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Filosofia do Corpo em Perspectivas para o Yoga Contemporâneo: um rascunho

Atualizado: há 6 dias

Introdução ao Pensamento de Espinosa: A mente como ideia do corpo

Entre as muitas revoluções filosóficas que ocorreram na modernidade, poucas foram tão radicais quanto a proposta de Baruch de Espinosa. Seu pensamento rompeu com tradições seculares que separavam corpo e mente, matéria e espírito, humano e divino. Em Ética, Espinosa (2015) desafia o dualismo cartesiano ao afirmar que existe apenas uma substância, infinita e única, que ele chama de Deus ou Natureza (Deus sive Natura).


Tudo o que existe, pensamentos, corpos, emoções, estrelas, plantas, palavras, é apenas uma modificação ou expressão dessa substância única. Em outras palavras, não há dois mundos separados, um material e outro espiritual: existe apenas um mundo, em suas infinitas variações. É nesse contexto que Espinosa formula uma ideia revolucionária: “a mente é a ideia do corpo” (Ethica, II, proposição 13). Essa frase, aparentemente simples, tem implicações profundas para a filosofia, para a psicologia e, como veremos, para o yoga contemporâneo.


1. Rompendo com o dualismo: corpo e mente como modos de uma mesma substância

No pensamento de Descartes, a mente (res cogitans) e o corpo (res extensa) são duas substâncias distintas. A mente pensa, o corpo se estende no espaço, e a relação entre elas é problemática: como algo imaterial pode mover algo material? Essa questão é conhecida como o problema mente-corpo. Espinosa dissolve esse problema ao recusar a própria separação. Para ele, mente e corpo não são coisas diferentes que interagem; são apenas duas maneiras de perceber a mesma realidade. Assim como uma moeda pode ser vista pelo lado da face ou do verso, a substância única pode ser compreendida sob o atributo do pensamento ou sob o atributo da extensão.


A ordem e a conexão das ideias é a mesma que a ordem e a conexão das coisas. (Ethica, II, proposição 7)

Isso significa que cada corpo tem sua mente correspondente, e cada mente corresponde a um corpo específico. O que chamamos de “minha mente” é, na verdade, o conjunto de ideias que expressam o que acontece no meu corpo. A mente não comanda o corpo, assim como o corpo não comanda a mente: eles são simultâneos, duas faces de um mesmo processo.


2. A mente como ideia do corpo

Quando Espinosa afirma que a mente é uma ideia do corpo, ele está dizendo que a consciência não existe isoladamente, pairando no ar ou em algum lugar transcendente. A mente é representação interna do que se passa no corpo. Ela acompanha as mudanças do corpo como um mapa acompanha o território. Por exemplo, se meu corpo se aquece, a mente percebe calor; se meu corpo se fere, a mente percebe dor. Mas não se trata apenas de percepções sensoriais. Emoções, pensamentos e memórias também têm base corporal. Um estado de ansiedade, por exemplo, não é só uma “ideia ruim”: ele corresponde a uma série de mudanças físicas, como respiração acelerada, tensão muscular, produção de hormônios, que a mente traduz em imagens, palavras e sentimentos.


Assim, não existe pensamento puro, desligado do corpo. Todo pensamento é corporal, assim como todo movimento corporal tem sua expressão mental. Espinosa, portanto, antecipa em séculos descobertas modernas da neurociência e da psicologia, que hoje falam da inseparabilidade entre cérebro, sistema nervoso, emoções e ambiente. No contexto do yoga, essa visão ressoa profundamente. Quando uma postura (āsana) é realizada, não é apenas o corpo físico que se move. Junto dele, se movem também as ideias, as emoções, os afetos. A prática corporal é, ao mesmo tempo, prática mental e espiritual, porque não existe divisão real entre essas dimensões.


3. O conhecimento como ampliação do corpo

Se a mente é ideia do corpo, o conhecimento não é um ato puramente racional. Ele envolve transformar e ampliar a potência do corpo. Espinosa descreve três gêneros de conhecimento: Opinião ou imaginação (imaginatio), baseado em percepções fragmentadas, crenças e informações confusas. Razão (ratio), baseado em ideias adequadas, que compreendem as causas das coisas. Intuição (scientia intuitiva), conhecimento direto da substância, uma compreensão imediata da unidade entre todas as coisas.


Cada estágio de conhecimento corresponde a um aumento da potência de agir. Quanto mais compreendemos a nós mesmos e ao mundo, mais capazes nos tornamos de agir de forma livre e alegre.


O corpo humano pode ser afetado de muitas maneiras, pelas quais sua potência de agir é aumentada ou diminuída. (Ethica, III, proposição 2, escólio)

No yoga, podemos ver esse processo quando a prática nos leva a sair da confusão inicial (medos, expectativas, imagens idealizadas) para uma experiência mais clara e presente (viveka). O corpo, ao ser trabalhado de forma consciente, amplia a mente; a mente, ao se aquietar, amplia o corpo. Essemovimento recíproco é a própria vida em expansão.


4. Afetos e a variação da potência

Outro conceito essencial de Espinosa é o de afetos. Afeto não é apenas emoção, mas qualquer modificação que aumente ou diminua a potência do corpo. Quando nossa potência aumenta, sentimos alegria; quando diminui, sentimos tristeza. O desejo (conatus), por sua vez, é a tendência fundamental de cada ser de perseverar e expandir sua potência. Essa teoria tem enorme relevância para o yoga contemporâneo. Muitas vezes, as pessoas chegam à prática movidas por afetos de tristeza: ansiedade, dor, frustração. A função do yoga, nesse contexto, não é simplesmente suprimir esses afetos, mas transformá-los. O que começa como sintoma pode se tornar sinthoma, na linguagem lacaniana: algo singular, criativo, que dá forma à existência.


Assim, a filosofia espinosista nos ajuda a entender que praticar yoga não é apenas corrigir um corpo defeituoso, mas cultivar uma vida mais potente e alegre, na qual mente e corpo se reconhecem como expressão de uma mesma realidade.


5. Implicações para a formação em yoga

Para professores em formação, compreender que a mente é ideia do corpo significa abandonar ilusões comuns na pedagogia do yoga. Não se trata de “controlar a mente” com a força da vontade, nem de “espiritualizar” o corpo como se ele fosse um obstáculo a ser transcendido. Pelo contrário, ensinar yoga a partir de Espinosa pode ser:


  • Reconhecer que cada gesto corporal já é pensamento.

  • Compreender que emoções, dores e dificuldades são modos do corpo que podem ser transformados.

  • Trabalhar com a potência presente, não com ideais abstratos.

  • Acolher a pluralidade dos corpos, sem impor modelos rígidos ou normalizadores.


Essa abordagem prepara o professor para um ensino ético, capaz de respeitar a singularidade de cada aluno e, ao mesmo tempo, desvelar as forças sociais e políticas que atravessam o yoga contemporâneo.


5.1. Por que pensar o corpo no yoga hoje

O yoga é, desde suas origens, uma prática voltada à transformação integral do ser humano. Tradicionalmente, ele é descrito como caminho de libertação (mokṣa), visando transcender os ciclos de nascimento e morte (saṃsāra). Mas será que isso faz sentido se não vivermos numa cultura q acredita na ordemcósmica estabelecida por um livro Vedas sagrado e imutável? No contexto atual, especialmente na modernidade tardia e em sociedades neoliberais, o yoga passa por profundas transformações. Hoje, ele é frequentemente apresentado como ferramenta terapêutica, técnica de autocuidado ou estratégia de aumento de produtividade e bem-estar (SINGLETON, 2010).


Esse deslocamento exige reflexão crítica. Quando o yoga deixa de ser apenas prática espiritual e passa a circular como mercadoria (enfeitiçada), ele se torna campo de disputa: por um lado, pode ser capturado por lógicas neocoloniais, biomédicas e capitalistas; por outro, pode ser espaço de resistência, de singularidade e de criação. Yogues não-brâmanes do sec X aEC (antes de Patanjali e seu YS) visavam o que enquanto yogues? Mokṣa (como na cultura védica sacerdotal) ou siddhis (como entre sadhus feiticeiros) com seus oráculos, encantamentos e "terapias"?


Pensar a filosofia do corpo é uma tarefa essencial para aqueles que se formam professores de yoga; e significa investigar não apenas como o corpo se move ou se alinha em posturas, mas como ele é atravessado por discursos, afetos, histórias e políticas. O corpo não é neutro: ele é tecido de experiências, campo de luta simbólica e lugar de invenção. Este encontro propõe-se a oferecer ferramentas para essa reflexão. Atravessaremos quatro grandes eixos:

  1. O corpo moderno e sua captura: como as filosofias contemporâneas pensam o corpo e como ele se torna alvo de controle biopolítico.

  2. O corpo em Espinosa: a mente como ideia do corpo, os afetos como variações de potência, e o lugar do desejo.

  3. O yoga entre mercado e singularidade: tensões entre mercantilização e resistência no yoga globalizado.

  4. O sinthoma ou “Dharma” como prática de liberdade: uma alternativa ao corpo disciplinado, convertido e/ou mercantilizado, em busca de um yoga sem medo e sem esperança.


Nosso objetivo não é fornecer respostas prontas, mas abrir perguntas e caminhos para que cada futuro professor possa construir uma prática filosófica, ética e política de ensino.


5.2. O corpo como problema filosófico

A modernidade colocou o corpo no centro de debates filosóficos. Tradicionalmente, ele foi pensado como algo separado da mente ou da alma, herança do dualismo cartesiano. René Descartes descreveu o corpo como máquina, enquanto a mente seria substância pensante. Essa visão influenciou profundamente a ciência, a medicina e as práticas corporais ocidentais, estabelecendo um paradigma mecanicista que ainda persiste. No século XX, filósofos como Maurice Merleau-Ponty propuseram uma virada fenomenológica: o corpo não é objeto, mas condição de possibilidade da experiência. Em Fenomenologia da percepção, Merleau-Ponty (2011) afirma que “não temos um corpo, nós somos um corpo”. Essa afirmação ressoa com a experiência do yoga, onde mente, respiração e gesto são inseparáveis.


Judith Butler, por sua vez, acrescenta uma dimensão política. Em Corpos em aliança (2018), ela argumenta que os corpos não existem isoladamente: são produzidos por normas sociais, políticas e de gênero. Assim, o corpo é sempre também território de resistência e transformação. Jean-Luc Nancy (2000) fala de um “corpo plural”, que não pode ser reduzido a organismo ou individualidade, mas se manifesta na relação com outros corpos, na abertura ao mundo. Essa visão dialoga com tradições como o yoga, que veem o corpo como rede de energia e interdependência. Essas perspectivas ajudam a perceber que o corpo do yogue contemporâneo não é “natural”, mas também construído por discursos de saúde, estética, espiritualidade e mercado.


5.3. Biopoder e sociedade do desempenho

Michel Foucault introduziu os conceitos de biopoder e biopolítica para descrever como, a partir do século XVIII, os Estados e instituições passaram a gerir não apenas territórios, mas a própria vida. Em Vigiar e punir (1988), p.e., ele mostra como escolas, quartéis, hospitais e prisões desenvolveram técnicas de disciplina: horários, exercícios, normas de conduta. O corpo se torna alvo de regulação: deve ser saudável, produtivo, eficiente. Essa lógica não atua apenas pela repressão, mas também pela internalização. As pessoas passam a vigiar a si mesmas, buscando adequar-se aos padrões de normalidade. Byung-Chul Han (2015) atualiza essa análise ao falar da sociedade do desempenho. Segundo ele, vivemos numa era em que não é mais necessário um poder externo que vigia: nós mesmos nos cobramos, nos exploramos, nos culpamos.


Os yogas, muitas vezes, entram nesse circuito como ferramenta de autogestão, no sentido de pensar que yogar é alongar-se para ser mais produtivo, meditar para reduzir o estresse e voltar aotrabalho. Essa captura do yoga pelo neoliberalismo não é inevitável, mas precisa ser reconhecida. Caso contrário, a prática corre o risco de reforçar a lógica que diz combater.


6. O Corpo em Espinosa: Mente, Afetos e Potência

Baruch de Espinosa de novo oferece uma visão radicalmente não-dualista. Em sua Ética (2015), ele afirma que mente e corpo são dois modos de expressão da mesma substância. A mente é a ideia do corpo. Assim, não existe mente sem corpo, nem corpo sem mente. Essa concepção tem implicações profundas para o yoga. Em vez de pensar a prática como “dominar” o corpo com a mente, trata-se de reconhecer que cada movimento, respiração e sensação já é também pensamento. O tapete de yoga, nesse sentido, é espaço de experiência integrada.


Espinosa define afetos (affectus) como variações na potência de agir. Quando nossa potência aumenta, sentimos alegria; quando diminui, sentimos tristeza. O desejo (conatus) é o impulso fundamental de perseverar no ser, buscando expandir nossa potência (SPINOZA, 2015). Insisto aqui no resgate de conceitos de Espinosa, pois Vladimir Safatle (2016) interpreta essa teoria para pensar a política contemporânea. Segundo Safatle, muitos sujeitos hoje são governados por dois afetos principais: medo e esperança. O medo do mal que pode vir (doença, fracasso, exclusão) e a esperança de um bem futuro (sucesso, cura, salvação) estruturam comportamentos individuais e coletivos. No contexto do yoga, isso se traduz em práticas movidas pela promessa: “faça yoga para eliminar a dor”, “medite para encontrar a paz”. O corpo é instrumentalizado como meio de alcançar um estado ideal. O risco é que a prática nunca se sustente no presente, mas sempre em um porvir imaginário.


André Martins (2009), por seu turno, aproxima Espinosa e Winnicott, mostrando que a saúde psíquica não está em eliminar afetos negativos, mas em sustentar a dança entre alegria e tristeza, potência e impotência como yogares desamparadores. O yoga pode ser esse palco (jam session de jazz ou roda de capoeira Angola), onde se experimenta vulnerabilidade sem submissão.


7. O Sinthoma/Dharma: Para Além do Corpo Disciplinado ou Mercantilizado

Os yogas se globalizaram nas últimas décadas numa indústria multibilionária. Estúdios, roupas, aplicativos e retiros compõem um vasto mercado de bem-estar. Essa mercantilização tem efeitos sobre a forma como o corpo é visto e treinado: flexibilidade, juventude e beleza tornam-se critérios implícitos de valor (SINGLETON, 2010). Entretanto, existem resistências em professores, yogues e suas comunidades que vêm criando práticas que desafiam o padrão dominante: abordagens inclusivas, críticas à colonização cultural, valorização de corpos não normativos. Essas experiências apontam para a singularidade: yogares que não buscam uniformizar, mas permitir que cada corpo se expresse à sua maneira. Ser professor de yoga contemporâneo hoje implica escolher reproduzir modelos ou abrir espaço para invenção.


Jacques Lacan (2007) introduz o conceito de sinthoma para descrever a forma única como cada sujeito lida com seu mal-estar. Diferente do sintoma que se quer curar, o sinthoma é algo que se transforma em criação, como fez James Joyce, que fez de sua angústia uma obra literária singular. No yoga, isso pode significar que a prática não deve buscar eliminar sintomas, como dores, inquietações, falhas, mas transformá-los em expressão. O corpo não precisa ser perfeito: ele pode ser campo de arte.


Essa visão exige recusar duas armadilhas: Esperança/Medo ilusória, a crença de que a salvação virá de uma linhagem, guru ou técnica infalível - do diferente como um inimigo; e o Cinismo Neoliberal, ou seja, ver o corpo apenas como máquina a ser otimizada para o mercado.


A alternativa é uma vida yogue sem medo e sem esperança, i.e., sustentada no vazio. Pleno pode ser aquele que reconhece o desamparo e apesar dele, segue compondo, dançando; e não o que não sofre mais. Esse vazio não é ausência portanto, mas espaço aberto de criação, aquilo que na tradição do yoga, talvez, se denomina de puruṣa: consciência pura, testemunha silenciosa. Viver assim, a partir do que expomos até aqui (um yogar na imanência) é estar plenamente no presente, não preso ao passado nem projetado no futuro. É aceitar o corpo como processo, não como projeto acabado.


Conclusão: O Yoga como Filosofia Viva do Corpo

Pensar a filosofia do corpo no yoga é reconhecer que ensinar posturas ou técnicas não basta. O professor, yogue e/ou yogaterapeuta precisa entender como cada corpo carrega histórias, normas, afetos e sintomas. É necessário olhar para o contexto social e político em que o yoga circula, para que a prática não se torne apenas ferramenta de ajuste a um sistema opressor. O desafio é duplo: resistir à captura biopolítica e criar espaços de liberdade. O yoga pode ser tanto disciplina de controle quanto campo de invenção e a escolha depende de como se pratica, ensina e transmite. Uma formação de professores deve, portanto, para escapar da captura tríade livro sagrado, guru iluminado e tradição-igreja, está em cultivar não só habilidades técnicas, mas também reflexão crítica, ética do cuidado e sensibilidade em aprender quem estamos sendo. O corpo do yoga não é máquina nem mercadoria, mas território vivo de pensamento, política e criação.


Referências

BUTLER, Judith. Corpos em aliança e a política das ruas: notas para uma teoria performativa de assembleia. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2018.

DESCARTES, René. Meditações metafísicas. São Paulo: Martins Fontes, 1996.

FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: nascimento da prisão. 42. ed. Petrópolis: Vozes, 1988.

HAN, Byung-Chul. A sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes, 2015.

LACAN, Jacques. O Seminário, livro 23: O sinthoma. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2007.

MARTINS, André. Pulsão de morte?: por uma clínica psicanalítica da potência. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2009.

MERLEAU-PONTY, Maurice. Fenomenologia da percepção. São Paulo: Martins Fontes, 2011.

NANCY, Jean-Luc. Corpus. Rio de Janeiro: Rocco, 2000.

SAFATLE, Vladimir. O circuito dos afetos: corpos políticos, desamparo e o fim do indivíduo. São Paulo: Autêntica, 2016.

SINGLETON, Mark. Yoga Body: The Origins of Modern Posture Practice. New York: Oxford University Press, 2010.

SPINOZA, Baruch de. Ética. São Paulo: Edusp, 2015.

WHITE, David Gordon. Sinister Yogis. Chicago: University of Chicago Press, 2009.

 
 
 

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