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A travessia da fantasia (ou Maya) com discernimento (ou Viveka) por que se torna necessário aos yogues maduros?

Introdução

Toda clínica que leva o inconsciente (ou Purusa) a sério esbarra, mais cedo ou mais tarde, numa pergunta incômoda: por que o sujeito insiste em sofrer do mesmo modo, mesmo quando já “entendeu” sua história? Por que a repetição persiste apesar da memória, da elaboração narrativa e até do alívio momentâneo que a "palavra" (dita, não-dita ou mal-dita) pode produzir?


É dessa pergunta que emerge a necessidade do conceito de travessia da fantasia. Mais interessante do que "a iluminação" (ou samadhi), se faz a compreensão do entrelaçamento entre maya (lit.ilusão ou fantasia) e viveka (lit. discernimento) para "superar" dukkha (lit. sofrimento). Não como uma metáfora edificante, nem como um estágio moral de amadurecimento - atravessar maya - passa como a tentativa de nomear um ponto estrutural da experiência clínica/yoguica: o momento em que o sujeito (aquele assujeitado ao social, ou seja, todos nós) deixa de estar inteiramente capturado pela cena imaginária que organiza seu desejo, seu gozo e sua relação com o outro.


A hipótese central é simples e radical ao mesmo tempo: o sofrimento psíquico não se sustenta apenas no recalque de conteúdos, mas na fidelidade inconsciente a uma fantasia fundamental, uma espécie de roteiro silencioso que dá coerência ao modo como o sujeito ama, sofre, adoece e fracassa. Mais simples: enquanto essa fantasia/maya permanece intocada, o sintoma (que te levou ao divã e/ou ao mat/zafu) pode mudar de forma, mas não de lógica.


O que é essa fantasia que precisa ser atravessada?

Fantasia aqui não significa imaginação voluntária, devaneio ou ilusão consciente. Trata-se de uma estrutura inconsciente, uma cena mínima (às vezes reduzida a um gesto, uma posição, um olhar) que responde a uma pergunta muda: “O que eu sou para o desejo do outro?”


Essa cena não é lembrada como um fato histórico, mas vivida como realidade psíquica. Ela organiza o modo como o sujeito se oferece, se submete, se rebela ou se ausenta. É nela que o desejo encontra uma moldura e o gozo, um caminho. Por isso, a fantasia (maya) não é um obstáculo acidental: ela é, durante muito tempo, uma solução - não se perde aqui tiozão - ou uma solução precária, mas eficaz, para lidar com a angústia, com a perda e com a opacidade do desejo do outro. O problema, então, é que essa solução cobra um preço alto: ela fixa o sujeito numa posição repetitiva, muitas vezes sofrida, da qual ele não consegue sair apenas pela compreensão intelectual.


Primeira hipótese clínica: interpretar não basta

A clínica clássica mostrou cedo que interpretar o sentido oculto do sintoma não garante sua dissolução. Em muitos casos, ao contrário, o sujeito se apega ainda mais à sua posição fantasmática quando ela é desvelada.


Pensemos na jovem que perde a voz sempre que se vê diante de um conflito amoroso. A análise reconstrói a cena: o silêncio como forma de manter o amor do outro, de não provocar sua perda, de ocupar um lugar de fragilidade desejável. Tudo isso pode ser dito, entendido, confirmado - e ainda assim o sintoma retorna. Ou no homem atormentado por pensamentos obsessivos cruéis, que se acusa moralmente sem cessar. A investigação mostra uma lógica precisa: quanto mais ele se pune, mais preserva o outro de sua agressividade inconsciente. O sofrimento funciona como garantia de amor. Compreender isso não o liberta; às vezes, o aprisiona ainda mais.


Esses casos conduzem a uma hipótese decisiva: há algo no sintoma que não quer ser modificado, porque ele sustenta a fantasia que mantém o sujeito em uma posição conhecida frente ao desejo do outro.


Segunda hipótese: a fantasia protege do real

A fantasia não apenas organiza o desejo; ela protege o sujeito de um encontro mais direto com o real da falta (a incompletude humana), com a ausência de garantias, com a inexistência de um Outro que saiba ou queira algo definitivo. Em um célebre caso clínico, um homem constrói toda sua vida psíquica em torno de cenas infantis observadas e reinterpretadas incessantemente. Essas cenas funcionam como um véu: enquanto ele se ocupa delas, evita confrontar algo mais angustiante: a inconsistência do desejo, a ausência de um sentido último.


A fantasia, nesse sentido, não engana apenas; ela amortece. Ela oferece uma cena onde o sujeito sabe quem é, mesmo que esse “quem” seja doloroso. Atravessar a fantasia não é destruí-la, mas perder a crença de que ela é a verdade última do sujeito.


O que significa, então, atravessar a fantasia?

A travessia da fantasia/maya não é um ato heroico nem uma sacada iluminadora. Ela ocorre quando o sujeito deixa de se identificar plenamente com a posição que ocupa na sua cena fantasmática.


Isso implica um deslocamento preciso: o sujeito percebe (não intelectualmente, mas existencialmente) que ele não é aquilo que sua fantasia diz que ele é para o outro. Na clínica (lembre-se que para alguém que se considera yogueterapeuta, a clínica é a sua "sala de aula"), isso aparece de forma discreta, quase banal. A paciente/aluna que sempre se coloca como aquela que deve ser abandonada começa, pela primeira vez, a sustentar um desejo sem pedir garantias. O homem que só se autorizava a existir na culpa percebe que seu sofrimento não é prova de amor, mas um modo de evitá-lo.


Não é raro que esse momento venha acompanhado de angústia - por isso nem sempre yogar/meditar vem acompanhada de bem-estar. Afinal, atravessar a fantasia/maya é perder uma moldura de sentido, é aceitar que não há cena pronta que diga quem se é ou o que se deve fazer. Mas é justamente aí que algo se desloca: o sintoma deixa de ser necessário como sustentação identitária.


A clínica mostra: o sintoma cai quando a posição muda

Nos casos clássicos, o desaparecimento do sintoma não ocorre quando o passado é totalmente reconstruído, mas quando a posição subjetiva se transforma. A jovem histérica não deixa de sofrer porque entendeu sua história, mas porque já não precisa mais ocupar o lugar de objeto frágil para existir no laço. O obsessivo não se livra de seus rituais porque descobriu sua origem, mas porque já não se mantém preso à exigência inconsciente de pagar eternamente por seu desejo.


A travessia da fantasia é, portanto, um efeito, não uma técnica. Ela acontece quando o yogar conduz o sujeito até o ponto em que sua cena fundamental perde a evidência, se revela como construção e, com isso, deixa de comandar sua vida de modo absoluto.


Fantasia, laço social e ideologia: quando a travessia deixa de ser apenas clínica

Se, no plano clínico (ou de um yogar/meditar maduro), a fantasia organiza a posição do sujeito frente ao desejo do outro, no plano coletivo ela opera como estrutura invisível do laço social, sustentando formas específicas de sofrimento, adesão e reconhecimento. Não se trata apenas de fantasias individuais, mas de fantasias socialmente partilhadas, que funcionam como operadores ideológicos do cotidiano (ŽIŽEK, 1996). Por isso que insisto que, quando um yogar/meditar esta fechado numa tradição/linhagem yoguica p.e., pode repetir aqui uma outra forma de sofrer do mesmo jeito, mas agora na gramática do guru, livro sagrado e da igreja em que se converteu agora.


Essas fantasias não atuam no registro da crença consciente. O sujeito pode saber que está explorado, adoecido ou exaurido e, ainda assim, permanecer libidinalmente preso à cena que sustenta esse sofrimento. A ideologia, nesse sentido, não engana: ela organiza o gozo, oferecendo ao sujeito um lugar onde sofrer faz sentido, onde o sacrifício se converte em valor moral e pertencimento simbólico (ŽIŽEK, 1996).


A clínica contemporânea encontra, cada vez mais, sujeitos capturados por fantasias de desempenho, cuidado ilimitado e autossuperação. O sofrimento deixa de aparecer como acidente e passa a funcionar como prova de engajamento, de responsabilidade e até de virtude. Sofre-se para continuar pertencendo - ao trabalho, às relações, às comunidades terapêuticas e espirituais (HAN, 2017). Nesse contexto, a fantasia não é apenas um arranjo psíquico privado, mas um dispositivo de governo da subjetividade, que interpela o sujeito a se reconhecer como responsável por sua própria exaustão (CARVALHO & TEIXEIRA, 2017). O sofrimento se torna internalizado, moralizado e privatizado.


O sintoma como resistência ambígua

É nesse ponto que o sintoma adquire um estatuto ambíguo. Por um lado, ele pode funcionar como forma de submissão: mantém o sujeito preso à fantasia que o explora. Por outro, ele pode operar como falha do dispositivo, como interrupção involuntária da lógica produtiva e adaptativa.


O corpo que adoece, a angústia que paralisa, a compulsão que sabota o desempenho podem ser lidos como fracasso individual. Mas também podem ser escutados como limites inscritos no corpo diante da exigência ilimitada de desempenho, como sinais de que a fantasia dominante (o maya que organiza a vida do yogue/meditante ou mesmo o "facilitador das medicinas da floresta") já não se sustenta sem resto (DEJOURS, 2008). Nesse sentido, o sintoma não é automaticamente resistência, mas tampouco é simples patologia. Ele marca o ponto em que a fantasia social (um maya coletivo que lhe organiza de fora) encontra um real que não se deixa integrar plenamente.


A travessia da fantasia, aqui, não significa curar o sujeito para devolvê-lo ao funcionamento, mas romper a equivalência entre sofrimento e valor, entre dor e pertencimento.


Quando atravessar a fantasia implica perder um lugar

Há casos em que atravessar a fantasia não produz alívio imediato, mas deslocamento social. O sujeito que já não se identifica com o papel de salvador, de mártir ou de exceção moral pode perder reconhecimento, vínculos e lugares simbólicos antes garantidos. Essa perda não é secundária. Ela explica por que a travessia da fantasia encontra resistência não apenas psíquica, mas social. O sujeito hesita porque sabe (ainda que não formule) que abandonar a cena fantasmática pode significar perder o lugar que ocupava no discurso do outro (HONNETH, 2003).


No entanto, é justamente nesse ponto que algo novo se abre: a possibilidade de um desejo menos sacrificial, menos capturado pela demanda de reconhecimento e mais capaz de sustentar o conflito, a falta e a incompletude como condições do laço.


Da travessia clínica à travessia política

Essa leitura permite deslocar a travessia da fantasia de um evento estritamente clínico para um gesto ético-político. Atravessar a fantasia, nesse plano, não é adaptar-se melhor, nem rebelar-se imaginariamente, mas deixar de sustentar, com o próprio corpo, as fantasias que legitimam a exploração do sofrimento.


Trata-se menos de encontrar uma nova promessa de sentido e mais de aprender a habitar o laço sem garantias fantasmáticas: aceitando que não há cena final que assegure identidade, reconhecimento ou redenção.


Conclusão: atravessar não é abolir, é sustentar sem se confundir

A fantasia não desaparece. Ela continua existindo como estrutura, como vestígio, como possibilidade. O que muda é a relação do sujeito com ela. A travessia consiste em não mais viver como personagem cativo da própria cena, mas como alguém que pode usá-la sem se confundir com ela. É por isso que esse conceito não aponta para uma normalização, nem para uma felicidade prometida. Ele aponta para algo mais modesto e mais ético: a possibilidade de desejar sem se esconder integralmente atrás do sofrimento.


Referências Bibliográficas

DEJOURS, Christophe. A banalização da injustiça social. Rio de Janeiro: FGV, 2008.

HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes, 2017.

HONNETH, Axel. Luta por reconhecimento: a gramática moral dos conflitos sociais. São Paulo: Editora 34, 2003.

CARVALHO, S.R. & TEIXEIRA, R.R. Políticas da própria vida e o futuro das práticas médicas: diálogos com Nikolas Rose (Parte 3). Entrevistas Interface, 21(60), 2017.

ŽIŽEK, Slavoj. Um mapa da ideologia. Rio de Janeiro: Contraponto, 1996.

 
 
 

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