Estudo crítico, escuta ativa com acolhimento, e supervisão clínica de casos reais
- PhD. Roberto Simões

- 27 de dez. de 2025
- 6 min de leitura
Atualizado: 5 de jan.

Sobre o não-saber como condição de trabalho no yoga e na meditação
O campo contemporâneo do yoga, da meditação e das terapias holistas se estruturou, na maioria, a partir de uma promessa: a de redução do mal-estar. Ansiedade, estresse, dores difusas, esgotamento emocional e sensação de vazio tornaram-se as principais portas de entrada para essas práticas, que passaram a circular como tecnologias de regulação da experiência. O professor, nesse cenário, é convocado a ocupar um lugar muito específico: o de operador de equilíbrio, gestor de estados internos, mediador de uma homeostasia desejada.
Essa convocação, no entanto, produz um efeito paradoxal. Ao mesmo tempo, em que oferece reconhecimento social e lugar profissional, ela empurra o professor para uma posição de saber que raramente corresponde à realidade da prática. Pois, quando o yoga e a meditação deixam de ser apresentados como caminhos de investigação e passam a funcionar como respostas prontas ao sofrimento, algo de sua potência se perde. O que se instala é uma relação pedagógica fundada na promessa de alívio, e não na abertura de um processo.
O que frequentemente se observa, na experiência concreta das aulas e dos grupos, é que o mal-estar não desaparece. Ele retorna. Às vezes mais silencioso, às vezes mais intenso, às vezes deslocado para o corpo, para o vínculo com o professor ou para a própria prática. A promessa de equilíbrio, quando tomada literalmente, produz um efeito de culpabilização: se a técnica é correta e o sofrimento persiste, algo deve estar errado com quem pratica. O ideal de plenitude transforma-se, assim, em critério moral.
Há, contudo, outra possibilidade de leitura da função do yoga e da meditação, menos alinhada ao mercado do bem-estar e mais próxima de sua experiência viva. Nessa leitura, essas práticas não operam porque sabem o que fazer com o sofrimento, mas justamente porque não sabem. Não no sentido de ignorância, mas no sentido de não oferecerem garantias. Elas criam um campo onde o sujeito é convidado a permanecer com o que o atravessa, sem que isso precise ser imediatamente corrigido, normalizado ou dissolvido.
O não-saber, aqui, não é falha; é condição de trabalho. É ele que impede que o professor se torne gestor da vida psíquica do outro. É ele que sustenta um espaço onde a experiência pode acontecer sem ser reduzida a um resultado esperado. Quando o professor não ocupa o lugar de quem promete equilíbrio, ele pode sustentar algo mais raro: um espaço de escuta, de elaboração e de responsabilidade.
Isso exige, evidentemente, outra formação, não no sentido técnico, mas ético. Exige que o professor também tenha onde pensar o que faz, onde falar do que vive, onde escutar o que o atravessa no exercício do seu trabalho. Exige espaços onde o yoga e a meditação possam ser interrogados criticamente, onde o sofrimento dos praticantes não seja tratado como ruído, e onde o próprio professor não precise sustentar sozinho o peso da expectativa alheia.
Nesse registro, ensinar deixa de ser transmitir soluções e passa a ser sustentar processos. A prática deixa de ser anestesia e passa a ser borda. O professor deixa de ser idealizado como aquele que alcançou um estado e passa a ser alguém que trabalha a partir de uma experiência implicada, atravessada por limites, dúvidas e impasses.
Talvez seja justamente aí que o yoga e a meditação recuperem algo de sua força original: não como promessa de plenitude, mas como práticas que tornam o mal-estar pensável, compartilhável e, em alguma medida, habitável. Não porque eliminam o não-saber, mas porque operam a partir dele.
E talvez seja esse o ponto mais difícil de sustentar hoje: aceitar que ninguém sabe, e que, mesmo assim, algo se transmite.
Linhas-de-Fuga (im)Possíveis podem surgir do não-saber como meio
É a partir dessa constatação, e não de um ideal de aperfeiçoamento, que percebo a necessidade de revisitar as tradições de yoga/meditação e seus conceitos mais caros como o de “parampara” (परम्परा paramparā), que significa literalmente “uma sequência ou sucessão ininterrupta” — isto é, algo que passa de forma contínua de um para outro sem interrupção. Mas também, um método tradicional de educação e preservação de ensinamentos espirituais, artísticos e educacionais — insisto, não como formação técnica adicional, entrementes, yogar/meditar (e demais terapêuticas holistas e suas clínicas) sustentação de quem sustenta.
Proponho aqui uma organização yoguica/meditativa de quem as opera em grupos e individualmente como terapêuticas, em três frentes indissociáveis: (1) desenvolvimento de um senso crítico pelo estudo teórico (ou práxico), encontros coletivos com outros professores de yoga, yogues, meditantes e terapeutas holistas para desenvolvimento da escuta ativa (de si e colegas), (2) assomadas a um maior senso de acolhimento do sofrimento (alheio e o seu próprio); e, não menos importante, (3) um processo de supervisionamento do manejo de outros em processo yogaterapêutico/meditativo e outras terapêuticas holistas/integrais, que hoje percebo sendo realizadas, muitas vezes, solitárias - o que pode se transformar bem mais interessante quando compartilhada e discutida entre pares.
A primeira frente é um Grupo de Estudos, dedicado ao desenvolvimento de um saber teórico crítico sobre yoga, meditação e espiritualidade contemporânea, sempre em diálogo com a psicanálise, a filosofia e as ciências humanas. Um espaço onde seja possível estudar não para se legitimar no mercado, mas pensar o que se faz e o lugar que se ocupa ao fazê-lo.
A segunda frente são os Grupoterapêuticos com base psicanalítica, voltados a professores, praticantes e terapeutas que lidam diariamente com a escuta do outro. Um espaço de acolhimento e elaboração da própria experiência (do yogaterapeuta ou terapeuta somático, p.e.), onde questões pessoais, profissionais e institucionais possam ser faladas, escutadas e trabalhadas coletivamente, sem idealizações e/ou respostas prontas (doutrinárias) e afastada de crenças limitantes religiosas (o que não significa ignorá-las ou deslocá-las ao lugar da "ilusão").
A terceira frente são as Supervisões Clínicas, destinadas a yogaterapeutas, terapeutas holistas e professores de meditação e de yoga que já conduzem grupos e atendimentos. Nesse espaço, casos reais serão trazidos, escutados e pensados em conjunto, sob supervisão do psicanalista, yogue e doutor em Ciência da Religião Roberto Simões, articulando clínica, prática espiritual e crítica teórica.
Essas três frentes não funcionam separadamente, mas formam um campo comum onde o não-saber deixa de ser vivenciado como falha individual e passa a ser sustentado coletivamente como ética de trabalho. Um campo onde o yoga, terapêuticas holistas e a meditação não precisam prometer o impossível, mas podem operar com responsabilidade, rigor e abertura.
Talvez seja isso que hoje se faz mais necessário: menos garantias, menos idealizações, menos desempenho espiritual — e mais espaços onde seja possível pensar, falar e sustentar o que realmente acontece quando se trabalha com o sofrimento humano.
Projeto de Supervisão Clínica para Yogaterapeutas, Terapeutas Holistas
e Professores de Yoga e Meditação
O projeto de Supervisão Clínica nasce da constatação de um impasse cada vez mais frequente no campo do yoga, da meditação e das terapias holistas: muitos profissionais já atuam com grupos e atendimentos individuais, lidam diretamente com sofrimento psíquico, crises emocionais e vínculos intensos, mas o fazem sem espaços regulares de escuta, reflexão e sustentação do seu trabalho clínico.
A supervisão não se propõe como formação técnica nem como certificação adicional e, muito menos, um curso de "formação". Trata-se de um espaço ético e clínico, onde casos reais trazidos pelos próprios supervisionados podem ser escutados, discutidos e elaborados coletivamente (pelos ouvintes), sem idealizações, sem respostas prontas ou a exigência de “dar certo”.
O foco não é ensinar protocolos de intervenção, mas pensar o lugar do profissional e sua clínica e estilo, os efeitos da prática sobre os participantes, os limites da atuação, os atravessamentos transferenciais, institucionais e subjetivos que emergem no trabalho com yoga, meditação e cuidado espiritual como terapêutica.
As supervisões são conduzidas por Roberto Simões, psicanalista, yogue e doutor em Ciência da Religião, articulando escuta psicanalítica, crítica do yoga contemporâneo e experiência prática no campo clínico e formativo.
Esse espaço é destinado a profissionais que já atuam e que reconhecem que:
o sofrimento do outro não se resolve por técnica,
o não-saber faz parte do trabalho,
e que sustentar processos exige também ser sustentado.
A supervisão integra um projeto mais amplo que, a partir de 2026, articula três frentes indissociáveis, como já expomos acima: estudo crítico, escuta grupal e supervisão clínica, oferecendo aos profissionais um campo contínuo de elaboração teórica, clínica e ética do seu trabalho. Não se trata de prometer soluções, mas de sustentar o trabalho clínico onde ele realmente acontece.
Cada grupo de supervisão é composto por até 2 supervisionando(a)s e até 10 ouvintes. Para atuar como supervisionando(a), é necessário estar em processo terapêutico (individual e/ou coletivo, com qualquer profissional) e atuar clinicamente com grupos e/ou atendimentos individuais no campo da yogaterapia ou de outras terapias holistas (com exceção da constelação familiar). Qualquer pessoa pode participar como ouvinte.




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