GuruLand


  Pense no mundo habitado apenas por gurus? Como seria viver em uma sociedade aonde todas as pessoas fossem iluminadas? Onde todos vivessem seus verdadeiros “eus”? Haveria escassez de discípulos certamente. Mas existiriam gurus sem ter quem guiar? Seria tão utópico quanto uma sociedade sem classes; e a análise aqui pode revelar a importância deste grupo social e a hipocrisia de tantos falsos gurus.

   A palavra guru pode ter algumas definições, a mais comum é a do mestre espiritual, mas também pode designar aquele que traz luz a escuridão. Outra definição possível é aquele que detém influência na formação do devoto. De forma geral, podemos afirmar que não haveria a figura do guru, mestre, iluminado, auto-realizado sem a sua contraparte: o discípulo, o devoto, o que busca iluminar-se ou a realização de Si-mesmo. Em suma, daquele que vive a vida transcendente. Pois na imanência só vivem os impuros e os não-realizados. Guru não é Perfeito, mas representa (ou deveria) o Bem.

     A figura do guru ou asceta, portanto, representa o ideal de ser humano, uma espécie de versão que ultrapassa o homo sapiens. Os homens mais ricos, os guerreiros mais ferozes, o simples agricultor ou vassalo sempre buscaram orientação do guru ou levam seus filhos na esperança de serem aceitos por eles como seus alunos. O que pretendo dizer é que a sociedade e a nossa cultura foi erigida com uma estrutura que sustenta e legitima os gurus. Eles sempre foram importantes para a manutenção coesa e moral da sociedade. Entretanto, em uma sociedade carente deles, qualquer um ocupa seu lugar. Mesmo na China, aonde a religião é proibida, Mao Tse toma seu lugar (quase sempre imposto).

  Em outras palavras, em todas as sociedades há sempre os aristocratas, os guerreiros, os vassalos, os comerciantes e o clero. Dentro do clero, podemos distinguir os sacerdotes, os místicos e os profetas. Dentro deste grupo social clero, a figura do Guru pode ser representado tanto pelo sacerdote (em geral aquele que mais conservador que representa sua tradição ou igreja), quanto pelo profeta (aquele advindo de uma tradição/igreja vem anunciar o novo; seja rompendo com o sacerdote ou anunciando a falsa moral da sociedade), ou o místico (este dispensa qualquer outro sacerdote ou profeta e estabelecendo comunicação direta com Deus, deuses ou espíritos e etc). Outra figura é o mago, que sem fins da manutenção tradicional da religião/igreja, presta serviços “práticos” para seus clientes (e não discípulos): como oráculos, curas e etc. Enquanto o Guru (sacerdote, profeta ou místico) representa uma tradição moral com discípulos e, portanto, coesão social; o mago manipula as forças da natureza para fins imediatos a sociedade.

   Os gurus, portanto, sempre começam a sua jornada buscando um outro guru para conhecer a si-mesmo e servir á tradição e preservar suas escrituras e cerimoniais com fins de manutenção do conhecimento moral e do Bem social com base no transcendente. Já os magos não transmitem ensinamentos morais, nem buscam o Bem, mas as suas necessidades imediatas, imanentes para fins práticos e pessoais.

  Depois, geralmente, de alguns nãos e outras tantas decepções de falsos gurus ou da sua falta de preparo (como discípulo, pois ser discípulo requer treinamento), um guru lhe aceita e vice-versa. O início é de êxtase e um certo alívio, pois paira uma segurança de agora estar no caminho certo do fim de todo o seu sofrimento existencial. Mas não é bem assim. Uma segunda etapa é o ceticismo que pode abater aos discípulos recém-chegados. Sim, depois de tanto buscar e serem rejeitados, os discípulos iniciam debates racionais sobre os métodos e conhecimento do guru e da tradição que estes representam. E não há nenhum guru de verdade que não tenha duvidado em algum momento do seu processo as palavras do seu guru ou da sua tradição espiritual/religiosa.

     Mas chega finalmente o momento da passagem. Quando o discípulos depois de anos de treinamento cai de joelhos aos pés do seu guru, chora copiosamente e se rende ao Grande Mistério, à Deus ou algo similar. Mas nunca cairemos aos pés de outro Sapiens igual a nós, ele precisa ser Maior, representar o Pai, a Mãe, o Eterno, o Imaculado e etc. Por isso que as sociedades mantém seu clero sempre vivo (seja congregado por sacerdotes, profetas desgarrados igreja ou na figura de místicos que entram em conexão divina direta). Pois a outra opção é adorar a magos que não possuem a força da tradição e das suas escrituras sobre a melhor vida. Os magos ou falsos gurus só podem transmitir fórmulas mágicas e alguns parcos signos de cura ou adivinhação, pois não ocupam a posição social de manutenção da Verdade. Quando uma sociedade está enfraquecida de gurus, os magos ocupam esse lugar: seja na figura de cientistas-gurus ou qualquer outra figura similar. Eles não são o Mal, mas também não sabem o caminho a seguir, pois essa sempre foi a ocupação dos sacerdotes, profetas e místicos.

 E o guru que falha? Este era um falso guru, e todos os seus discípulos vão buscar amparo em outro guru ou se formam ao lado dos céticos e trágicos. Os céticos e os trágicos desmarcaram os magos travestisos de guru. Essa é a função destes, e se proliferam quanto mais um falso clero se instala nas sociedades.

     Imaginem que não houvessem mais os céticos e  os trágicos. Enquanto os céticos alimentam infantilmente uma certa esperança de Verdade na Ciência, os trágicos compreendem a vida um caos e se divertem com isso, dançam sob o precipício da morte – os que conseguem superar a melancolia e depressão, obviamente. 

 Pois bem, os gurus são os Sapiens que aprenderam reprimir seus desejos sem se transformarem em neuróticos (sim, os psicólogos e psicanalistas se contorcem nas cadeiras, mas vocês são do grupo dos céticos ou trágicos, lembram?). Como assim? A grande liberdade não é fazer o que se deseja como vociferam os magos-falsos-gurus, mas negá-los. Se eu quiser eu faço, pensa os agentes do clero, mas tenho força suficiente para me abster sem culpa, medo, raiva, tesão e etc.

   Essa é a máxima dos verdadeiros gurus. Eles, invariavelmente, se retiram da sociedade - por breves momentos ou por um grande período – para se dedicar ao caminho do espírito – alegoria que refere que há algo mais do que o finito corpo. Eles estão em busca de responder a pergunta: Porque eu sofro? E essa é a razão dos gurus existirem.