Filosofia do Corpo e Yoga Contemporâneo: Entre Sintoma, Sinthoma e Criação
- PhD. Roberto Simões

- 25 de set. de 2025
- 7 min de leitura
Atualizado: 5 de jan.

Introdução
O yoga, historicamente, foi concebido como prática espiritual com vistas à libertação (mokṣa) do ciclo de nascimento e morte (saṃsāra). Entretanto, no cenário contemporâneo, e em especial no Ocidente e na América Latina, observa-se uma transformação significativa dessa prática: de disciplina espiritual para técnica terapêutica e mercantilizada voltada ao alívio do estresse, à regulação da ansiedade e à promoção de um corpo produtivo e saudável. Essa mutação não é neutra; ela está imbricada em processos históricos de colonização, de biopolítica e de neoliberalismo (FOUCAULT, 1988; HAN, 2015).
Pensar o yoga como filosofia do corpo requer deslocar a análise para além da técnica: é investigar como o corpo torna-se espaço simbólico, subjetivo e político. A conjunção entre filosofia, psicanálise e crítica cultural oferece ferramentas para perceber o yoga não apenas como um corpo em movimento, mas como campo de criação e reinvenção de si.
Este ensaio propõe examinar quatro eixos principais:
A genealogia moderna do corpo e sua captura pelas formas de poder;
A perspectiva espinosista de corpo como potência e ideia, com destaque para os afetos e sua influência na subjetividade contemporânea;
As tensões do yoga atual entre mercantilização e busca de singularidade;
A proposta do sinthoma como alternativa ética e estética para uma vida yogue sem medo nem esperança.
1. Filosofias Contemporâneas do Corpo e a Captura Biopolítica
Desde Merleau-Ponty (2011), que concebeu o corpo não como objeto ou máquina, mas como lugar de revelação do mundo, até autores como Butler (2018) e Nancy (2000), há uma tendência filosófica de recusar a dicotomia mente-corpo e de entender corpo como tecido de linguagem, percepção e política.
Michel Foucault, em Vigiar e punir, introduz o conceito de biopoder, definindo-o como conjunto de técnicas e práticas voltadas a gerir populações, disciplinar corpos, regular saúde, sexualidade e normas de vida cotidiana (FOUCAULT, 1988). Não se trata apenas de coerção, mas de normalização: o corpo saudável, o corpo útil, o corpo produtivo tornam-se padrões internos de regulação. Talvez seja Foucault quem mais profundamente analisou a relação entre corpo e poder. Para ele, a modernidade instituiu formas de biopoder: estratégias políticas que visam governar populações através do controle minucioso dos corpos. Nas academias, hospitais, prisões e escolas, os corpos são medidos, treinados, corrigidos. O yoga, nesse contexto, pode ser tanto ferramenta de resistência quanto de docilização.
Byung-Chul Han atualiza essa análise com a ideia de sociedade do desempenho, onde não há necessidade de um poder visível que vigia, porque os indivíduos internalizam exigências de produtividade, autocuidado e felicidade (HAN, 2015). Hoje, não é mais necessário um vigia externo: o indivíduo internaliza a cobrança e se explora voluntariamente, buscando ser sempre mais produtivo, saudável e feliz. O corpo, então, torna-se projeto infinito de otimização e o yoga, muitas vezes, é capturado por essa lógica, transformando-se em técnica de autoaperfeiçoamento incessante. O yoga contemporâneo muitas vezes é capturado por essa lógica, convertendo-se em regime devocional de autoprodução, corpo esteticamente “bem parecer”, imagem de flexibilidade, vigor e bem-estar.
2. Corpo, Mente e Afetos em Espinosa
Baruch de Espinosa oferece um paradigma em que mente e corpo são atributos da mesma substância; a mente é ideia do corpo, não algo distinto dele. Essa concepção rompe com o dualismo cartesiano e ressoa profundamente com a experiência do yoga, cuja prática integra respiração, pensamento e sensação (SPINOZA, 2015). Espinosa define afetos (affectus) como variações de potência: alegria quando há aumento da capacidade de agir, tristeza quando há diminuição. O desejo, ou apetite, emerge como impulso de conservar ou expandir essa potência (SPINOZA, 2015). Os afetos não são meros estados subjetivos: são indicadores da força de existir de um corpo.
Vladimir Safatle demonstra que, no presente, muitos sujeitos operam essencialmente sob dois afetos dominantes: o medo e a esperança. O medo do mal que pode vir, a expectativa de bem que virá, formam uma economia afetiva que mobiliza práticas espirituais, mercados de bem-estar, e também o yoga moderno (SAFATLE, 2016). André Martins, por sua vez, ao relacionar Espinosa e Winnicott, aponta que a prática subjetiva saudável não se dá pela supressão dos afetos, mas por uma escuta que reconheça tanto alegria quanto tristeza, permitindo que o corpo-mente responda criativamente às exigências internas e externas (MARTINS, 2009).
O yoga, então, pode ser palco dessa escuta; não apenas buscar estados de bem-estar, mas criar relações corporais e comunitárias que favoreçam a liberdade e a criação. Assim, a prática do yoga pode ser vista como espaço para a escuta e transformação dos afetos. Cada postura, respiração e gesto se torna ocasião para investigar o que aumenta ou diminui nossa potência, permitindo uma vida mais ética e potente.
3. Yoga Contemporâneo entre Mercado e Singularidade
Nas últimas décadas, o yoga tornou-se globalizado e mercantilizado: estúdios, formações, retiros, roupas e aparatos são parte de um mercado gigantesco de bem-estar. O corpo é muitas vezes reduzido ao visível, ao flexível, ao jovem, ao “fotogênico”. Essa captura neoliberal converte o corpo yogue em mercadoria.
Contudo, há práticas e professores que resistem: buscando descolonizar o yoga, adaptá-lo às realidades locais ou enfatizar vulnerabilidades corporais, limites, escuta da dor, imperfeições. Singularidade, aqui, significa resistir à padronização, permitir expressão própria do corpo. É o que venho diferenciando entre yogues sedentários e yogues nômades; enquanto sedentários buscam a segurança ou amparo no "colo e seio bom" das linhagens, tradições do yoga sul-asiático (muitas vezes "orientalizados") ou desenvolvendo um cinismo típico dos assujeitados e inscritos pela Lei do Capitalismo Neoliberal: "cada um no seu corre" sob o selo da meritocracia. Aqui, na meritocracia, os sedentários com "linhagem" e os capitalistas se encostam.
4. Sinthoma e Criação: Uma Vida Yogue sem Medo nem Esperança
Lacan concebe o sinthoma como aquilo que singulariza o sujeito — não um sintoma eliminado, mas transmutado em criação (LACAN, 2007). Ele implica uma forma única de articular os registros simbólico, real e imaginário. Pensemos em James Joyce: ele transformou seus sintomas pessoais — angústias, inquietações — em estilo literário singular. Não curou-se, mas fez de seus sintomas matéria de criação. Mas também nos sadhus, tantrikas e yogues budistas, dentre outros; estes assujeitados a lei do karma sob o selo religioso e político do Vedas criam suas próprias linhas-de-fuga aos sintomas que os atormentavam ou sinthoma. Os sadhus se transformando em "santos" (uma casta mais "pura" que a dos brâmanes), os tantrikas subvertendo o que é impuro ao Vedas em meios para a liberação ou "karma-free"; e os yogues budistas, mais radicais ainda, inventam novo ordenador de realidade para seus corpos experimentarem, um "maya" onde o Vedas e suas leis e normas, como o sistema de castas, não age.
No contexto do yoga, profissionais e alunos trazem sintomas: ansiedade, tensões físicas, distrações mentais, crises existenciais. A alternativa proposta aqui é não usar o yoga apenas para suprimir sintomas ou mostrarmos “bons exemplos” de corpos ideais, mas para transformá-los em sinthoma. É permitir que a postura, a respiração, o gesto reflitam não uma máscara idealizada, mas a marca singular do sujeito. Essa via exige recusar duas armadilhas: a esperança ilusória de uma perfeição futura prometida por linhagens, gurus ou marketing espiritual; e o medo paralizante do mal, da falha, do defeito. Em vez disso, propõe-se viver num presente radical, corpo abraçado em suas alegrias e tristezas, potências e limitações, sustentado pelo vazio, pela consciência pura (puruṣa) que observa sem se identificar.
Essa prática de yoga é então obra ética e estética: cada sintoma é matéria-prima, cada dor um gesto possível de expressão, cada falha uma via de singularidade. A alternativa é mais radical: viver sem medo e sem esperança, sustentando o vazio como fundamento. O yogue, nessa perspectiva, não busca salvação futura nem se paralisa diante do sofrimento presente. Ele pratica no aqui e agora, transformando seu sintoma em sinthoma, seu corpo em escritura viva.
Na tradição do yoga, esse vazio corresponde ao puruṣa, a consciência pura que não se identifica com os fenômenos transitórios. Na psicanálise, ele ecoa a ideia de um espaço em que o sujeito pode sustentar seu desejo sem se alienar no desejo do outro. Assim, a filosofia do corpo no yoga contemporâneo não se resume a técnicas ou tradições. Ela se realiza quando cada praticante se torna obra única, inventando um modo singular de habitar seu corpo e o mundo.
Conclusão
A filosofia do corpo no yoga contemporâneo implica uma travessia: reconhecer corpos capturados por discursos de poder, por afetos desviados, por exigências externas; escutar mente e corpo como uma unidade; transformar sintomas em sinthoma; viver sem medo nem esperança; sustentar o corpo singular no vazio presente. Essa travessia não é fácil, mas é talvez aquilo que distingue uma prática realmente filosófica de corpo: não aquela que replica modelos, mas aquela que inventa. Professores de yoga formados nesse paradigma poderão conduzir práticas que não ofereçam apenas posturas, mas espaços de criação, escuta e coragem.
Pensar o yoga como filosofia do corpo é pensar a vida como criação. É recusar tanto a colonização do corpo pelo mercado quanto a submissão cega a linhagens e tradições idealizadas. É abrir espaço para que o sintoma se transforme em sinthoma, para que a dor se transforme em gesto, para que o corpo se torne escritura viva. Essa perspectiva exige uma formação crítica de professores de yoga, capaz de integrar filosofia, psicanálise e política. Somente assim o yoga poderá se manter como prática de liberdade em um mundo que insiste em reduzir corpos a máquinas ou mercadorias.
Referências
BUTLER, Judith. Corpos em aliança e a política das ruas: notas para uma teoria performativa de assembleia. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2018.
FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: nascimento da prisão. 42. ed. Petrópolis: Vozes, 1988.
HAN, Byung-Chul. A sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes, 2015.
LACAN, Jacques. O Seminário, livro 23: O sinthoma. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2007.
MARTINS, André. Pulsão de morte?: por uma clínica psicanalítica da potência. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2009.
MERLEAU-PONTY, Maurice. Fenomenologia da percepção. São Paulo: Martins Fontes, 2011.
SAFATLE, Vladimir. O circuito dos afetos: corpos políticos, desamparo e o fim do indivíduo. São Paulo: Autêntica, 2016.
SINGLETON, Mark. Yoga Body: The Origins of Modern Posture Practice. New York: Oxford University Press, 2010.
SPINOZA, Baruch de. Ética. São Paulo: Edusp, 2015.
WHITE, David Gordon. Sinister Yogis. Chicago: University of Chicago Press, 2009.




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