Yoga e espiritualidade no campo científico: entre evidência empírica e o não-dito do laço subjetivo
- PhD. Roberto Simões

- 26 de jan.
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1. Introdução
O artigo The Relationship Between Yoga and Spirituality: A Systematic Review of Empirical Research emerge num ponto sensível do debate contemporâneo sobre yoga e meditação: o momento em que essas práticas já foram plenamente incorporadas ao discurso científico, biomédico e psicológico, mas continuam produzindo efeitos que escapam à linguagem estritamente técnica.
Nas últimas décadas, o yoga deixou de ser um objeto marginal nas ciências da saúde para tornar-se um instrumento legitimado de promoção de bem-estar, frequentemente avaliado por seus impactos fisiológicos, emocionais e cognitivos. No entanto, há um resto insistente que a ciência não consegue eliminar: a dimensão espiritual da experiência relatada pelos praticantes. Mesmo quando a prática é apresentada como exercício físico, técnica de autorregulação ou ferramenta terapêutica, surgem narrativas de sentido, conexão, transcendência, transformação subjetiva e reorganização da vida.
É exatamente esse ponto de tensão que torna o artigo relevante. Ele não pergunta se o yoga “funciona” clinicamente, mas se existe evidência empírica de que a prática se articula à espiritualidade, e de que modo essa espiritualidade é descrita, medida e enquadrada cientificamente. Trata-se, portanto, de um trabalho que revela tanto o que a ciência consegue dizer quanto aquilo que ela tenta domesticar, traduzir ou neutralizar ao tratar do yoga.
Mais do que responder a uma curiosidade acadêmica, o artigo é sintomático de um impasse maior: como lidar, no interior do discurso científico, com experiências que não se reduzem a variáveis observáveis sem perder algo essencial no processo.
2. Metodologia e principais achados
2.1 A escolha metodológica
Os autores optam por uma revisão sistemática de literatura, seguindo o protocolo PRISMA, o que confere ao estudo um alto grau de legitimidade científica. Em vez de produzir novos dados, eles analisam criticamente o conjunto de pesquisas empíricas existentes sobre yoga e espiritualidade.
Foram selecionados 30 estudos empíricos, quantitativos e qualitativos, publicados principalmente em contextos ocidentais. Esses estudos utilizam instrumentos variados para medir espiritualidade: escalas de sentido de vida, bem-estar espiritual, autotranscendência, compaixão, esperança, paz interior, fé não institucional e busca por significado.
Desde o início, a metodologia já aponta um dado crucial: não existe uma definição única de espiritualidade no campo científico. O que se encontra é um conjunto de tentativas de operacionalizar algo que, por natureza, resiste à padronização. Ainda assim, os autores aceitam essa diversidade como dado do campo e trabalham comparativamente com ela.
2.2 Hipóteses implícitas
Embora não formuladas nos moldes experimentais clássicos, duas hipóteses organizam o trabalho:
A prática de yoga está associada a níveis mais elevados de espiritualidade.
Essa associação não depende necessariamente de filiação religiosa, mas de experiências subjetivas de significado e conexão.
Essas hipóteses já indicam uma ruptura importante: espiritualidade não é tratada como crença, mas como experiência vivida, deslocando o debate da religião institucional para a subjetividade.
2.3 Resultados principais
Os achados são relativamente consistentes:
A maioria dos estudos aponta uma associação positiva entre prática de yoga e espiritualidade.
Praticantes relatam maior sentido de significado na vida, paz interior, esperança, compaixão e percepção de coerência existencial.
A espiritualidade aparece majoritariamente como não religiosa, desvinculada de dogmas, instituições ou sistemas teológicos.
A regularidade da prática parece ser um fator relevante: quanto mais contínua a prática, mais frequentes os relatos de efeitos espirituais.
Mesmo em contextos onde o yoga é apresentado como prática física, emergem efeitos que os participantes descrevem como transformações profundas na forma de se relacionar consigo, com o corpo e com a vida.
Ao mesmo tempo, os próprios autores são cautelosos. Eles reconhecem limitações importantes:
alto risco de viés metodológico,
amostras pequenas,
ausência de grupos de controle robustos,
grande heterogeneidade entre estilos de yoga e contextos culturais.
A conclusão, portanto, é dupla: há evidência de associação, mas ela é metodologicamente frágil e conceitualmente instável.
3. O que os resultados deixam entrever
Se deslocarmos o olhar da pergunta “o yoga aumenta a espiritualidade?” para outra, menos explícita: o que está acontecendo com os sujeitos que praticam yoga? Parece que algo começa a se desenhar com mais nitidez.
Os estudos revisados mostram que o yoga funciona como um dispositivo de reorganização subjetiva. Ele introduz pausas, ritmos, silêncios, atenção ao corpo e à respiração que desestabilizam o modo habitual de funcionamento do sujeito no mundo contemporâneo, marcado pela aceleração, pela produtividade e pela exigência constante de desempenho.
A chamada “espiritualidade” aparece, então, não como adesão a um conteúdo transcendental, mas como efeito de uma ruptura na economia psíquica cotidiana. O sujeito se vê confrontado com algo que não se reduz à utilidade, ao rendimento ou à adaptação. Surge uma experiência de vazio fértil, de suspensão, de descentramento — ainda que os estudos tentem traduzi-la em escalas de bem-estar.
Nesse sentido, a insistência científica em medir espiritualidade revela tanto quanto esconde. Revela porque confirma que algo acontece além do físico. Esconde porque reduz esse algo a indicadores positivos, neutralizando seu potencial disruptivo.
Outro ponto crucial é o papel implícito do Outro na prática. Embora os estudos raramente aprofundem isso, a experiência do yoga raramente é solitária: há um professor, uma tradição implícita, uma narrativa de sentido que sustenta a prática. Mesmo quando a figura do mestre é apagada no discurso científico, ela retorna sob a forma de autoridade simbólica, de saber suposto, de garantia de que “algo está acontecendo”.
A espiritualidade relatada não é apenas efeito da técnica, mas do laço que se estabelece em torno dela. Um laço que organiza expectativas, produz identificação e sustenta a experiência como significativa.
Por fim, chama atenção que a maioria dos estudos evita tematizar o conflito, o mal-estar ou os efeitos ambíguos da prática. A espiritualidade aparece quase sempre como ganho, elevação, integração. Pouco se fala de angústia, desorientação, dependência ou idealização: elementos que, no entanto, fazem parte de qualquer processo profundo de transformação subjetiva.
O silêncio da literatura sobre esses aspectos não é casual. Ele indica os limites do discurso científico quando confrontado com experiências que tocam o núcleo do sujeito, seu desejo, suas faltas e suas defesas.
Considerações finais
O artigo cumpre um papel importante ao demonstrar que o yoga não pode ser plenamente compreendido apenas como exercício físico ou técnica terapêutica. Ele produz efeitos que reorganizam o modo como o sujeito se relaciona consigo e com o mundo. No entanto, ao tentar capturar esses efeitos sob o nome de “espiritualidade”, a ciência acaba revelando seus próprios limites.
O que os dados mostram não é simplesmente que o yoga “gera espiritualidade”, mas que ele abre um espaço onde algo do sujeito se desloca; e esse deslocamento resiste à mensuração completa. Entre escalas, protocolos e revisões sistemáticas, resta um ponto opaco, insistente, que continua escapando. Talvez seja exatamente aí que o yoga opera com mais força.
Referência Bibliográfica
Csala B, Springinsfeld CM and Köteles F (2021) The Relationship Between Yoga and Spirituality: A Systematic Review of Empirical Research. Front. Psychol. 12:695939. doi: 10.3389/fpsyg.2021.695939.




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