Além da Meditação


A meditação é uma prática ancestral que se perde no tempo a sua origem. Entretanto, a sua primeira sistematização como método religioso pode ser encontrada dentre as escrituras hinduístas (Yoga-Sutras), por volta do século II a.C.; e definida operacionalmente como a “diminuição voluntária das modificações da mente/consciência” para comunhão com Deus (ELIADE, 2000, pp. 88-101).

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A meditação, contudo, foi sendo adotada por diversas outras religiões, como o budismo, o taoísmo, o islamismo, o judaísmo e o cristianismo, para citar algumas (KAPLAN, 1985; ODIER, 2003; KUGLE, 2012; HOLLYWODD & BECKMAN, 2012; EIFREN, 2015, pp. 3-16). Em cada uma delas, no entanto, técnicas específicas foram sendo elaboradas para cada método, tradição ou escola de pensamento. Por técnica meditativa pretende-se compreender o formato da meditação propriamente dita - como as meditações baseadas em visualizações, recitações, observação dos pensamentos e/ou ritmos corporais e respiratórios e outros. Por método meditativo significa ampliar o entendimento da meditação como o complexo espiritual em si que envolve: 1) a técnica, mas também 2) as escrituras que embasam a fé e crenças dos adeptos, 3) as experiências advindas de cada prática realizada, e por último, 4) a comunidade que legitima, mantém e troca os bens espirituais envolvidos durante e após a meditação.

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Para exemplificar a diferença entre técnica e método meditativo, podemos dizer que no Budismo, a técnica meditativa do Mindfulness foi desenvolvida pelo método Theravada, e a técnica da Compaixão pelo método Mahayana. Entre alguns dos métodos meditativos da religião Daoísta, podemos indicar a técnica do Sentar e Esquecer do método Shang Qing (lit. Clareza Suprema). Entre os muçulmanos, uma das técnicas meditativas do método sufi é a recitação do Dhikr (ou invocação de Allah). No judaísmo, por outro lado, prevalece as técnicas de visualização, especificamente no método meditativo do Hassidismo. E dentro do método Místico Cristão Oriental, as técnicas meditativas silenciosas, são bastante utilizadas em detrimento à outras (EIFREN, 2015, pp. 6).

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Contudo, a partir dos anos de 1900, os estudos sobre meditação foram adotando nuances neurobiológicas e biomédicas, que culminaram a partir dos anos de 1990-2000 as neurociências em dialética com as experiências místicas de meditadores de diversas religiões. Em 2000, o antropólogo da religião Eugene D’Aquilli e o neurocientista Andrew Newberg publicaram um estudo aonde apresentaram as bases neurobiológicas da meditação e a produção, segundo eles, da “mente mística”, buscando explicar a origem da religião por meio das neurociências (D’AQUILLI & NEWBERG, 2000). Este trabalho, foi um dos primeiros a conduzir experimentos neurocientíficos durante processos meditativos religiosos e demonstrar que, as repercussões encefálicas entre métodos e técnicas religiosas diferentes, poderiam produzir resultados neurofisiológicos semelhantes e experiências religiosas díspares (NEWBERG et al, 2003)[1].

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Os estudos em torno da meditação crescem em volume exponencial a partir dos anos de 2000, tanto na academia quanto em livros populares. Nunca uma prática ritual religiosa havia sido tão investigada pela biomedicina com aplicações terapêuticas. Tanto que hospitais, escolas e outros setores da sociedade começaram a introduzir programas de meditação, em vistas as respostas benfazejas para a saúde em indivíduos com dificuldades emocionais e atentivas. Um dos exemplos mais emblemáticos é o Center for Mindfulness da University Massachusetts Medical School, inaugurado em 1979 pelo biólogo Jon Kabat-Zinn. Com o objetivo inicial de tratar de forma alternativa “pacientes em condições crônicas para quais os clínicos não poderiam oferecer mais ajuda”, surgiu o Mindfulness Based Stress Reduction (MBSR), um programa de redução de estresse inspirado nas técnicas meditativas do método budista Theravada (GERMER et al, 2016, pp.11). Em 2012, Kabat-Zinn contava já com mais de 700 programas de MBSR inaugurados em universidades e hospitais do mundo, vindo a se tornar um dos instrumentos psicológicos mais utilizados academicamente para induzir níveis ótimos de relaxamento e melhora na qualidade de vida através da meditação.

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As repercussões psicofisiológicas positivas que a ciência biomédica apresentava sobre os efeitos da meditação, possibilitou diversas outras técnicas serem transplantadas de suas religiões originais como “terapêuticas espirituais” por medicos, professores, psicólogos e toda uma gama variada de outros profissionais. Esse fato parece ter legitimado a meditação religiosa fora dos consagrados métodos com fins a união com Deus. Hoje, inclusive, é possível conceitualizar a operacionalidade da meditação em termos não-religiosos (HARRIS, 2015, pp.130-133), algo impensável em tempos passados.

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Em uma pesquisa conduzida em 2004, apresentou a primeira definição operacional de meditação fora do escopo religioso. Segundo seus pesquisadores, toda prática meditativa deve obedecer 5 princípios: 1) uso específico de uma técnica, 2) relaxamento muscular em algum momento do processo, 3) “relaxamento da lógica”, 4) ser necessariamente auto-induzida, e 5) e se utilizar de um foco-de-atenção, denominado de “âncora”, pelos autores (CARDOSO et al, 2004). Entretanto, mesmo que cientistas busquem desvincular as diversas técnicas de meditação de seus antigos métodos religiosos, ela (a meditação) parece insistir em se aproximar da sua antiga religiosidade. Uma pesquisa realizada em 2010 e outra em 2018, atentaram para a possibilidade de alguns cientistas, que se utilizam e pesquisam técnicas meditativas para a saúde e promoção de bem-estar, estarem se aproximando seus discursos a conteúdos religiosos (NOGUEIRA, 2010; SIMÕES, 2015, pp. 108-115)[2].