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Fracasso Proibido: Terapeutas Espirituais como gestores do sofrimento

As terapêuticas espirituais contemporâneas (como yogas e meditações, medicinas da floresta, dentre outras) ocupam hoje um lugar ambíguo. De um lado, oferecem acolhimento, linguagem simbólica, relaxamento e espaços de escuta em um mundo marcado pela aceleração, o cansaço, pelo isolamento e pelo esgotamento subjetivo. De outro, quando conduzidas sem reflexão clínica, ética ou política, podem produzir efeitos que merecem ser cuidadosamente interrogados.


Um desses efeitos (discreto e pouco discutido ainda, porém profundo), é a possibilidade de que alguns professores, 'facilitadores' e/ou terapeutas, muitas vezes por alienação (e não por má-fé, prefiro pensar), acabem conduzindo os sujeitos a uma forma de “cura” que consiste em construir em seus clientes, pacientes, alunos... um senso de não perceber aquilo que não funciona em suas vidas. Não se trata de engano consciente, tampouco de manipulação deliberada, mas de um modo de operar que privilegia a adaptação contínua em detrimento da ruptura necessária.


Nessas conduções, o sofrimento é raramente tomado como sinal de um impasse real. Ele é rapidamente traduzido em vocabulários estabilizadores: bloqueios, desalinhamentos, padrões herdados, lições a serem aprendidas. Essa tradução tem um efeito imediato de alívio, pois devolve sentido ao que parecia caótico. No entanto, quando feita de forma apressada, ela neutraliza a potência crítica do mal-estar.


O risco não está em oferecer sentido, mas em oferecê-lo cedo demais (e vindo de fora, quase sempre dele: o terapeuta-guru = aquele-que-sabe. Quando tudo se explica, pouco se pergunta. Quando tudo se harmoniza, pouco se transforma. O fracasso, a frustração e a repetição deixam de funcionar como indicadores de que algo precisa ser interrompido, descartado ou profundamente revisto. Em vez de abrir uma fenda, esse discurso terapêutico "harmonizador" fecha a experiência, surgindo os gratiluzer's.


Com isso, o sujeito aprende a suportar melhor aquilo que o desarmoniza. Relações empobrecidas, papéis excessivamente sacrificiais, exigências profissionais ou espirituais que produzem sofrimento passam a ser administradas internamente, em nome de um equilíbrio que não altera as condições que adoecem: aparece uma busca/captura eterna por uma espécie de homeostase divina (outro nome para 'plenitude moksiana'). O mal-estar deixa de operar como força de deslocamento e se converte em algo a ser regulado com mais serenidade.


O efeito produzido, insisto, não é necessariamente sofrimento maior ou expansão da consciência, mas uma forma sutil de acomodação e mais alienação ou avidya com zero de viveka. Surgem sujeitos mais resilientes, mais adaptados, capazes de permanecer em contextos limitantes desde que acompanhados de práticas que ofereçam sensação de cuidado, pertencimento e coerência simbólica: está aí montada a cama de um convertido a uma seita com seu guru e livro perfeito-em-si-mesmo. A vida segue, mas muitas vezes sem que o desejo encontre espaço para se reposicionar: uma vida indesejante ou indesejada... castrada numa linguagem mais simples.


Por isso, a questão central não é rejeitar as terapêuticas espirituais (Nova Era - do qual quase tds nós do yoga fazemos parte), mas interrogar sua ética de condução. Uma prática comprometida com o cuidado não deveria apenas ensinar a harmonizar-se com o que existe, mas também autorizar o gesto de separar-se do que não sustenta a (sua) vida: rejeitar sentimentos oceânicos por discernimentos incômodos algumas vezes. Cuidar não é apenas integrar; é, às vezes, ajudar a reconhecer que algo falhou, que algo não vai, que algo precisa ser deixado para trás: sem dar conselhos e interpretações selvagens.


Quando a terapia ou a espiritualidade favorecem essa clareza, elas abrem espaço para transformações reais (vidya). Quando, ao contrário, ajudam o sujeito a não ver aquilo que não funciona (maya), mesmo que com boas intenções, elas arriscam fechar a pergunta que poderia produzir mudança: não é Shiva (deus/a criador/a do Yoga/Meditação, uma potência de violência destrutiva? Salve Fannon. A diferença entre cuidado e adaptação não está na técnica utilizada (com ou sem linhagem, ou tradição 'ancestral'), mas na disposição de sustentar o ponto em que a harmonia não é possível; e em que, justamente por isso, algo novo pode emergir. Oxalá o que isso venha a (re)significar a quem experimente Isso.

 
 
 

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