A Era do Sentido: ethos dos terapeutas Nova Era e o triunfo do espiritual, mas não religioso
- PhD. Roberto Simões

- 2 de jan.
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Atualizado: 5 de jan.

No limiar da modernidade tardia, onde a ciência prometia emancipar a humanidade das antigas narrativas de fé, irrompe um fenômeno que desconcerta racionalidades e desestabiliza certezas: não apenas a sobrevivência das religiões, mas a proliferação de formas espirituais híbridas, desterritorializadas e profundamente simbólicas. Entre essas formas, o que se chama de espiritualidade Nova Era, expressa de modo vibrante pelos terapeutas holísticos no Brasil, não é um resíduo folclórico ou mesmo ancestral da religiosidade tradicional. Ao contrário, é um dos modos mais pertinentes pelos quais o sagrado se reinventa no coração da cultura contemporânea, que insiste em manter o mundo (re)encantado.
Tal reinvenção não acontece fora da lógica racional, empírica ou mesmo "científica", oelo contrário, em muitos casos (ver Simões 2015), pode até fornecer a ciência - e tradição religiosa - um verniz novo. A Nova Era não é, em primeiro lugar, uma coleção de técnicas de bem-estar (apenas); ela é, antes de tudo, um discurso simbólico no qual se inscrevem ansiedades, desejos e respostas ao real aquele que, para Lacan p.e., não se simboliza, mas irrompe como falha, fratura e lacuna na experiência humana.
Nesse sentido, os terapeutas holistas/espirituais, aqueles especialistas que articulam corpo, mente e espírito numa busca por uma espécie de "equilíbrio energético" (ou homeostase divina), não estão apenas oferecendo práticas alternativas de cura: eles operam como produtores de sentido, como intermediários (ou diplomatas do invisível de um lugar em que a ciência não chega) em uma trama que tenta dar forma ao que foge às explicações da ciência moderna. Eles ocupam um lugar que não é meramente religioso nem exclusivamente terapêutico: é o entre de uma religião fluida, difusa, centrada na experiência subjetiva e na necessidade humana de sentido. Isso ressoa profundamente com a análise lacaniana do que se poderia denominar o “triunfo da religião”.
Para Lacan (ao contrário de Freud e Weber), a religião, em sua acepção mais ampla, não desaparece diante da ciência; ela persiste e se transforma porque responde a uma necessidade fundamental (me repito ou insisto para enfatizar): a de dar sentido à vida diante da angústia causada pelo real. O real, nessa perspectiva, não é apenas realidade material, mas aquilo que resiste à simbolização; a morte, a finitude, a falta, o equilíbrio, o que não pode ser plenamente articulado em palavras. A religião clássica ou institucional (hinduísmo, catolicismo, islamismo e etc) oferece narrativas que preenchem, mesmo que parcialmente, essas lacunas. A Nova Era surge oferecendo outras narrativas, não menos simbólicas, que cumprem uma função análoga, mas para aqueles que desejam peregrinar e não se converter. Ou seja, os terapeutas holistas/novaeristas parecem estar mais próximos do imago de feiticeiros do que sacerdotes, profetas ou místicos: eles (feiticeiros) são nômades, os sacerdotes são sedentários.
Esse ethos espiritual contemporâneo potencializa dois movimentos que Lacan consideraria cruciais: primeiro, a insistência em que o sujeito reconheça sua própria falta, sua não-satisfação estrutural; segundo, a busca por uma ordem de sentido que permita agenciar essa falta de modo não traumático. É por isso que, para Lacan, a religião (ou espiritualidade) pode triunfar: ela não elimina o real, nem subtrai a falta, mas dispõe o sujeito diante de um universo significante em que ele pode posicionar-se. O ethos Nova Era, dessa perspectiva, é um discurso religioso pós-institucional que oferece mapas de sentido para um mundo incerto.
Considere como os terapeutas holísticos articulam as noções de energia, equilíbrio e transformação pessoal. Em vez de recorrer a dogmas transcendentes, eles oferecem uma cosmologia "imanente": aquilo que antes era exteriorizado em um “Deus lá no alto” agora se encontra no interior do sujeito, nos estados de consciência, na energia sutil, na unidade entre corpo e espírito. Essa transposição do transcendental para o imanente é uma secularização que, paradoxalmente, não seculariza a experiência religiosa em si: ela a sustenta em outra ordem simbólica.
Lacan não diria que isso é um devolutivo à ciência ou que reabsorve o sujeito em um racionalismo, mas indica é que o discurso religioso — seja o sacerdotal, seja o espiritualista feiticeiro moderno, prevalece, pois é capaz de fazer sentido do que a ciência não pode dominar: a experiência subjetiva do desejo, da falta e da angústia. O "jeitinho" Nova Era organiza discursos e práticas que tentam pacificar o sujeito diante de sua própria divisão: ele não está completamente dentro da ordem do significante, nem completamente livre dela. Essa divisão é justamente aquilo que Lacan nomeia como sintoma ou sinthoma.
O sinthoma é um termo que Lacan introduziu no seu Seminário O Sinthoma (1975–1976) para reformular o conceito de sintoma freudiano. A palavra vem da forma antiga de escrever “sintoma”, e Lacan a escolhe deliberadamente para sinalizar que está deslocando e ampliando o sentido original que Freud dava ao sintoma. Freud via o sintoma como um significante que podia ser interpretado e decifrado (um conflito inconsciente a ser trazido à linguagem). Lacan reconheceu que, em muitos casos, esse modelo explicativo não capturava a singularidade da vida psíquica, havia elementos que não se simbolizam plenamente nem se reduzem a mensagens cifradas do inconsciente. Para lidar com isso, Lacan introduz o sinthoma como uma espécie de “nó” que sustenta a existência do sujeito ao ligar de maneira irreversível o Real (o que não pode ser simbolizado ou imaginado), o Simbólico (é a estrutura linguística do inconsciente) e o Imaginário (é a formação de imagens e ilusões do eu e dos outros) - os três registros fundamentais de sua teoria. Em vez de algo a ser decifrado, o sinthoma seria uma solução singular e criativa que cada sujeito inventa para estabilizar sua vida psíquica diante das lacunas e impasses da linguagem.
O sintoma freudiano presumia que a análise desvendaria um sentido oculto e que, com isso, o sujeito poderia viver de outra forma. Lacan percebeu que, para muitos sujeitos, não existe uma interpretação simples que solucione a dificuldade de simbolização. O sinthoma, portanto, não é algo a ser eliminado: é a maneira singular pela qual o sujeito faz com que sua falta e seu gozo se encaixem, funcionando como um modo de existir e não apenas como um efeito de algo que precisa desaparecer. Em termos bem simples: enquanto o sintoma Freud-Lacaniano tradicional é uma mensagem inconsciente interpretável, o sinthoma é uma criação singular do sujeito que sustenta sua própria consistência psíquica e que não se resolve simplesmente por interpretação — ele mostra como cada sujeito responde de modo único às faltas e impossibilidades da linguagem e do desejo.
O sinthoma lacaniano, portanto, é tudo o que não é apenas um sintoma no sentido clínico, mas uma forma criativa e singular de lidar com a falta, operando como um nó de significantes que dá forma ao sujeito. Não se perde agora: é aqui que o ethos Nova Era se manifesta como um sinthoma cultural, pois uma configuração narrativa e prática que dá forma ao mal-estar de uma época. Ele responde, com imagens, rituais e significados, a um sujeito que demanda respostas para o desamparo, para o sofrimento, para a sensação de desordem no real.
Esse ethos espiritual não é uma regressão infantil nem um retorno místico irracionalista. Ele é, antes, uma resposta simbólica que tenta enfrentar aquilo que Lacan chama de “o Real que não se simboliza”.
Como assim, um Real que não conseguimos descrever? Sim, por isso desconcerta, desterritorializa, cria um caos; e as religiões (e as espiritualidades) entram aqui, dando sentido ao que não tem (nem nunca terá): abrindo lacunas, frestas incompreendidas de um vazio insuportável.
Em vez de negar esse real, os discursos espirituais da Nova Era o incorporam em termos de energia, trauma, desarmonia e cura, todos os conceitos que são, ao mesmo tempo, clínicos, éticos e espirituais.
Consequentemente, o triunfo da religião, bem além das instituições tradicionais, não é apenas uma metáfora. É uma constatação de que o sujeito contemporâneo ainda precisa de uma trama significante para orientar sua vida diante da falta, da angústia e da incompletude. Essa trama, na contemporaneidade neoliberal e pós-moderna, não responde mais às grandes narrativas transcendentes do passado, mas a narrativas imanentes, pluralizadas e subjetivas que permitem ao sujeito mobilizar sua experiência.
O ethos Nova Era, assim, é uma forma contemporânea de religiosidade simbólica — uma religião sem igrejas, sem dogmas fixos, mas profundamente voltada à produção de sentido; por isso, aproxima os seus terapeutas aos feiticeiros do que uma classe sacerdotal portadora de um saber doutrinal. Para Lacan, esse tipo de religião (mágica) não tende ao declínio; ele triunfa justamente porque responde à falta estrutural do sujeito e dá sentido onde a ciência permanece muda.
Em última instância, compreender terapeutas holísticos e as espiritualidades contemporâneas como expressões do triunfo do religioso (ou espiritual se preferir) não é uma forma de desqualificá-los como supersticiosos ou irracionais. Pelo contrário: é reconhecer que, mesmo na era da ciência e da tecnologia, a vida humana não pode escapar da necessidade de sentido, e que esse sentido se constrói (sempre) no entrelaçamento entre linguagem, desejo e simbolização. Isso é, em última instância, o que a psicanálise lacaniana nos ensina: não há sujeito sem significante, e não há cultura sem religião, fosse ela institucional ou imanente à experiência subjetiva.
Referências Bibliográficas
BRANDÃO, Hugo. A Psicanálise e o triunfo da Religião. Estudos de Religião, v. 36, n. 3, p. 95–119, 2022/2024.
GUERRIERO, Silas; LEITE, Ana Luisa Prosperi; BEIN, Carlos; MENDIA, Fábio; STERN, Fábio Leandro; MARTINS, Leonardo. Concepções de saúde, cura e doença no ethos Nova Era: um estudo piloto entre terapeutas holísticos de São Paulo e Florianópolis. Revista Caminhos – Revista de Ciências da Religião, v. 18, n. 1, p. 106–119, 2020.
LACAN, Jacques. O seminário, livro 23: o sinthoma (1975-1976). Tradução de Sérgio Laia; revisão de André Telles. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2007.
SIMÕES, R. S. O papel dos Klesas no contexto moderno do Ioga no Brasil: uma investigação sobre os possíveis deslocamentos da causa do mal e da produção de novos bens de salvação por meio da fisiologia biomédica ocidental. 2015. Tese (Doutorado em Ciências da Religião) – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2015.




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