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A clínica invisível: quando o terapeuta holístico se transforma em mestre, guru e senhor da verdade do outro

há 12 horas
19 min de leitura

Espiritualidade, alienação, transferência e relações de poder nas práticas terapêuticas contemporâneas.


Existe uma questão pouco discutida no universo das terapias holísticas e das práticas contemporâneas de espiritualidade: será que, em determinadas circunstâncias, aquilo que se apresenta como uma relação terapêutica pode estar reproduzindo uma estrutura muito mais próxima da relação entre mestre e discípulo?


Não me refiro simplesmente à existência de profissionais que se autodenominam mestres, gurus, facilitadores ou guias espirituais. A questão é mais sutil e, justamente por isso, mais interessante. Trata-se da possibilidade de que pessoas que se apresentam como terapeutas, embora não necessariamente tenham consciência disso, ocupem posições de autoridade espiritual e subjetiva diante daqueles que procuram seus serviços. Pessoas que, em nome do cuidado, da cura, do despertar ou da evolução da consciência, podem acabar conduzindo a experiência do outro a partir de suas próprias convicções, necessidades e sistemas de crenças.


Não estamos falando necessariamente de má-fé, manipulação deliberada ou de profissionais que conscientemente desejam exercer poder sobre seus pacientes - destes cínicos as minisséries da Netflix já deram conta. Estamos falando de processos de alienação, de necessidades subjetivas não reconhecidas, de idealização e de uma cultura terapêutica que, em determinadas circunstâncias, favorece a construção de figuras investidas de uma autoridade quase incontestável.


Talvez exista aí uma espécie de clínica invisível: um conjunto de relações, discursos e práticas que se apresentam como terapêuticos, mas que podem reproduzir mecanismos de submissão, dependência e condução da vida alheia. Uma clínica na qual o "profissional" acredita estar favorecendo a autonomia do outro, mas pode estar, sem perceber (na melhor das hípoteses), construindo as condições para que esse outro dependa cada vez mais de sua presença, de suas interpretações e de suas respostas.


A questão que nos interessa, portanto, não é se a espiritualidade pode contribuir para o cuidado humano. Evidentemente, pode. O problema começa quando uma determinada compreensão espiritual se transforma em explicação universal do sofrimento (e dos jeitos de sofrer), quando um método passa a ser considerado suficiente para responder a qualquer demanda e quando aquele que deveria acompanhar o processo de outra pessoa começa a ocupar o lugar de quem sabe o que ela precisa fazer, pensar, sentir e se tornar.


1. Quando o método deixa de ser ferramenta e se transforma em verdade

Um dos primeiros movimentos que merecem atenção é a transformação de uma técnica terapêutica em um sistema total de explicação da experiência humana. Em princípio, qualquer método deveria ser compreendido como um recurso limitado, desenvolvido a partir de determinados pressupostos, conhecimentos e objetivos. Uma prática de meditação, uma técnica corporal, uma abordagem energética, a leitura do céu em que se nasceu, um ritual ou uma intervenção espiritual podem oferecer experiências significativas e contribuir para diferentes dimensões do bem-estar. Entretanto, nenhuma dessas práticas, por mais interessante que seja, deveria ser confundida com uma resposta universal à complexidade da existência humana.


O problema aparece quando tudo passa a ser interpretado a partir da mesma gramática, ou seja, conflitos afetivos se tornam agora, p.e., problemas energéticos; angústias são explicadas por bloqueios vibracionais; traumas convertidos em memórias ancestrais; dificuldades materiais interpretadas como manifestações de crenças limitantes; adoecimentos passam a ser compreendidos como desequilíbrios espirituais e, até mesmo questionamentos sobre o próprio método passsam a ser interpretados como manifestações do ego, resistência à transformação ou falta de consciência (cósmica ou qualquer outro delírio ou fantasia). O que não cabe na teoria é reinterpretado para caber nela.


Constrói-se, assim, um sistema explicativo praticamente imune à crítica, pois o método não falha, a interpretação não é revistada (ou elaborada pelo próprio terapeutizado, mas pelo terapeuta) e o profissional não precisa questionar sua própria intervenção. Se a pessoa não melhora, talvez não tenha se entregado suficientemente ao processo. Se discorda, talvez ainda esteja identificada com a mente racional ou se abandona o tratamento, é vista como sabotando a própria evolução (lembrando que até o câncer evolui). A responsabilidade pelo resultado, assim, é deslocada para aquele que procura ajuda; e essa questão não é exclusiva das terapias holísticas; já que a história das práticas de cuidado está repleta de sistemas explicativos que, ao reivindicarem autoridade sobre o sofrimento humano, acabam reduzindo a experiência singular a categorias previamente estabelecidas.


Entretanto, nas práticas que associam cuidado e espiritualidade, esse movimento pode adquirir uma característica particular: a teoria não se apresenta apenas como um conhecimento técnico, mas como uma verdade sobre a própria existência.


É justamente aqui que a contribuição de Caragh Brosnan e colaboradores (2023) se torna relevante. Ao investigarem consultas de profissionais de terapias complementares, particularmente naturopatas e acupunturistas, os pesquisadores demonstraram como a produção de autonomia do paciente pode coexistir com a manutenção da autoridade do profissional. Os autores desenvolveram o conceito de salutogenic gaze, que podemos traduzir como olhar salutogênico (trad.livre). A partir da análise de consultas gravadas e entrevistas com profissionais, observaram que o terapeuta não apenas escuta e acolhe a narrativa do paciente, mas também estabelece parâmetros de observação, interpreta comportamentos, orienta mudanças e participa da construção dos critérios pelos quais aquela pessoa passa a avaliar sua própria saúde. Em outras palavras, o paciente pode sentir que está conquistando autonomia, enquanto continua utilizando as categorias e os critérios oferecidos pelo profissional para compreender a si mesmo. A autoridade do terapeuta não desaparece necessariamente quando ele ensina o paciente a cuidar de si. Em determinadas condições, ela pode ser reproduzida justamente por meio desse aprendizado (BROSNAN et al., 2023).


Essa pesquisa nos permite formular uma pergunta importante: quando um terapeuta ensina alguém a observar a própria experiência, está ampliando sua capacidade de interpretação ou está apenas transferindo para essa pessoa o sistema de interpretação do próprio terapeuta? A diferença é fundamental.


2. O terapeuta alienado de si mesmo

Existe uma segunda dimensão, talvez mais delicada: a possibilidade de o próprio profissional não reconhecer as motivações subjetivas que participam de sua atuação, i.e., um terapeuta pode ter estudado diferentes técnicas, acumulado certificações, participado de retiros, vivenciado experiências espirituais intensas e desenvolvido um vocabulário sofisticado sobre consciência, energia, ancestralidade, propósito e evolução. Pode conhecer profundamente determinado método e apresentar uma capacidade genuína de acolhimento. É que conhecer técnicas não significa necessariamente conhecer a si mesmo, pois alguém pode falar extensamente sobre ego e permanecer capturado pelas próprias necessidades narcísicas, pode ensinar desapego e depender profundamente da admiração dos pacientes, discursar sobre autonomia e, ao mesmo tempo, se sentir ameaçado quando alguém decide seguir outro caminho ou ensinar amor incondicional e apresentar enorme dificuldade para lidar com a discordância, a frustração e os limites do outro. Não estamos falando de contradições excepcionais, todavia de aspectos constitutivos da subjetividade humana que, quando não reconhecidos, podem interferir diretamente nas relações de cuidado.


Uma das contribuições interessantes da literatura psicodinâmica aparece no trabalho de Luchner et al. (2008), que investigaram como características narcísicas encobertas podem interferir na manutenção dos limites profissionais de psicoterapeutas. Os autores discutem situações em que necessidades de reconhecimento, vulnerabilidades narcísicas e dificuldades de manejo dos próprios sentimentos podem comprometer as fronteiras da relação terapêutica. É importante, no entanto, não transformar essa discussão em um diagnóstico generalizado. O artigo em questão não demonstra que terapeutas sejam predominantemente narcísicos, muito menos que profissionais holísticos apresentem necessariamente essas características. Ele oferece, entretanto, uma referência para pensar como necessidades subjetivas não reconhecidas podem interferir no exercício profissional.

É possível, p.e., que o desejo de ajudar esteja misturado à necessidade de ser reconhecido como alguém especial, do mesmo do do que a satisfação em acompanhar uma transformação pessoal esteja associada à necessidade de ocupar um lugar privilegiado na história do outro, ou ainda que o sentimento de estar cumprindo uma missão espiritual funcione também como uma maneira de organizar a própria identidade.


A questão não é condenar essas necessidades. Todos nós somos atravessados por desejos, conflitos, fantasias e necessidades de reconhecimento, mas o que fazemos com eles e, principalmente, se conseguimos reconhecê-los quando estamos diante de alguém em situação de vulnerabilidade.


Talvez uma das perguntas mais importantes para qualquer profissional que trabalha com o sofrimento humano seja: estou cuidando da autonomia do outro ou preciso que ele reconheça minha importância para que eu me sinta realizado em meu trabalho? Essa questão introduz uma dimensão fundamental da ética terapêutica: a necessidade de investigar não apenas o que fazemos com o paciente, mas também o que a relação com ele faz conosco.


3. A sedução do lugar de mestre

O lugar de terapeuta e o lugar de mestre não são necessariamente equivalentes. Embora ambos possam envolver transmissão de conhecimentos, orientação e alguma assimetria, suas posições e responsabilidades são diferentes. O terapeuta precisa conviver com a dúvida, reconhecer os limites de sua intervenção, escutar aquilo que não compreende e aceitar que a experiência do outro não precisa corresponder às suas próprias convicções.

O mestre, em determinadas tradições espirituais, pode ocupar uma posição de autoridade baseada na experiência, na transmissão de conhecimentos, na iniciação ou no reconhecimento de uma sabedoria particular.


O problema aparece quando essa posição é transportada para uma relação que se apresenta como terapêutica sem que o profissional reconheça as implicações dessa mudança. A figura do guru pode ser particularmente sedutora porque oferece uma posição simbólica de excepcionalidade. Aquele que sabe, que enxerga além, que já atravessou determinadas etapas, que compreende aquilo que os outros ainda não conseguem perceber. Em ambientes nos quais a espiritualidade é valorizada como sinal de evolução ou superioridade de consciência, essa posição pode encontrar condições especialmente favoráveis.


A linguagem participa dessa construção. Expressões como despertar, expansão da consciência, elevação vibracional, cura ancestral, alinhamento energético e libertação espiritual podem ser utilizadas para comunicar experiências legítimas. Entretanto, também podem funcionar como marcadores de hierarquia: de um lado, aquele que supostamente sabe; do outro, aquele que ainda precisa despertar, evoluir, aprender ou ser conduzido. Michel Foucault oferece instrumentos importantes para compreender esse fenômeno. Em seus estudos sobre o poder pastoral, Foucault (2008) analisa uma forma de poder que se organiza em torno do cuidado, da orientação e da condução dos indivíduos. Diferentemente de modalidades de poder que operam prioritariamente pela proibição ou pela violência, o poder pastoral se exerce por meio de uma relação de acompanhamento, conhecimento e orientação da vida de cada pessoa. O pastor não apenas determina comportamentos, ele se interessa pela interioridade dos indivíduos, procura conhecer suas dificuldades, suas faltas, seus pensamentos e suas condutas. A relação de cuidado pode, assim, se tornar também uma relação de condução.


Essa formulação é especialmente interessante para pensar determinados terapeutas que, sob o discurso da libertação, passam a orientar a maneira como seus pacientes devem compreender a própria existência. O profissional não precisa ordenar que alguém faça determinada coisa, basta que sua interpretação adquira tamanha autoridade que o paciente comece a utilizá-la como referência privilegiada para avaliar suas escolhas, sentimentos e experiências. O poder, nesse caso, não se manifesta necessariamente como imposição. Pode operar por meio da confiança, da admiração e da promessa de transformação e o que deveria ser uma relação de cuidado pode se converter em uma relação na qual a pessoa passa a depender da interpretação de outra para reconhecer a própria verdade.


4. A espiritualização do sofrimento: quando compreender significa não escutar

Uma das manifestações mais importantes desse problema aparece naquilo que a literatura denomina spiritual bypassing, expressão que pode ser traduzida como desvio ou evasão espiritual. O conceito, desenvolvido por John Welwood, descreve a utilização de crenças e práticas espirituais para evitar o contato com conflitos emocionais, dificuldades psicológicas e experiências humanas ainda não elaboradas (WELWOOD, 1984). A espiritualidade, em vez de favorecer o encontro com a própria experiência, passa a funcionar como uma maneira de escapar dela. Alguns exemplos: uma pessoa sofre uma perda e recebe como resposta que precisa compreender o propósito daquela experiência. Vive uma relação abusiva e ouve que precisa aprender a lição daquele vínculo. Expressa raiva e é orientada a elevar sua frequência. Demonstra tristeza e recebe uma explicação sobre a necessidade de cultivar gratidão. Questiona uma situação e é convidada a observar o próprio ego. O sofrimento, perceba isso aqui, é rapidamente convertido em significado.


Cashwell, Glosoff e Hammond (2010) realizaram uma investigação preliminar sobre o desvio espiritual, examinando relações entre espiritualidade, mindfulness, alexitimia, narcisismo, depressão e ansiedade. Os resultados indicaram que determinadas variáveis psicológicas, como dificuldades de identificação e expressão emocional, acrescentavam informações relevantes para compreender sintomas de depressão e ansiedade, para além da espiritualidade considerada isoladamente. Embora seja um estudo preliminar e não permita generalizações sobre terapeutas ou pacientes, oferece uma contribuição importante: práticas e crenças espirituais não garantem, por si mesmas, integração emocional ou elaboração psicológica.


O problema, não se perde agora, não está em atribuir significados espirituais às experiências, mas em utilizar esses significados para impedir que outras dimensões da experiência sejam reconhecidas, já que nem todo sofrimento precisa ser espiritualizado. Algumas dores precisam ser sim ("apenas") escutadas - sobretudo por quem as fala/expressa em voz alta. Algumas experiências precisam ser reconhecidas como violentas, injustas ou traumáticas, por isso os conflitos exigem elaboração já que demandam mudanças concretas nas condições materiais e sociais de existência. A espiritualidade, deste modo, pode acompanhar esses processos, mas não deveria funcionar como uma autorização para ignorá-los; ou ainda um risco ético importante, sobretudo quando o terapeuta utiliza explicações espirituais para atribuir ao paciente a responsabilidade por seu próprio sofrimento - a pessoa que não melhora pode ser considerada resistente, pouco comprometida, energeticamente desequilibrada ou espiritualmente imatura, como já apontamos antes. A intervenção, nesse caso, deixa de investigar suas próprias limitações e passa a produzir uma narrativa na qual o paciente é responsabilizado pelo fracasso do tratamento. O sofrimento, agora, deixa de ser uma experiência a ser compreendida socialmente construída e passa a ser um problema de consciência pessoal a ser corrigido - o que se coaduna muito bem com a lógica do neoliberalismo.


5. Transferência: quando o terapeuta passa a ocupar o lugar daquele que sabe

A psicanálise oferece uma ferramenta particularmente importante para investigar a construção dessa autoridade: a transferência. Na perspectiva lacaniana, a transferência está relacionada à suposição de saber dirigida ao analista, onde este, como sujeito suposto saber, não significa que efetivamente possua um conhecimento completo sobre o paciente, mas que a relação se organiza a partir da suposição de que existe um saber sobre o sofrimento e sobre a verdade do sujeito no lugar ao qual ele dirige sua demanda (LACAN, 2008). Essa formulação permite compreender algo fundamental: a autoridade atribuída ao terapeuta não depende exclusivamente daquilo que ele afirma saber. Ela também participa da maneira como o paciente investe simbolicamente essa relação. Uma pessoa que procura ajuda pode encontrar no profissional a figura daquele que compreende, protege, orienta, interpreta e oferece respostas, além de atribuir a ele uma capacidade especial de enxergar aspectos de sua experiência que ela própria ainda não consegue reconhecer.


Esse investimento não é necessariamente patológico, pois a confiança, a admiração e a idealização podem participar da constituição de diferentes relações de cuidado. O problema começa quando o profissional não reconhece a responsabilidade envolvida nessa posição e passa a se identificar com a imagem que lhe é atribuída Em vez de trabalhar a relação estabelecida, passa a usufruir dela. O terapeuta começa a responder como se realmente possuísse o saber que o paciente lhe atribui. Passa a interpretar sua vida, determinar os sentidos de suas experiências, orientar suas decisões e estabelecer os critérios pelos quais sua evolução deverá ser avaliada. A posição de quem supostamente sabe deixa de ser uma função da relação e se transforma em uma identidade pessoal. É nesse deslocamento que o terapeuta pode se transformar em mestre.


A contratransferência torna essa discussão ainda mais interessante. As reações emocionais do profissional diante do paciente, suas identificações, resistências, fantasias e necessidades podem interferir no manejo da relação. Um terapeuta pode sentir prazer excessivo em ser admirado, dificuldade em tolerar a discordância, necessidade de oferecer respostas para todas as questões ou frustração quando o paciente não apresenta os resultados esperados. Prasko et al. (2022), ao discutirem transferência e contratransferência no contexto da supervisão cognitivo-comportamental, apresentam diferentes situações em que as reações do profissional podem interferir no tratamento e na manutenção dos limites terapêuticos.


Embora a abordagem teórica seja diferente da psicanálise, a discussão reforça a importância de reconhecer as próprias reações e de submetê-las à reflexão profissional. A pergunta que emerge é decisiva: o que acontece quando o terapeuta não consegue suportar o lugar de não saber e precisa responder à idealização do paciente ocupando efetivamente a posição de mestre? Talvez seja justamente nesse momento que uma relação potencialmente terapêutica comece a se transformar em uma relação de dependência.


6. A fabricação da dependência e a inversão da autonomia

Uma das contradições mais interessantes desse universo é que práticas que se apresentam como caminhos de autonomia podem acabar produzindo novas formas de dependência. O paciente começa a consultar o terapeuta não apenas para trabalhar questões específicas, mas para saber o que deve pensar, sentir, escolher, acreditar ou fazer. Suas próprias percepções perdem valor diante das interpretações do profissional. A pessoa, então, passa a buscar autorização para tomar decisões, confirmação para suas experiências e validação para seus sentimentos, transformando o terapeuta em uma espécie de referência permanente para interpretar a vida. Em situações mais graves, o próprio afastamento do profissional pode ser interpretado como resistência à transformação, medo de evoluir, sabotagem ou incapacidade de sustentar o processo.


Temos uma inversão preocupante: aquilo que deveria ajudar a pessoa a recuperar a confiança em si mesma pode acabar enfraquecendo sua capacidade de reconhecer a própria experiência.


Brosnan et al. (2023) ajudam a compreender como a autonomia e o poder profissional podem coexistir nas consultas de terapias complementares. O paciente pode ser incentivado a assumir responsabilidade pelo próprio bem-estar, mas essa autonomia pode continuar organizada pelos critérios de observação e interpretação estabelecidos pelo terapeuta. Isso não significa que toda orientação produza dependência, nem que toda assimetria seja prejudicial. Qualquer relação de cuidado envolve algum grau de diferença de conhecimento e responsabilidade. A questão ética é o que se faz com essa assimetria, pois o conhecimento do profissional deveria ampliar as possibilidades de compreensão e ação do paciente, não transformar o profissional em uma autoridade permanente sobre sua existência.


É possível orientar sem determinar, do mesmo modo que acolher sem convencer, compartilhar uma compreensão sem a transformar em verdade obrigatória, já que autonomia não significa que o paciente nunca mais precisará de ajuda, entrementes, que o trabalho terapêutico não deve produzir a necessidade de uma validação permanente daquele que oferece o cuidado.


7. Espinosa: a servidão de quem acredita estar libertando

A filosofia de Espinosa permite aprofundar essa discussão e talvez oferecer uma das contribuições mais interessantes para compreender a alienação do terapeuta. Na quarta parte da Ética, Espinosa desenvolve o conceito de servidão humana, relacionado à nossa condição de sujeitos determinados por afetos e causas que nem sempre compreendemos.

Acreditamos agir livremente quando, muitas vezes, desconhecemos as determinações que nos conduzem. A liberdade, portanto, não consiste em uma vontade independente de todas as causas, mas em ampliar a compreensão das determinações que participam de nossa existência e, por meio dessa compreensão, aumentar nossa potência de agir (ESPINOSA, 2015).


Podemos transportar essa reflexão para a relação terapêutica. O profissional que acredita estar conduzindo o outro à liberdade pode estar, ele próprio, submetido a paixões que não reconhece. Sua necessidade de ser admirado pode aparecer como missão espiritual, como também o desejo (as vezes inconsciente) de controle pode se apresentar como orientação; a dificuldade de lidar com a própria impotência pode aparecer como promessa de cura, assim como certa dependência do reconhecimento dos pacientes pode ser interpretada como sinal de que está cumprindo um propósito maior.


Não se trata de afirmar que o terapeuta seja necessariamente hipócrita ou que esteja conscientemente manipulando alguém. Pelo contrário: o aspecto mais interessante dessa hipótese é justamente a possibilidade de que ele não perceba as determinações que participam de sua atuação. A alienação não aparece apenas quando alguém é submetido à vontade de outra pessoa, mas quando alguém desconhece as causas que determinam seus próprios desejos e acredita estar agindo em nome de uma liberdade que ainda não compreendeu. E o paciente pode participar desse mesmo circuito ao depositar no terapeuta a capacidade de interpretar sua existência, pode transferir para ele uma potência de pensar, compreender e agir que deveria desenvolver em sua própria experiência.


Temos, então, uma relação na qual ambos podem estar submetidos a determinações que desconhecem: um precisa ser reconhecido como aquele que sabe; o outro precisa acreditar que encontrou alguém que sabe por ele. Essa formulação permite deslocar a crítica da intenção moral dos indivíduos para a compreensão das relações afetivas e dos mecanismos de servidão que podem ser produzidos entre eles, pois a desalienação não começa quando encontramos alguém que nos oferece todas as respostas, mas quando conseguimos compreender por que precisamos tanto que alguém as ofereça.


8. O problema da formação: conhecer um método não é estar preparado para cuidar

Existe ainda uma dimensão institucional e formativa que precisa ser considerada, digo isso pois em determinados segmentos das terapias holísticas a conclusão de uma formação técnica, uma iniciação espiritual ou a participação em vivências transformadoras parece ser suficiente para autorizar alguém a conduzir processos complexos de outras pessoas. Entretanto, ter vivido uma experiência transformadora ou certa "compreensão espiritual" não significa estar preparado para acompanhar a experiência de outra pessoa. Do mesmo modo que sentir-se "aliviado" em determinada prática não significa que ela seja apropriada para todos ou ter obtido competência para interpretar qualquer sofrimento humano. É necessário distinguir conhecimento de uma técnica, experiência pessoal, formação profissional e capacidade de manejo de uma relação de cuidado. Essas dimensões podem se complementar, mas não são equivalentes.


A formação de um profissional que trabalha com pessoas não pode se limitar à transmissão de procedimentos, já que precisa também incluir a discussão dos limites de sua atuação, a compreensão dos processos relacionais, a capacidade de reconhecer situações que exigem encaminhamento e a disposição para questionar suas próprias intervenções. Lohani e Sharma (2023), em uma revisão sistemática sobre os efeitos da supervisão clínica na autoconsciência e na autoeficácia de psicoterapeutas e conselheiros, identificaram 17 publicações empíricas e discutiram a contribuição da supervisão para o desenvolvimento profissional. Essa literatura oferece sustentação à importância da supervisão como espaço de reflexão e desenvolvimento de competências. Não significa, entretanto, que qualquer modalidade de supervisão produza automaticamente os mesmos resultados, nem que uma supervisão isolada substitua formação adequada. O ponto central é que o profissional precisa de espaços nos quais possa examinar não apenas o que faz, mas também como participa das relações que estabelece, ou seja, um terapeuta que não consegue reconhecer quando uma demanda ultrapassa sua competência pode acabar produzindo intervenções inadequadas, mesmo quando suas intenções são genuinamente boas. Mais ainda: quando não existe disposição para questionar o próprio método, o profissional pode se tornar refém daquilo que aprendeu. Já não é ele quem utiliza a ferramenta; é a ferramenta que determina como ele enxerga as pessoas.


A humildade profissional não consiste em declarar que se está a serviço de algo maior. Consiste em reconhecer que o conhecimento é parcial, que a experiência humana excede qualquer sistema explicativo e que nenhum profissional deveria se considerar imune à necessidade de rever suas práticas.


9. A espiritualidade não é o problema

É importante estabelecer uma distinção para que essa reflexão não se transforme em uma crítica indiscriminada à espiritualidade ou às práticas holísticas. A espiritualidade pode participar positivamente dos processos de cuidado, oferecer pertencimento, sentido, recursos simbólicos, práticas contemplativas e formas de elaboração da experiência humana. As próprias diretrizes da Associação Brasileira de Psiquiatria para a integração da espiritualidade à prática clínica em saúde mental reconhecem a importância de investigar a história espiritual dos pacientes, respeitando suas crenças e considerando sua relevância para a avaliação e o cuidado (MOSQUEIRO et al., 2023).


A questão, portanto, não é excluir a espiritualidade das práticas de cuidado, mas compreender os limites de sua utilização e as responsabilidades envolvidas quando alguém se apresenta como profissional. Uma pessoa que utiliza práticas espirituais em sua clínica pode atuar muito bem, contanto que não atribuia a elas poderes universais. Um terapeuta sempre terá convicções religiosas (mesmo que convicto que são todas "muletas") sem impô-las aos pacientes. Assim como, as vezes, pode compartilhar experiências pessoais (quando sentir que se encaixam numa manejo de acolhimento necessário) mas não deve transformá-las em modelos obrigatórios de evolução. O problema não é a espiritualidade entrar na clínica, mas quando ela entra sem autocrítica, sem limites e sem responsabilidade pelas consequências de seu exercício. O problema não é o terapeuta possuir uma visão de mundo, todavia, deixar de reconhecer que sua visão também é parcial, situada e atravessada por suas próprias necessidades, isso se torna uma questão a ser levada a sua supervisão e terapia/análise pessoal.


10. Uma clínica invisível que precisa ser interrogada

Talvez estejamos diante de uma espécie de clínica invisível: um conjunto de práticas, discursos e relações que se apresentam como terapêuticos, mas que podem estar reproduzindo estruturas de poder semelhantes às encontradas em comunidades organizadas em torno de mestres espirituais. Nela, a linguagem do amor pode encobrir relações de dominação; o discurso da evolução pode desqualificar a vulnerabilidade; a promessa de libertação pode produzir dependência e a ideia de consciência pode servir para impedir o questionamento. É importante não transformar, entretanto, essa hipótese em uma afirmação generalizada sobre todos os terapeutas holísticos, insistiria nesse ponto. As pesquisas disponíveis não demonstram que esse fenômeno seja predominante nesse campo, tampouco autorizam diagnosticar coletivamente seus profissionais; mas elas permitem sim identificar mecanismos que merecem investigação, como a produção de autoridade nas consultas, a idealização do profissional, a espiritualização do sofrimento, as necessidades narcísicas não reconhecidas, a assimetria de poder e as dificuldades de manejo da transferência e da contratransferência.


A expressão clínica invisível é uma formulação nossa para articular essas dimensões, e não uma categoria já estabelecida pela literatura acadêmica. Sua relevância está em deslocar a pergunta de, simplesmente denunciar terapeutas que se comportam como gurus, para a necessidade em investigar como determinadas culturas de formação e práticas de cuidado podem favorecer a construção dessa posição. Quantos profissionais são formados para dominar métodos, mas não para reconhecer o lugar subjetivo que ocupam diante de seus pacientes? Os que aprendem a interpretar o sofrimento do outro, mas não desenvolvem condições para questionar suas próprias interpretações? Aqueles que falam sobre libertação enquanto permanecem profundamente identificados com a necessidade de serem reconhecidos como aqueles que libertam? E, sobretudo, quantos pacientes, em busca de acolhimento, acabam encontrando novas formas de submissão, agora revestidas de uma linguagem mais amorosa, elevada e espiritualizada? Talvez seja necessário recuperar uma questão elementar para qualquer terapeuta que trabalhe com o sofrimento humano: o que acontece comigo quando alguém me admira? Como reajo quando meu método não funciona? O que sinto quando alguém questiona minha interpretação? Consigo reconhecer que não sei? Consigo aceitar que outra pessoa possa compreender sua própria experiência de maneira diferente da minha? Essas perguntas não são apenas questões de formação técnica. São questões sobre a própria implicação subjetiva de quem se dispõe a cuidar.


A supervisão, nesse sentido, não serve apenas para ensinar procedimentos, corrigir intervenções ou oferecer respostas sobre o que fazer com determinado paciente, todavia constituir um espaço no qual o profissional pudesse investigar o que acontece consigo mesmo quando está diante do sofrimento de outra pessoa. Não se trata de ensinar terapeutas holísticos a se tornarem psicanalistas, nem de substituir uma autoridade espiritual por uma autoridade psicológica, mas favorecer condições para que possam reconhecer os limites de seus conhecimentos, investigar suas próprias implicações e desenvolver maior responsabilidade diante das relações que estabelecem. Afinal, existe uma diferença fundamental entre acompanhar alguém em seu processo de transformação (ou atravessar sua fantasia/maya) e desejar ocupar o lugar daquele que transforma. O primeiro exige escuta, disponibilidade, responsabilidade e humildade; e o segundo pode alimentar uma fantasia de poder.


Insisto que o maior sinal de maturidade de um terapeuta não seja a quantidade de pessoas que acreditam nele, mas sua capacidade de não precisar que acreditem. Um terapeuta não deveria nunca se imaginar mestre da vida alheia. Ele não é proprietário de uma verdade que os outros devem alcançar ou (muito menos isso) alguém que já resolveu a própria existência. Antes, compreende a si mesmo atravessado por conflitos, desejos e determinações que nem sempre reconhece. E que justamente por trabalhar com pessoas deveria estar continuamente disposto a questionar o que faz, por que faz e a serviço de quem está fazendo.


Cuidar de alguém não significa conquistar um lugar de poder na vida desse alguém. E talvez uma das tarefas mais importantes de qualquer prática terapêutica seja justamente criar condições para que o outro não precise de um mestre para continuar vivendo.


Referências bibliográficas

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