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Entre Purusa e o Real vive o que não É

Atualizado: 5 de jan.

Resumo

Este ensaio propõe um diálogo conceitual entre puruṣa, segundo a filosofia Samkhya/Yoga, e o Real na psicanálise lacaniana. A partir de uma leitura crítica, procura-se mapear tanto as aproximações simbólicas, como a qualidade testemunhal, a resistência à representação, ou o caráter limite, quanto os distanciamentos filosóficos e ontológicos entre os dois termos. Ao fazer isso, sugere-se que praticantes de meditação/yoga e analistas psicanalíticos podem se beneficiar de uma compreensão simbólica cruzada: os yogues podem repensar o samādhi ("sentimento oceânico") como encontro com uma consciência-limite, e os psicanalistas podem empregar a metáfora puruṣa para articular dimensão do Real que não se reduz ao simbolismo. A articulação proposta mantém a integridade teórica de cada tradição, evitando sincretismo superficial.


Introdução

Nas tradições filosóficas indianas, especialmente no Samkhya e no Yoga de Patañjali, o conceito de puruṣa ocupa uma posição central: trata-se de uma consciência pura, imóvel, testemunha das transformações da matéria/corpo (prakṛti), mas distinta dela (Vassão, 2022). Para os yogues e filósofos samkhya, puruṣa não age, não produz, nem é produzido; sua função é contemplativa e liberadora (Bhattacharyya, 2025), como um espelho.


Por outro lado, na psicanálise lacaniana, o registro do Real representa aquilo que escapa à simbolização, o que não pode ser totalmente dito ou integrado ao discurso simbólico. O Real lacaniano é frequentemente caracterizado como impossível, impossível de imaginar, de simbolizar, de dominar (O’Neill, 2025), e exerce uma força traumática na vida psíquica (Fordham/Oxford, 2008).


Este ensaio visa estabelecer uma aproximação ensaística entre puruṣa e Real: não para equipará-los, mas explorar possíveis semelhanças simbólicas e seus limites conceituais iluminar práticas meditativas contemporâneas e intervenções clínicas.


1. Puruṣa na Filosofia Samkhya / Yoga

1.1 Natureza ontológica de Purusha

Na tradição Samkhya, puruṣa é definido como consciência pura, distinta da prakṛti (matéria primordial). Segundo o Samkhya, puruṣa não se identifica com os gunas[1] nem com as mutações do mundo fenomênico (Vassão, 2022). Essa consciência é considerada eterna, imóvel e testemunha da evolução da prakṛti (Vassão, 2022).


1.2 Puruṣa como testemunha (“witness consciousness”)

Shyamasree Bhattacharyya discute precisamente essa natureza testemunhal de puruṣa: para o Samkhya, puruṣa está presente sem ser afetado pelas transformações da prakṛti[2]; é “mera consciência espectadora” (Bhattacharyya, 2025, p. 63-64). Essa presença passiva é essencial para a visão samkhya de libertação, pois puruṣa não intervém ativamente, mas sua simples coexistência com a matéria permite que esta evolua.


1.3 Relação com Prakṛti e libertação

Segundo Siegfried Bleher, a presença de puruṣa ao lado da prakṛti basta para desestabilizar o equilíbrio desta última, promovendo sua evolução, sem que puruṣa atue como causa (Bleher, 2025). Ao mesmo tempo, puruṣa é considerado inativo: ele não produz, mas existe como condição para a manifestação (Bleher, 2025, p. 160-170). Na visão samkhya, a libertação (kaivalya) ocorre quando puruṣa é discernido como distinto da prakṛti, por meio de viveka (lit.discernimento), o conhecimento discriminativo (Vassão, 2022).


1.4 Ponto de vista psicológico / metafísico

Para alguns intérpretes, puruṣa desempenha dupla função: metafísica (como princípio universal) e psicológica (como testemunha interior, consciência individual). Em suma, puruṣa pode ser visto como agente de consciência (Citta = Eu/ego + "mente" + "intelecto" ou o que discrimina) que, embora não atue causalmente, constitui uma instância interior estável e independente (Oliveira, 2023).


2. O Real em Lacan

2.1 A concepção do Real nos registros psíquicos

Lacan articula três registros fundamentais: o Imaginário, o Simbólico e o Real[3]. O Real é justamente aquilo que permanece fora da estrutura simbólica e imaginária, uma instância que resiste à representação e que não se reduz a uma imagem ou a um significante.


2.2 Características do Real: resistência e impossibilidade

De acordo com Lacan, o Real “resiste absolutamente à simbolização”, o que lhe confere uma qualidade traumática. Ele não se deixa integrar plenamente ao discurso simbólico nem ao imaginário. Para Lacan, o Real tem relação com o impossível: é im­pos­sível de imaginar, impossível de atingir por meio da linguagem simbólica (O’Neill, 2025).


Além disso, o Real é “positivamente nomeado” como aquilo que é “fora do sentido”, sem lei simbólica que o organize de forma totalmente previsível ou compreensível.


2.3 Função clínica e estrutural do Real

Segundo teóricos da psicanálise, o Real surge clinicamente como aquilo que não pode ser dito completamente: trauma, repetição, lapsos são manifestações de um núcleo recalcitrante (Fordham/Oxford, 2008). O trabalho analítico envolve, então, reconhecer esse núcleo, dar-lhe bordas simbólicas, sem tentar domesticar ou eliminar o Real, mas permitir que ele retorne com sua força e significação.


3. Aproximações ensaísticas entre Puruṣa e Real

3.1 Testemunha interior e presença-limite

Uma das pontes mais potentes entre puruṣa e Real é a noção de testemunha. Purusha é uma consciência que observa sem agir (Bhattacharyya, 2025). De modo análogo, o Real lacaniano pode ser pensado como uma presença-limite: algo detectável, sentido, mas que escapa à plena simbolização. Ambos implicam uma instância que não é totalmente capturada pelas representações simbólicas nem pelas imagens — uma consciência ou limite que persiste.


3.2 Resistência à representação

Tanto puruṣa quanto Real compartilham a característica de resistência à plena explicitação. No Samkhya, puruṣa não é constituído por atributos que possam ser completamente descritos: sua natureza simples e pura desafia a linguagem empírica (Vassão, 2022). O Real, por sua vez, é definido precisamente por aquilo que não pode ser simbolizado completamente (O’Neill, 2025). Essa resistência mútua funda uma analogia simbólica: ambos apontam para um núcleo “além do discurso usual”.


3.3 Dimensão ética-prática da experiência

Se meditarmos sobre as práticas yoguicas à luz desse diálogo, podemos reimaginar o samādhi ("estado nirvânico") não apenas como êxtase ou fusão mística ou combinação de respostas neurobiológicas, mas como um encontro com uma consciência testemunha e um limite estrutural de nossa própria psiquê em dialética com o mundo ainda não simbolizado e que retorna como sintoma e/ou trauma. O praticante pode cultivar a consciência de puruṣa como presença silenciosa, percebendo que essa testemunha ressoa com algo semelhante ao Real lacaniano: algo profundo, irreduzível, que retorna sem se esgotar.


Na prática clínica, analistas podem usar a metáfora do puruṣa para dialogar com analisandos que meditam ou praticam Yoga, ajudando-os a nomear uma sensação interior: não apenas ego ou eu-ideal, mas uma instância de consciência que persiste além dos conteúdos psíquicos.


4. Limites e distanciamentos conceituais

4.1 Ontologia vs estrutura

Uma diferença fundamental reside na ontologia de puruṣa e na estrutura do Real. Para o Samkhya, puruṣa é uma realidade metafísica: existe independentemente, é eterno, imóvel (Vassão, 2022). Já para Lacan, o Real não é uma substância metafísica no sentido clássico, mas uma dimensão estrutural da subjetividade, uma instância que marca a falta simbólica e traumática.


4.2 Pluralidade vs singularidade

Na tradição Samkhya, há correntes que afirmam múltiplos puruṣas individuais, ou seja, cada ser tem seu puruṣa distinto (Oliveira, 2023). Por outro lado, no quadro lacaniano, o Real não é concebido como “vários Reais” metafísicos, mas como uma estrutura universal da subjetividade, que cada sujeito experiencia de modo singular.


4.3 Agência e passividade

Puruṣa é descrito como completamente passivo: ele não age causalmente sobre a prakṛti (Bhattacharyya, 2025). Já o Real, embora também não “aja” causalmente no sentido convencional, produz efeitos psíquicos concretos (trauma, repetição, angústia), precisamente por sua resistência simbólica (Fordham / Oxford, 2008). A noção de agência, nesse caso, é paradoxal: é agência por ausência de total simbolização.


4.4 Propósitos distintos

Para os praticantes de Yoga / Samkhya, a libertação (kaivalya) é a meta: perceber puruṣa como distinto da prakṛti, vivendo em isolamento consciente (Vassão, 2022). Na psicanálise lacaniana, o “encontro com o Real” não visa uma libertação mística, mas uma transformação simbólica e ética: dar voz àquilo que não se simboliza, permitir que o sujeito habite sua falta sem ilusões de fusão.


Conclusão

A articulação ensaística entre puruṣa (Samkhya / Yoga) e o Real lacaniano não busca fundir os dois conceitos, mas sim explorá-los em tensão. As semelhanças simbólicas — como a qualidade testemunhal, a resistência à simbolização e o caráter limite — permitem um diálogo fértil que pode enriquecer a prática meditativa e a clínica psicanalítica.


Para o praticante de Yoga, essa leitura oferece uma forma mais profunda de compreender o samādhi: não como triunfo da mente, mas como encontro com uma consciência que transcende a identificação e ressoa com uma presença-limite. Para o analista, a metáfora puruṣa abre caminhos para nomear o Real de um modo que não reduza sua radicalidade, mas que permita uma costura simbólica cuidadosa.


Esse diálogo simbólico é uma aposta: a de que diferentes tradições possam se aproximar sem perder sua singularidade, ofertando ferramentas conceituais para pensar a subjetividade, a transcendência e o limite com mais nuance e respeito.


Notas de rodapé

  1. Gunas: Os gunas são três qualidades constitutivas da prakṛti na filosofia Samkhya:

    1. Sattva (harmonia, luminosidade, equilíbrio)

    2. Rajas (atividade, movimento, paixão)

    3. Tamas (inércia, escuridão, obstáculo)Essas três forças estão em constante mutação, e seu desequilíbrio é o que gera a manifestação do universo.

  2. Prakṛti: É o princípio material, a natureza primordial inconsciente que contém os gunas. Antes da manifestação, está em equilíbrio (mūla prakṛti); quando esse equilíbrio se perturba, surge a evolução dos táttvas (elementos) do universo.

  3. Imaginário: é o registro das imagens, das identificações espelhadas (como no “estádio do espelho”) e das ilusões de unidade. É onde o ego se forma por identificação com uma imagem (real ou ideal). Simbólico: é a ordem da linguagem, dos significantes e das leis culturais. É por meio do simbólico que o sujeito é estruturado socialmente, e é nele que se dá a relação com o Outro (linguagem, nome, lei).


Referências

  • Bhattacharyya, S. “Puruṣa as Witness Consciousness in Sāṃkhya Philosophy: Some Observations.” Samkhya-Yoga Philosophy of Consciousness, R. K. Panda (org.), Springer, 2025.

  • Biswas, Nanda Gopal. “The Sāṁkhya Term Puruṣa (self): An Analytical Assessment.” Research Review International Journal of Multidisciplinary, v. 3, n. 8, 2018.

  • Bleher, Siegfried. “Relationship of Puruṣa and Prakṛti in Sāṃkhya Kārikā — A Perspective from Quantum Theory.” In R. K. Panda (org.), Samkhya-Yoga Philosophy of Consciousness, Springer, 2025.

  • Vassão, Fernanda Giddings. A Concepção de Natureza na Filosofia Samkhya. Trabalho de Conclusão de Curso, UNESP, 2022.

 
 
 

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