ALÉM DA MEDITAÇÃO

Atualizado: 9 de ago.


A meditação é uma prática ancestral que se perde no tempo a sua origem. Entretanto, a sua primeira sistematização como método religioso pode ser encontrada dentre as escrituras hinduístas (Yoga-Sutras), por volta do século II a.C.; e definida operacionalmente como a “diminuição voluntária das modificações da mente/consciência” para comunhão com Deus (ELIADE, 2000, pp. 88-101).


A meditação, contudo, foi sendo adotada por diversas outras religiões, como o budismo, o taoísmo, o islamismo, o judaísmo e o cristianismo, para citar algumas (KAPLAN, 1985; ODIER, 2003; KUGLE, 2012; HOLLYWODD & BECKMAN, 2012; EIFREN, 2015, pp. 3-16). Em cada uma delas, no entanto, técnicas específicas foram sendo elaboradas para cada método, tradição ou escola de pensamento.


Por técnica meditativa pretende-se compreender o formato da meditação propriamente dita - como as meditações baseadas em visualizações, recitações, observação dos pensamentos e/ou ritmos corporais e respiratórios e outros. Por método meditativo significa ampliar o entendimento da meditação como o complexo espiritual em si que envolve:


1) a técnica, mas também

2) as escrituras que embasam a fé e crenças dos adeptos,

3) as experiências advindas de cada prática realizada, e por último,

4) a comunidade que legitima, mantém e troca os bens espirituais envolvidos durante e após a meditação.



Para exemplificar a diferença entre técnica e método meditativo, podemos dizer que no Budismo, a técnica meditativa do Mindfulness foi desenvolvida pelo método Theravada, e a técnica da Compaixão pelo método Mahayana. Entre alguns dos métodos meditativos da religião Daoísta, podemos indicar a técnica do Sentar e Esquecer do método Shang Qing (lit. Clareza Suprema). Entre os muçulmanos, uma das técnicas meditativas do método sufi é a recitação do Dhikr (ou invocação de Allah). No judaísmo, por outro lado, prevalece as técnicas de visualização, especificamente no método meditativo do Hassidismo. E dentro do método Místico Cristão Oriental, as técnicas meditativas silenciosas, são bastante utilizadas em detrimento à outras (EIFREN, 2015, pp. 6).


Contudo, a partir dos anos de 1900, os estudos sobre meditação foram adotando nuances neurobiológicas e biomédicas, que culminaram a partir dos anos de 1990-2000 as neurociências em dialética com as experiências místicas de meditadores de diversas religiões. Em 2000, o antropólogo da religião Eugene D’Aquilli e o neurocientista Andrew Newberg publicaram um estudo aonde apresentaram as bases neurobiológicas da meditação e a produção, segundo eles, da “mente mística”, buscando explicar a origem da religião por meio das neurociências (D’AQUILLI & NEWBERG, 2000). Este trabalho, foi um dos primeiros a conduzir experimentos neurocientíficos durante processos meditativos religiosos e demonstrar que, as repercussões encefálicas entre métodos e técnicas religiosas diferentes, poderiam produzir resultados neurofisiológicos semelhantes e experiências religiosas díspares (NEWBERG et al, 2003)[1].


Os estudos em torno da meditação crescem em volume exponencial a partir dos anos de 2000, tanto na academia quanto em livros populares. Nunca uma prática ritual religiosa havia sido tão investigada pela biomedicina com aplicações terapêuticas. Tanto que hospitais, escolas e outros setores da sociedade começaram a introduzir programas de meditação, em vistas as respostas benfazejas para a saúde em indivíduos com dificuldades emocionais e atentivas. Um dos exemplos mais emblemáticos é o Center for Mindfulness da University Massachusetts Medical School, inaugurado em 1979 pelo biólogo Jon Kabat-Zinn.


Com o objetivo inicial de tratar de forma alternativa “pacientes em condições crônicas para quais os clínicos não poderiam oferecer mais ajuda”, surgiu o Mindfulness Based Stress Reduction (MBSR), um programa de redução de estresse inspirado nas técnicas meditativas do método budista Theravada (GERMER et al, 2016, pp.11). Em 2012, Kabat-Zinn contava já com mais de 700 programas de MBSR inaugurados em universidades e hospitais do mundo, vindo a se tornar um dos instrumentos psicológicos mais utilizados academicamente para induzir níveis ótimos de relaxamento e melhora na qualidade de vida através da meditação.


As repercussões psicofisiológicas positivas que a ciência biomédica apresentava sobre os efeitos da meditação, possibilitou diversas outras técnicas serem transplantadas de suas religiões originais como “terapêuticas espirituais” por medicos, professores, psicólogos e toda uma gama variada de outros profissionais. Esse fato parece ter legitimado a meditação religiosa fora dos consagrados métodos com fins a união com Deus. Hoje, inclusive, é possível conceitualizar a operacionalidade da meditação em termos não-religiosos (HARRIS, 2015, pp.130-133), algo impensável em tempos passados.