A fantasia/maya dos yogues brasileiros: deus me livre de ser eu mesmo
- PhD. Roberto Simões

- 7 de jun.
- 6 min de leitura
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Existe uma fantasia que atravessa grande parte do yogar brasileiro e que raramente é analisada. Ela costuma aparecer sob a forma de uma busca espiritual legítima, um desejo de liberdade ou crítica ao materialismo moderno. No entanto, quando observada por uma lente psicanalítica, revela uma economia libidinal bastante precisa. O que está em jogo não é apenas o desejo de "fazer yoga", mas de escapar da própria condição histórica latino-americana de mestiçagem.
O sujeito nasce mergulhado no desejo do que tem vaga lembrança ter experimentando e segue esse fio que o enreda e o emoldura. Antes mesmo de falar, já foi falado. Antes mesmo de desejar, já foi desejado. Podemos dizer que muitos yogues brasileiros chegam ao yoga já capturados por uma fantasia cultural anterior a qualquer experiência concreta da prática em si: a ideia de que existe, em algum lugar do mundo (quase sempre fora dele), uma origem pura capaz de revelar quem realmente somos.
Essa origem, curiosamente, nunca está aqui, mas em geografias imaginárias. Pode ser a Índia bramânica idealizada ou em territórios sem conflitos sociais, não importa, pois fantasmas. Pode ser num Egito místico transformado em reservatório de uma sabedoria preta dourada e perdida ou na Europa cristã branca, templária e roman(t)izada como guardiã de antigas trad(i-u)ções esotéricas. Não que seja desimportante qual seja o destino; a questão aqui é o mecanismo psíquico que pode permanecer o mesmo: a verdade-libertação/desejo do sujeito está sempre em outro lugar.
Essa fantasia/maya não é muito diferente daquela que Freud encontrou nos neuróticos quando investigava a chamada novela familiar. A criança imagina que talvez seus verdadeiros pais não sejam aqueles comuns, falhos e cotidianos que a criaram, mas figuras secretas, nobres e extraordinárias. O yogar brasileiro, em suas versões, parece oferecer uma novela familiar para adultos. O praticante é convidado a acreditar que sua verdadeira linhagem familiar não pertence à história concreta de sua própria, mas estaria em algum guru/livro/tradição distante e/ou civilização antiga e sagrada (ariana, egípcia, tibetana, tântrika, pachamama, krenak e etc). Seu verdadeiro nascimento teria acontecido em algum templo perdido no Himalaia, às margens do Nilo ou em uma Atlântida/Amazônica/Caxemira espiritual qualquer.
A pesquisa histórica das últimas décadas, entretanto, desmontou boa parte dessas mitologias. Os trabalhos de James Mallinson, Jason Birch, Daniela Bevilacqua e tantos outros mostram que a história do yoga é marcada por circulação, conflito, mestiçagem, disputas religiosas, empréstimos culturais e adaptações constantes - fazendo cair por terra as idealizações de pureza e aproximando o yoga muito mais da América Latina do que os latinosBR gostariam. O yoga não surgiu como um bloco homogêneo nem permaneceu protegido do mundo, já que ascetas dialogavam com mercadores, reis financiando ordens religiosas, técnicas migrarando entre grupos rivais e práticas sendo (re)inventadas inúmeras vezes - a própria ideia de uma tradição absolutamente pura parece muito mais uma necessidade primordial brasileira do que um dado histórico.
Talvez essa necessidade revele algo do funcionamento do desejo entre yogues/meditantes/terapeutas-nova era brasileiros. O verdadeiro eu prometido por muitas espiritualidades parece funcionar de maneira análoga ao objeto perdido descrito pela psicanálise, que mencionamos no início deste ensaio. O sujeito-yogueBR, entrementes, segue como um rochedo acreditando existir uma identidade autêntica escondida sob as camadas da cultura e linguagem, bastando remover condicionamentos, purificar a mente e seguir religiosamente uma linhagem para que essa essência finalmente chegue à superfície da sua pele escura. O problema é que, talvez não exista um eu anterior à linguagem esperando a ser desvelado. O sujeito é efeito da linguagem sem um núcleo puro soterrado pela civilização e uma divisão constitutiva. Somos nada caminhando pra morte e inventando mundos em relação com outros corpos-nada.
É precisamente essa divisão que a fantasia espiritual/maya tenta negar. A promessa de um verdadeiro eu é sedutora porque oferece uma saída para a angústia de não sermos inteiramente donos de nós mesmos. Aqui, a religião-yoga sempre triunfará, pois promete sentido ao impossível e mantrando ao praticante de meditação/yogaBR que existe um lugar onde todas as suas contradições desaparecerão e a pergunta "quem sou eu?", um dia, encontrará sua resposta definitiva.
A segunda grande fantasia do yogar brasileiro completa a primeira. Se a verdade está em algum lugar distante, a vida adequada para encontrá-la também precisa estar distante da sociedade. Multiplicam-se então as imagens do sábio na caverna, da cabana rústica na montanha, da casa simples diante de uma praia deserta, do retiro permanente longe das cidades, do trabalho, da política e dos conflitos cotidianos. Não se trata apenas de um desejo de descanso, todavia, uma fantasia de desfiliação social. O mundo aparece como espaço da corrupção, enquanto a natureza (e todo corpo é natural - parte da Natureza) é convertida em cenário de redenção (kaivalya, moksa ou nirvana). O sujeito imagina que seu sofrimento nasceu da sociedade (o que não é uma metira desLAVADA) e que bastaria se afastar dela (rumo ao reino dos Céus, Nosso Lar ou em alguma instância outra metafísica da sua além-consciência ou Eu-Maior) para reencontrar a paz primordial, ou seja, a sua própria morte.
Há uma ironia pouco discutida nesse imaginário. A imensa maioria dos praticantes que cultiva essa fantasia/maya depende integralmente das estruturas sociais que supostamente rejeita: vive do trabalho urbano, da tecnologia, dos sistemas financeiros, da medicina moderna, das redes digitais, da sua tradição religiosa e das cadeias globais de produção. A cabana na montanha, o ashram no campo e a praia deserta frequentemente são consumidas como produtos culturais da mesma sociedade capitalista da qual se pretende fugir. E, perceba, estou longe de defender o capitalismo e suas sociedades cansadas. Pelo contrário, já discuti em outros lugares que é, justamente este colapso da organização de corpos capitalístico que fez o yoga moderno ganhar tanto espaço com inúmeros professores de yoga/meditantes sendo "formados" por ano no Brasil.
Do ponto de vista psicanalítico, essa operação lembra o mecanismo da fantasia enquanto cenário que organiza desejos. A fantasia não existe para esconder a realidade, mas tornar a realidade suportável. Todo maya/fantasia oferece ao sujeito-yogue (ou não) uma pequena narrativa capaz de dar sentido à sua falta primordial. O yogueBR, p.e., imagina que, se pudesse abandonar a cidade, o emprego, a família, uma sociedade burguesa finalmente viveria de acordo com a sua essência. No entanto, ao chegar à caverna sonhada, levaria consigo aquilo de que realmente não consegue escapar: o próprio inconsciente.
É por isso que a história concreta do yoga é tão desconfortável para muitos praticantes reaças, mas também progressistas distraídos - todes gratiluz. Ela destrói a ilusão-fantasia/maya de uma tradição yoguica fora do mundo e que os antigos yogues nunca foram místicos isolados, mas personagens implicados em guerras, economias, hierarquias religiosas, disputas de prestígio e jogos de poder político (vide Gandhi, Ramakrsina ou Hermógenes e DeRose). Eram sujeitos históricos e não habitantes de uma utopia espiritual. A fantasia hegemônica do yogar brasileiro parece então se organizar ao redor de uma dupla recusa: recusa da própria história e da sua constituição como sociedade latino-americana (indígena, africana em diáspora e os empobrecidos e, na sua maioria, degradado/as europeus). A busca por um verdadeiro eu, que estaria em uma origem estrangeira idealizada e sonhada vida purificada do laço social mestiça, se esvai e com ela, advém a repulsa/nojo de ser o que só podemos ser, i.e., nós mesmos e nossas circunstâncias de povo brasileiro (e salve seu Darcy). O que ambas as operações compartilham, nos parece ser, a desesperança de escapar da falta constitutiva que marca a existência humana. Sim, pois tentar escapar assim (para longe de si - me desculpe o trocadilho) é niilismo e não ter fé (confiar) na única coisa que vale a pena: atravessar nossas fantasias e aprender a recontar estórias.
Uma leitura psicanalítica do yogaBR pode nos conduzir a uma direção oposta a essa em que vivemos por mais de 100 anos. Em vez de procurar um eu verdadeiro escondido em alguma tradição perfeita (indiana, africana ou indígena), ela perguntaria como cada sujeito-yogueBR produz seu modo singular de desejar. Em vez de fantasiar uma fuga definitiva da sociedade, reconheceria que o desejo sempre se constitui no interior dos laços sociais e simbólicos. Isso não empobrece o seu yogar. Ao contrário, o que se propõe aqui, neste pequeno ensaio, é se libertar da obrigação de funcionar como máquina de regressão a uma pureza impossível.
O yoga, assim, deixaria de ser a promessa de retorno a uma origem perdida e se tornaria, enfim, uma práxis (mais do que prática) de elaboração do impossível que nos constitui ou desalienação. Não para descobrir quem realmente éramos antes do mundo nos corromper, mas para inventar um modo de existir dentro dele, sem a ilusão de que haverá uma Índia perfeita, uma caverna definitiva ou um verdadeiro eu esperando pacientemente para ser encontrado. As contradições do mundo nunca terão fim hermanos e hermanas. E vai dormir com isso. O objetivo da vida é o seu fim, e o que fazemos enquanto não terminamos nossa análise.




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