Imposturas do Yoga BR (parte 5)

Atualizado: 11 de mar. de 2020


Produções realizadas durante a pesquisa como paradigmáticas

A primeira das minhas experiências em pesquisa no pós-doutoramento, posso afirmar isso agora, ocorreu ainda no final de 2017, quando ainda estava no processo de aprovação do meu projeto pelo colegiado da PUC-SP. Em meados de novembro deste ano, participei em Boston/EUA do Annual Meeting of American Academy of Religion. Foi a primeira vez que estive presente num evento acadêmico onde o Yoga foi discutido em mesas e grupos de trabalho como o objeto principal de investigações, e não um apêndice de outras pesquisas. Ali, adquiri um distanciamento necessário para perceber o foco da minha pesquisa no Brasil e a importância de recuar para pensar o Yoga na América Latina. O Yoga por aqui é algo totalmente singular da europa e EUA, mais ainda inexplorado do que os mais importantes investigadores do yoga mundial poderiam prever.

Mesmo todas as pesquisas muito ricas e com abordagens e perspectivas originais sobre o assunto – o que enriqueceu ainda mais minha pesquisa que se iniciaria em alguns meses; poderia apostar que poucos (talvez nenhum cientista ali presente) desenvolvia qualquer ideia da singularidade do yoga latino-americano e muito menos em mats brasileiros. Quando conversando com colegas nos intervalos ou em exposições, a impressão que passava era como se o yoga fora do escopo europeu, norte-americano e indiano não existisse ou se desenvolvesse como totalmente (e exclusivamente) influenciado por essas geografias e cartografias. Foi durante esse congresso em Boston/EUA, que tive a nítida percepção no trabalho importante pela frente. Ainda falta muito a ser feito correlacionado as pesquisas em yoga/meditação sob a perspectiva “humana” da ciência da religião no Brasil e América Latina, mas ao menos agora, acredito que se pode conseguir discordar de algo. E isso já é grande passo na ciência: divergir de seus pares.

As pesquisas realizadas durante o projeto representam, como exposto acima, o pioneirismo na observação do Yoga brasileiro como além de simples práticas-modelo de um coletivo “nova era”. Pois quando se enquadra o Yoga como “algo nova era”, já se traz consigo todos os símbolos pré-existentes do que se compreende desta “nebulosa mística-esotérica”. A perspectiva que fui buscando construir ao longo das minhas pesquisas de pós-doutoramento aqui apresentadas, possibilitam pensar uma parcela da sociedade brasileira entrando tardiamente no processo de secularização e de privatização religiosa. O Yoga brasileiro assim posto, deve ser compreendido como um “laboratório” de experimentações à Ciência da Religião, pois permite demonstrar o valor heurístico na interpretação dos problemas sociais contemporâneos de uma parcela da população brasileira que vive nas metrópoles do Brasil e não apenas contar a história do yoga no Brasil. Considero este fato (pensar o yoga brasileiro como o cadinho de experimentações religiosas entre 1950 até hoje), a meu ver, bastante relevante, sobretudo quando a sociedade brasileira discute ainda qual o conteúdo ensinado nas escolas sobre religião e o “motivo prático” de existir a filosofia e ciências “humanas” na estrutura de ensino e pesquisa brasileira. Faço aqui minha pequena contribuição investigatória em prol do incremento nos estudos dialógicos entre religião e sociologia para se compreender a sociedade em que se vive.

No artigo Conversando com iogues brasileiros publicado na revista científica portuguesa, exclusivamente dedicada ao Yoga, apresento ali a narrativa dos principais atores sociais do yoga brasileiro, e já aqui fica evidente a tensão entre uma geração mais tradicionalista versus os yogues mais progressistas. O cerne da discussão revela de um lado a busca por um ideal yoguico imaginário e perdido no contato do yoga com a modernidade, enquanto outros esmeram-se em trazer o sincretismo com os discursos religiosos nativos. Essas falas me fizeram reconstruir o caminho social, histórico e político da geração anterior que influenciou as construções sociais de realidade (BERGER & LUCKMAN, 2012, p.67-121) do campo yoguico brasileiro.

Na pesquisa publicada pela International Journal of Latin American Religious busquei justamente me concentrar nesta busca pela identidade dos primeiros agentes religiosos, estes, que lançariam as bases do Yoga como um novo fenômeno religioso. Me esmerei nesta pesquisa revelar que as principais influências dos cinco pioneiros no yoga latino-americano foram a Teosofia, o Messianismo cristão e a ordem esotérica indiana Suddha Dharma Mandalam. Neste trabalho revelo que a transplantação do yoga, ao menos entre os latino-americanos, foi estruturada a partir de quatro iniciativas desenvolvidas por nossos cinco personagens iniciais: 1) a primeira criação de ensino infantil com rudimentos yoguicos/meditativos em Cuba pela norte-americana Katherine Tingley, 2) o treinamento para formar novos professores de yoga no Uruguai e Argentina, 3) o início das publicações esotéricas e sincréticas do yoga com os franceses Cesar Della Rosa, Serge Raynaud e Leo Costet, mas também 4) a institucionalização do yoga em “Igrejas” com a disseminação das suas “curas yoguicas” por Leo Costet, o chileno Benjamin Guzman e Serge Raynaud. São dessas quatro inciativas acima que alguns pontos ressonam ainda hoje, como a inclusão do yoga/meditação nas escolas (públicas e privadas). A título de exemplo da luta pelo capital simbólico religioso no Brasil, podemos citar que esta medida (a inclusão/tentativa do yoga/meditação em escolas) já conduziu a reações de pais evangélicos sobre o ensino de “práticas pagãs” (Yoga, obviamente) aos seus filhos. Deles também, pode-se afirmar sem dúvidas alguma, a inclusão do Yoga/meditação com aplicabilidade nos sistemas únicos de saúde e hospitais brasileiros como “terapia alternativa”. E, também o início da institucionalização do yoga com diversos métodos, escolas e tradições yoguicas/meditativas que, muitas vezes competindo entre si (essas organizações yoguicas), souberam disseminar os princípios da sua espiritualidade e alcançar até mesmo mídias sociais e revistas de abrangência nacional. Porém, mesmo a institucionalização já ocorrendo até mesmo com influências nativas, como o caso do AUMbanda (sincretismo entre Umbanda e Yoga), o Awaken Love (junção do Santo Daime com o Yoga) e outras, há sempre uma preocupação em buscar legitimá-las via swamis, mestres, gurus ou sadhus de origem indiana.