Quando ensinar yoga deixa de fazer sentido: e por isso pode voltar a desejar
- PhD. Roberto Simões

- há 14 minutos
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Há um ponto, silencioso e corrosivo, na trajetória de muitas professoras de yoga: o momento em que dar aulas se torna tedioso, esvaziado, quase insuportável. Não porque o corpo falhe, nem porque o saber se esgote, mas porque algo da ordem do desejo deixa de se sustentar. A aula segue acontecendo, os alunos seguem vindo, o dinheiro segue entrando: e ainda assim, a experiência subjetiva é de desgaste, angústia e uma estranha sensação de estar servindo a algo que não se escolheu mais.
Essa professora se percebe presa a um circuito repetitivo: ela oferece presença, cuidado, técnica, palavras, silêncio; os alunos respondem com relaxamento, alívio, bem-estar, um gozo manso que pede apenas para ser mantido. Nada retorna como pergunta. Nada retorna como desejo. A aula funciona, e exatamente por isso, falha.
Talvez, não se trata de uma frustração pedagógica, mas de uma posição subjetiva precisa: a professora se vê capturada no lugar de objeto do gozo do Outro. Seu corpo, sua voz e sua prática tornam-se instrumentos de regulação afetiva, operadores de uma economia do estresse. O yoga, nesse contexto, deixa de ser transmissão para tornar-se serviço; deixa de ser prática para tornar-se produto; deixa de ser laço para tornar-se circuito fechado.
É comum que, nesse ponto, surja um ressentimento silencioso:
Eles não querem saber de yoga de verdade. Não querem mokṣa, nem escrituras, nem transformação. Querem apenas relaxar.”
Mas essa queixa, embora compreensível, encobre o ponto mais delicado: o sofrimento da professora não nasce do desejo dos alunos, mas da queda de uma fantasia que sustentava o seu próprio desejo de ensinar.
Havia, muitas vezes de forma inconsciente, uma crença: a de que o yoga, quando bem transmitido, despertaria no outro um desejo de saber, uma inquietação ética, uma travessia subjetiva. Essa fantasia organizava a prática, regulava o gozo e dava sentido ao trabalho. Quando ela falha (e falha inevitavelmente no interior do discurso capitalista) o que emerge não é simplesmente decepção, mas angústia. A angústia própria de quem já não sabe de onde ensina, nem para quê.
O erro clínico seria tentar corrigir os alunos: moralizá-los, culpá-los, ou, no extremo oposto, adaptar-se completamente ao mercado, oferecendo apenas aquilo que garante adesão e retorno. Em ambos os casos, o sintoma se fixa. A professora permanece colada ao gozo do Outro, ora ressentida, ora esvaziada, sempre cansada.
A saída não está em resgatar um ideal perdido, mas em operar um corte ético: reconhecer que o desejo do aluno não é sua responsabilidade. O desejo não se produz, não se ensina, não se injeta. O que se pode transmitir não é o desejo em si, mas um modo singular de se relacionar com o corpo, com a prática e com o real.
Quando essa professora aceita que o aluno pode gozar apenas do bem-estar (e que isso não a define) algo se desloca. O yoga deixa de ser um instrumento para transformar o outro e passa a funcionar como sinthoma: um modo próprio de amarrar corpo, palavra e gozo. Ela ensina não para provocar efeito, nem para salvar, nem para despertar consciências, mas porque ali algo de sua própria existência se organiza.
Nesse ponto, paradoxalmente, o desejo pode retornar. Não como missão, nem como vocação heroica, mas como insistência. A aula muda de textura: menos explicativa, menos sedutora, menos preocupada em produzir resultados. Alguns alunos vão embora. Outros ficam. Alguns, inesperadamente, começam a perguntar; mas não porque foram convencidos, mas porque algo se abriu no campo.
Ensinar yoga volta a fazer sentido quando deixa de prometer sentido. Quando a professora já não se oferece como garantia de bem-estar, nem como guardiã da verdade, mas como alguém que pratica, ensina e sustenta um gesto sem garantia. O yoga, então, deixa de ser um ideal a ser realizado e torna-se aquilo que sempre foi no fundo: uma técnica profana de convivência com o real.
E talvez seja apenas aí (quando o desejo não é mais exigido do outro) que algo verdadeiramente transmissível possa, às vezes, acontecer.




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