrário de todos os outros animais, enterra os da sua espécie. Talvez por nascer imaturo biologicamente, conviveu muito com os seus progenitores, por isso mesmo aprendeu desde cedo que não possuiria garras afiadas, não produziria venenos mortais, nem asas para voar e não conseguiria jamais desenvolver a potência necessária para correr, saltar ou coicear tão bem quanto os animais de outras espécies. O seu corpo é fraco e vai morrer!

Em compensação, os Homo-sapiens desenvolveram uma linguagem sem precedentes, e com ela um poder que os possibilitaram atingir o topo da cadeia alimentar da floresta aonde viviam, criando e propagando pensamentos, ideias, estórias, lendas, mitos, ficções. Ao invés de correrem ou lutarem com seus predadores, os Homo-sapiens os apresentam domados em circos, enjaulados em zoológicos e dissecados para estudo em museus de história natural. A natureza, antes hostil, agora é remanejada para afugentar todos os medos das chuvas torrenciais que atormentavam os nossos patriarcas nas gélidas cavernas escuras de outrora. A principal “ficção” – ou “rebanho de pensamentos a serem guardados” - que os homens e mulheres criaram foram as religiões, com suas doutrinas “sagradas”, suas filosofias e mitos. Além disso, erigiram rituais de purificação e de cura, mas sobretudo, de vinculação sócio-político-econômica-espiritual. Não é coincidência (ou maldição para alguns), que as religiões tenham sobrevivido como expressões antigas em todas as culturas por aqueles mesmos Sapiens medrosos e famintos. As religiões são úteis para a sobrevivência da espécie humana. Mesmo Nietzsche que considerava a religião cristã um “veneno”, afirmava que alguns sapiens “doentes” precisariam dela para suportar suas vidas. Na verdade, convenhamos, até Nietzsche construiu sua própria “ficção” com a sua alegoria do Super-Homem: “A minha filosofia é fruto da minha loucura”, ilustra bem o que quero dizer.

Você a esta altura pode bater no peito e argumentar sobre o Deus Imanente, aonde Tudo é Deus. Mas pense só no planeta Terra para ficar mais fácil a abstração necessária em compreender essa perspectiva, igualmente, religiosa. A filosofia da Imanência d’Deus transforma você como parte Dele. Tudo o que você fizer ou pensar é de origem Divina. Cada ação animal é parte d’Deus, que é o Todo. Você, a árvore e ondas perfeitas da Indonésia são partes Dele. Assim, um homem que assassina a sua esposa com 27 facadas no peito, assim como o terremoto que destruiu uma cidade inteira, também são partes do Todo, d’Deus, dentro desta teologia da imanência.

Quando você morrer na perspectiva da Imanência Divina, você volta ao Todo, já que você é parte Dele. Enquanto na cosmologia dualista, Deus está fora e você é sua imagem e semelhança (e não parte Dele). O Mal que existe no mundo dualista pode ser justificado pela Imperfeição dos Homo-sapiens; na Imanência, por outro lado, o Mal não pode ser justificado “fora”, pois não há fora, tudo o que existe é parte d'Deus. O assassino e seu guru “Silvananda” são partes Dele. O que diferencia o assassino e o guru (representação da sabedoria) é a Ignorância/Ilusão do primeiro quanto a sua natureza Divina. Essa argumentação teológica não-dual cria uma saída lógica para a existência do Mal. Os que não perceberam a “ilusão de suas vidas” cometem o Mal e sofrem, os que seguem os preceitos das doutrinas não-duais alcançam a Verdade Divina sobre Si-Mesmo e encontram a Felicidade Eterna, Eu-Maior, Vida Plena, Qualidade de Vida, Alta Performance, a Força dos Jedis e/ou Kaivalya.

É uma grande sacanagem Cósmica! Deus nos faz Perfeitos em Si-Mesmos e inspira outros Sapiens a erigirem doutrinas Divinas em várias partes do Planeta, mas nos faz crescer ignorando essa natureza Divina. Ao contrário, há a teologia que guia outros tantos a divulgarem a ideia religiosa que Somos Pecadores de natureza, portanto Imperfeitos, e a Salvação dessa maldição está em outra vida. Convenhamos, é uma brincadeira Divina de extremo mau gosto. Na primeira, somos perfeitos mas ignorantes e na segunda, já saímos cientes que vamos errar e o fim das agruras está em outro mundo.