A TERCEIRA MARGEM DE MAYA

Atualizado: 12 de jul.


Maya é um conceito do campo do yoga que pode significar ilusão, mas também feitiço. Quando um yogin diz que alguém está vivendo em maya, podemos julgar que este foi enfeitiçado, iludido ou alienado (avidya: ignorância), pois não compreende suas dores e angústias.


Se há uma cura em que os yogins desejam alcançar, para si e outres, é o da ignorância causada por maya. Yogin, assim, é um “quebra-demanda”, desfazedor de feitiços|mayas. Ele é um {iniciado} na magia do “cozimento de corpos”.


Há, entrementes, 2 categorias de yogins: os que pertencem a um clero|igreja|Estado e os xamãs. Ambos (yogins clericais e yogins xamãs) alcançaram a “segunda margem do rio” ou Purusa.


Purusa ou “puro-observador” é um segundo conceito filosófico, par de Maya, deveras importante ao campo yoguico. Todo esforço (tapas) de um yogin para desfazer o feitiço-ilusório-maya, precisa alcançar a perspectiva do Purusa|Observador-Imaculado.


E aqui precisamos abrir um parêntese, um espaço liminar, experienciar o “entre”, como se fôssemos o próprio Purusa ou “O Imaculado”, aquele que não se {contamina} pelo mundo mediado e nem imediato ou imaginário.


Não se perde agora… Tudo o que conhecemos é o {percebido} de um fluxo sensorial que atravessa nossos corpos. Não percebemos (nomeamos: significamos) tudo que sentimos! Purusa, como parte do corpo, é um modo| modificação da Natureza| Deus(a)| Gaia. Todos os corpos, então, estão interconectados (rizoma) pela mesma Substância, mas, devido ao feitiço de maya vivemos numa ilusão como se fosse real: nos imaginamos separados do Todo|Natureza, mas isso é maya ou feitiço, pois muito passa despercebido por nós, mas mesmo assim nos compõe.


Todo yogin inventa-lhe um corpo imune a esse feitiço| fetiche do individualismo - ou pelo menos imagina que sim. Essa ressalva diz aos yogins clericais capturados por outra demanda forte: a da transcendência como ilusão. Estes se encantam com o absolutismo que o transcendente-maya os enlaça imaginando agora serem purusas imperturbáveis. Quase tode yogin-sacerdote acredita em Purusa como Ser fora do corpo, e este (o seu corpo), um empecilho ou “coisa” a ser purificada, desintoxicada ou exorcizada.


Yogins-xamãs afundam-se nas águas claras de Purusa em direção a “terceira margem do rio”. Eles atravessam Purusa| Espelho| Observador como Alice, Kopenawa, Sebastião e Don Juan o fizeram; alcançam a imanência para além da lâmina d’água do maya-transcendência. É na segunda margem que, muitos yogins-clericais fundam suas Igrejas. Os yogins-xamãs se afundam para a terceira margem.






Não há um “além de Purusa”, mas uma terceira margem através dele. O Purusa-Transcendental é negativo e o Purusa-Imanente é positivo. Um, nega tudo que não seja ele, enquanto o outro, absorve tudo sendo ele. O yogin-xamã ganha corpo, o yogin-clérigo é desincorporado. Sem corpo não sente e, ato contínuo, não percebe nada além do que reflete nele e seus signos: puro observador.


Purusa habita a segunda margem do rio vendo com o olho que tudo vê numa postura sedentária, absoluta, nobre e despótica. Yogins-xamãs são marcados pela terra|corpo e os yogins-clericais pelo déspota. Yogins-xamãs, esses selvagens primitivos, devoram todos os corpos mergulhando para o “fundo do rio” (afundamentos), por isso incorporam, se embebem de Purusa: loucos, praticam o canibalismo sacrificando Purusa e o incorporando (novamente).


Esse pensamento selvagem luta contra os Yogas-Estado e seus aparelhos-de-captura, são yogins-xamãs-guerreiros em suas máquinas-de-guerra traçando rotas-de-fuga, feitiços de contra-demanda ou decoloniais. Enquanto isso, o yogin-sacerdotal acredita em seu ponto-de-vista (como observador passivo) de Purusas universais, aqueles que “contém” todos os yogas. Já o yogin-xamã compreende todo ponto-de-vista como total, e nenhum sendo equivalente a nenhum outro yogar. Yoga-Darsana, p.e., é só uma perspectiva de um yogin brâmane; este é inteiro e completo, assim como o Iyengar Yoga ou o Nathismo Yoga. Nenhum complementa o outro, são todos perspectivas com suas próprias racionalidades ou “pensamentos selvagens” {plenos}. Nada falta ao yogar autêntico. A diferença é que os yogins-xamãs devoram os yogins-clericais, comendo-os vivos com suas letras, vocalizações e deuses, não para destruí-los como inimigos, mas para incluí-los na família: parentesco ameríndio.


Dito de outra forma, ao invés do ponto de vista de Purusa, o yogin-xamã devora-o como uma possessão ou antropofagia num “desequilíbrio perpétuo” ou {homeostase divina}. É somente da perspectiva yoguica do xamã selvagem que se encontra com a terceira margem de Purusa, vivendo a multiplicidade de yogas. Os que vivem na segunda margem, crentes no Purusa-Substância, temerosos do siddhi-canibal, fincam seus yogares em tradições, livros e clero. A liberdade e imortalidade do Yoga reside em {despachos-mat} feitos nas encruzas e cemitérios de lua escura, vestidos de ar e com seus colares de crânios.