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Uma pequena introdução ao Movimento-Corpo

Quando pensamos em corpo em movimento, não se trata apenas de biomecânica isolada. Nas ciências sociais, o corpo torna-se um lugar de inscrição social: ele carrega técnicas aprendidas, gestos, posturas, ritmos e modos de responder que emergem de nossa interação com a cultura e com outros corpos. Marcel Mauss, ao elaborar o conceito de técnicas do corpo, demonstrou que formas como sentar, caminhar e gesticular são socialmente ensinadas e incorporadas ao longo da vida, variando conforme as sociedades e suas tradições (Mauss, 1934/2003). Pierre Bourdieu amplia essa ideia ao mostrar que essas disposições corporais incorporadas — que ele chama de habitus — não são meros hábitos, mas esquemas duráveis de percepção e ação que orientam nossas respostas ao mundo e moldam como sentimos, agimos e nos relacionamos com outros corpos e contextos sociais (Bourdieu, 1977/1987).


David Le Breton nos lembra que “antes de qualquer coisa, a existência é corporal”: o corpo não é um objeto neutro nem um simples suporte para a mente, mas o lugar onde o social, o simbólico e o sensorial se imbricam, tornando-se vetor de significado e expressão de experiências e emoções (Le Breton, 2006). Michel Foucault destaca que o corpo é construído pelas relações de poder, mostrando que não há corpo fora da história e da cultura; normas disciplinares, regimes de saúde e práticas sociais moldam nossos modos de viver, sentir e desejar (Foucault, 1976).


Essa perspectiva social do corpo prepara o terreno para pensar em Freud de outra maneira. Em Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, Freud desloca a sexualidade da ideia de instinto fixo para o conceito de pulsão, i.e., uma força que atravessa o corpo e se manifesta desde a infância até a vida adulta de múltiplas maneiras, não apenas ligada à reprodução biológica, mas presente nas relações afetivas, objetos de desejo e modos de vinculação psíquica (Freud, 1905). Quando integramos isso à história evolutiva humana, percebemos que a transição para a postura bípede (que transformou a maneira como nossos antepassados perceberam o ambiente) reorganizou nossa economia sensorial. O deslocamento do olfato como sentido dominante para a visão nas relações cotidianas não foi apenas um ajuste fisiológico: ele reorganizou como experienciamos e significamos o mundo (idealizações freudianas combinadas com estudos evolutivos).


Nessa história encarnada, aquilo que sentimos, desejamos e representamos mentalmente está ligado a modos sensoriais que emergem de nossa trajetória corporal socializada. A noção de afetos em filosofia (como em Deleuze e Guattari, que retomam Espinosa) entende afetos como modificações na capacidade de agir dos corpos, intensidades que nos movem, nos conectam com outros corpos e com o ambiente. Sob essa perspectiva, pensamentos, sentimentos, sintomas e modos de existir não são algo “sobre” o corpo; eles são processos corporais-socializados que se expressam (lit.) em posturas, ritmos respiratórios e modos de mover-se.


É aqui que práticas como āsana e prāṇāyāma ganham outra dimensão. Elas não são “preparações” para algo fora de nós, nem instrumentos de controle disciplinar, mas interfaces sensório-corpo-social que permitem reconfigurar modos de afetar e ser afetado. À medida que prestamos atenção à postura, ao ritmo respiratório e ao fluxo de sensações, abrimos espaço para uma presença encarnada na qual nossos afetos deixam de ser reações habituais e se tornam novos modos de existir no mundo. Nesse sentido, o yoga pode ser pensado como uma tecnologia de reconexão com a corporeidade socializada e sensorialmente carregada, capaz de revelar padrões habituais (muitos deles inscritos pela cultura, pelo poder e pelo imaginário) e de criar espaço para novos modos de responder, sentir e agir no mundo.


Referências Bibliográficas

BOURDIEU, Pierre. Esboço de uma Teoria da Prática. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1987.

FREUD, Sigmund. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. 1905.

FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir: nascimento da prisão. São Paulo: Editora Vozes, 1976.

LE BRETON, David. A sociologia do corpo. Petrópolis, RJ: Editora Vozes, 2006.

MAUSS, Marcel. As técnicas do corpo. In: Sociologia e antropologia. São Paulo: Cosac & Naify, 2003 (original de 1934).

 
 
 

1 comentário

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Haline
há 2 dias
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"...o corpo não é um objeto neutro nem um simples suporte para a mente, mas o lugar onde o social, o simbólico e o sensorial se imbricam, tornando-se vetor de significado e expressão de experiências e emoções...." 🤌

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