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Entre o Real e a Fantasia: uma bela surpresa nos encontra

Atualizado: 5 de jan.

Há um modo muito pobre, e muito neoliberal, de olhar para a vida: supor que o sujeito “desiludido” é alguém que finalmente viu a verdade crua do mundo e agora vive sem enganos. Como se a lucidez fosse um estado higienizado de ausência de fantasias. Bobagem. Ninguém vive sem fantasia. A ausência de fantasia não é clareza; é colapso.


A fantasia não é historinha infantil contada para nós mesmos; é estrutura mínima do desejo, o enquadre onde um sujeito consegue desejar alguma coisa, ou ao menos se sustentar. É o que impede o buraco do Real de nos engolir. O sujeito sem fantasia não é mais lúcido, é apenas alguém que perdeu o roteiro que amarrava sua existência ao mundo. É o desiludido (e cínico) que não sabe mais para onde vai porque perdeu até o mapa da própria vida.


Ao mesmo tempo, a fantasia sozinha não basta. Se o sujeito se cola demais a ela, se confunde o que imagina ser com o que se está sendo, cai no regime do Imaginário, aquele teatro narcísico onde tudo precisa fazer sentido, ser coerente, impecável, heroico. É a vida-vivida como performance, como avatar. O problema do Imaginário é que ele sempre racha: o Real retorna, e quando retorna, destrói.


O Real, nessa chave, não é a “verdade factual” das coisas. É o impossível da experiência, aquilo que não se deixa domesticar: a perda, a morte, o imprevisto, o que escapa ao sentido, o que desmonta nossos planos, o que desmente nossos ideais. O Real é a torre derrubada no tarô da cigana, o colapso daquilo que parecia seguro. Mas é também o que força a reinvenção. O Real nos convoca a reorganizar a vida com algum estilo, não porque sejamos livres, mas porque não temos escolha.


E é justamente no intervalo entre esses dois extremos, a fantasia idealizante e o Real intratável, que existe aquilo que você nomeou com precisão: uma bela simbólica nômade e divertidíssima que aparece, sempre em deslocamento, sorriso largo e sincero onde construímos as relações que tornam a vida modulável, respirável e minimamente bela (e "santa"). O Simbólico é o espaço compartilhado da linguagem, dos pactos, das trocas, dos rituais, das culturas, dos mitos, das práticas, das instituições, e também das rupturas.


Esse campo é nômade porque nunca está dado; ele se desloca conforme os corpos, as histórias e os encontros. Não é uma ordem fixa, é um tecido que se refaz a cada ato de fala, a cada afeto que encontra um nome, a cada gesto que o outro interpreta e devolve. É nele que criamos alianças, amores, políticas, narrativas, estilos de vida. É nele que a existência deixa de ser mera sobrevivência individual e passa a se tornar mundo compartilhado e amado.


Se quisermos pensar politicamente, o fantasma do “sujeito desiludido” é útil ao capitalismo: indivíduos que não acreditam em nada, não sonham com nada, não se enlaçam a ninguém, são fáceis de gerir. Um sujeito que perdeu sua fantasia cai na apatia e anda de patinete na Faria Lima, e a apatia é uma excelente ferramenta a quem oprime novos signos aparecerem. Sem fantasia, o desejo enfraquece; enfraquecido, ele não produz laço, não produz insurreição, não gera novas histórias - belas histórias que soam de manhã por músicas inventadas do Elvis.


A tensão vital está justamente no manejo criativo entre Real, Imaginário e Simbólico. O que chamamos de vida bela, ou ao menos de uma vida com graça por encantos escondidos que nos perdem no Rosa, acontece quando o sujeito aceita que a fantasia é necessária, mas não suficiente; que o Real é inevitável, mas não absoluto; e que o campo simbólico, esse território móvel que compartilhamos, é o que transforma a dor em narrativa, a solidão em relação e a falta em estilo.


É ali, no meio desses atravessamentos alegres e tristes da separação, muitas vezes, que cada sujeito encontra um modo singular de existir. Não uma essência, mas uma invenção contínua. Não uma identidade fixa, mas um caminhar que se reescreve conforme o vento que um dia pensamos reencontrar de novos modos. Não um ideal, mas uma estética. E é essa estética, essa forma própria de lidar com a falta, que nos distingue, nos singulariza e, sobretudo, nos permite estar com os outros sem nos dissolver - e ao Outro.


Porque a vida que vale a pena não é a que elimina as ilusões, nem a que se refugia nelas. É a que as atravessa, as reinscreve e as coloca para dançar com o Real, nesse baile instável onde, apesar de tudo, seguimos inventando algum sentido.

 
 
 

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