Meditação Crítica: Descolonizando Corpo, Filosofia e Neurobiologia na Experiência Contemporânea
- PhD. Roberto Simões

- 21 de jul. de 2025
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Atualizado: 5 de jan.

Resumo
Este ensaio propõe uma reflexão crítica sobre as práticas contemporâneas de meditação, interrogando suas capturas pelo neoliberalismo e suas potências de resistência subjetiva. Partindo de uma articulação entre filosofia, neurobiologia e estudos culturais decoloniais, defende-se a necessidade de uma meditação crítica, que habite o real do sujeito para além da anestesia espiritual e da produtividade. A partir de autores como Lacan, Byung-Chul Han, Espinosa, Abhinavagupta, Varela e Viveiros de Castro, discutem-se os fundamentos filosóficos e biológicos da meditação, apontando para seu caráter político e poético no contexto atual.
Introdução
A meditação, prática milenar de aprofundamento da consciência (ou abertura de frestas ao inconsciente), tornou-se nas últimas décadas um fenômeno globalizado e multifacetado, permeando desde terapias corporais até o mercado de bem-estar. Este processo de apropriação neoliberal, como destaca Byung-Chul Han (2015), tende a transformar a meditação em uma técnica de regulação da mente/corpo exausta, subjugada à lógica da produtividade e do autocontrole. Contudo, essa dimensão dominante não esgota o potencial da meditação enquanto prática de resistência e invenção subjetiva. Este trabalho propõe a formulação de uma “meditação crítica”, que desafia a captura neoliberal e escuta o real do sujeito, abrindo espaço para o sinthoma lacaniano como elemento constitutivo da experiência meditativa.
Buscarei apresentar aqui um ensaio sobre o que pretendo como "meditação crítica", uma alternativa a meditação do desempenho neoliberal e as meditações inscritas sob o selo das "espiritualidades" com seus gurus-iluminados, teologias e instituições-igrejas/seitas a partir da psicanálise, pensamento decolonial, neurobiologia e a ciência da religião. Para além (mesmo que importantes) do ensino "correto" da tecnologia meditativa (e independente da "escola de pensamento": científica, espiritual/religiosa, filosófica ou artística) buscaremos aqui expandir o horizonte para o campo da materialidade histórica e dialética que a constitui hoje, pois enxergamos que essa perspectiva é ocultada do debate social por ideologia que aliena os seus (ou puro cinismo) da força da meditação, focando apenas nas suas formas; numa disputa por quem tem a melhor e mais eficaz das formas.
Meditação e Neoliberalismo: a captura da anestesia produtiva
A sociedade contemporânea se caracteriza, segundo Han (2015), por uma “sociedade do cansaço”, em que o sujeito neoliberal internaliza a exigência de desempenho constante. A meditação, nessa perspectiva, é convertida em ferramenta de eficiência: “respire para render” é o imperativo da atualidade - baixar o burnout, ansiedade, depressão e/ou transtornos de atenção, aqui, são indicativos importantes a serem escutados e não anestesiados. Mas por quê? Pois os sintomas quando não reelaborados, retornam (se repetindo) promovendo mais a alienação ou avidya - conceito yoguico que, lit., significa ignorância - impedindo a reelaboração do que nos adoece, reduzindo a meditação a mera técnica de arrefecimento do que nos adoece.
O sinthoma é uma invenção necessária para que o sujeito suporte sua existência na linguagem e no gozo. Ele é a forma singular de lidar com a castração, com o gozo opaco e com a impossibilidade de totalizar o sentido.
Quando meditamos para suprimir manifestações sintomáticas que nos angustiam, por mais contraditório que seja ao pensamento atual da cultura neoliberal inscrita em nossos corpos, ocorre uma anestesia da experiência subjetiva, ocultando o sofrimento e o vazio sob camadas de uma calma simulada. A meditação crítica, por sua vez, propõe o inverso: a escuta atenta do sintoma, este Real (sem nome ou signo, mas ainda assim inscrito sob nossas peles) que resiste e insiste para além do simbólico e imaginário (Lacan, 1975). Meditar, portanto (ao lado dos sonhos, atos falhos, chistes, somático), carrega consigo (desde sua ancestralidade) um habitar no furo no gozo ou sinthoma - e é assim mesmo com "h" para se diferenciar do sintoma que conhecemos como um "mal" - não para eliminá-lo, mas experimentá-lo: experimentar o sintoma no mergulho momentâneo para fora dos ordenadores de realidade (ou campo simbólico) que construímos, herdamos ou nos insere durante o processo civilizatório.
Na última fase de seu ensino, Lacan propõe o sinthoma como uma solução singular do sujeito para sustentar sua existência diante do furo no Real, um ponto de impossível simbolização, aquilo que não cessa de não se inscrever - e que associo com a experiência "transcendente" tão buscada entre meditantes, místicos, sacerdotes, feiticeiros e yogues em geral - Freud a denominou de "sentimento oceânico" em seu trabalho O Mal-Estar na Civilização.
Diferente do sintoma freudiano que pode ser interpretado e, potencialmente, dissolvido, o sinthoma lacaniano é o que nos permite viver, uma amarração (nodal) entre Real, Simbólico e Imaginário. Ele (o sinthoma) não se interpreta, ele se suporta, assim como o samadhi do yoga. Agora, o sinthoma/samadhi é o nome próprio de uma invenção (maya ou ilusão) de um certo discernimento sobre nossas travessias fantasiosas ou obtenção do poder (siddhi no yoga) de viveka. Ao invés de um meditar anestesiador dos sintomas, um meditar radical sustentador dos nossos sinthomas.
Corpo e subjetividade: uma epistemologia encarnada
A crítica da meditação funcional (construção pertencente a cultura capitalista neoliberal atual) não se reduz ao plano ideológico, mas se funda numa epistemologia do corpo e da subjetividade. A cognição, conforme Francisco Varela et al. (1991), é encarnada e situada; pensar e sentir ocorrem no corpo vivido. A meditação crítica, como alternativa possível à funcional, ao retornar ao Corpo como campo de resistência, desestabiliza discursos totalizantes e regulações externas - que foram tatuadas em nós enquanto civilizados. Suely Rolnik (2003) descreve este processo como “desfazer-se de si”, um movimento imersivo e transformador que recoloca o sujeito em contato com as suas camadas mais profundas, muitas vezes ocultas por estruturas de poder e dominação - pense numa yogue-mulher-sem casta e mãe solteira indiana do séc.IV? O que seria dela sem um yogar subversivo que iria contra a dominação e senso-comum de uma sociedade conservadora que insiste em lhe condenar ao celibato e exílio? Yogando, ela pode se transformar em "santa" ou feiticeira respeitada pela comunidade.
O desejo e/ou crença moderno no Brasil (Guatemala ou Austrália), p.e., em só ser possível (ou mais "puro") meditar se numa caverna distante da sociedade e apartada das relações sociais, políticas e econômicas, é parte desse grande aparato ideológico que me fio quando faço a distinção entre um meditar funcional e alienado - portanto, a serviço da cultura neoliberal, e do meditar crítico e de resistência, como entre alguns yogues/meditantes da Índia contra os sistemas hegemônicos que visavam manter o sistema de castas védico do século XII ou mesmo que se juntavam as trincheiras da luta armada contra a colonização britânica durante o século XIX, ao invés de tentarem mostrar que o meditar/yogar poderia se aliar ao saber do colonizador.
Há uma alternativa, de resistência e radicalismo no meditar/yogar para além do princípio de prazer atual? Um meditante que se dedique ao princípio de morte (inspirado no próprio mito fundador dos yogas, Shiva: deus da destruição que dança num círculo de fogo) de tudo o que imaginamos, transformando o Real num simbólico possível de existir? Vejamos o caso do meditar shivaísta e a filosofia de Espinosa.
Filosofia da meditação: de Espinosa ao Śivaísmo da Caxemira
O pensamento filosófico imanente (aquele que se contrapõe aos pensadores que renegam este mundo/realidade/samsara) com olhos (e corações) a um Outro mundo, oferece instrumentos para compreendermos um meditar como experimentando a imanência e diferenciação ao invés de esperando o transcendente. Espinosa (1677) propõe que tudo é expressão de uma substância única, e a consciência surge do corpo como expressão dessa unidade.
O Śivaísmo monista da Caxemira, segundo Abhinavagupta (século X), corrobora com esse pensamento (ou seu oposto, não importa), onde o Corpo como manifestação da divindade Śiva vive numa dialética entre manifestação e contração. Essas tradições valorizam o Corpo e as contrapõem às ortodoxias védicas, revelando uma genealogia crítica e subversiva da meditação que escapa às apropriações normativas. Num recente artigo, o autor Rastogi (2010) expõe a dificuldade de se fixar uma definição única de yoga no Śaivismo monista da Caxemira (KS). Tradição viva entre os séculos IX e XII, articulada por mestres como Abhinavagupta e Kshemarāja, o Trika rejeita tanto o ascetismo dualista (como de Patanjali) quanto o ritualismo mecânico (como entre os meditares cientificistas e laicos), propondo uma visão em que o yoga/meditação é o próprio reconhecimento (pratyabhijñā) da consciência como Śiva.
No coração dessa visão está o conceito de vyāpti (pervasão), a experiência em que o sujeito-meditante/yogue, ao reconhecer a natureza vibrátil da consciência, percebe-se como plenamente incluído e operante em todos os níveis do Real. Pervadir o mundo, para este yogue, é reconhecer que não há diferença entre o mundo e si-mesmo enquanto consciência, pois toda mente/consciência é só mais uma ideia do Corpo. Essa pervasão não é absorção passiva, mas agência plena (māheśvarya), autonomia criadora - não há, deste modo, fim de maya/ilusão, pois tudo é maya - o que se busca é compreender qual maya/ilusão que nos movimenta e temos acesso. Associado a isso, o Svacchanda Yoga é definido como a união com Bhairava, o aspecto de Śiva que age em liberdade radical. Trata-se de uma união não provocada por métodos técnicos, mas pelo repouso espontâneo da consciência em si mesma, uma gnose estética (como um ato poético) que se realiza mesmo no acontecimento de saborear um som, um pensamento, uma emoção.
Ao contrário do yoga de Patañjali (centrado na supressão das flutuações da mente), o Trika propõe um yoga estético: não se trata de fugir do mundo, mas de reconhecê-lo como manifestação contínua da própria consciência (Id).
Neurobiologia da meditação: entre mito e potência
A neurobiologia moderna, embora frequentemente cooptada pelo marketing da calma, pode contribuir para uma compreensão crítica da meditação. Estudos com ressonância magnética funcional indicam a redução da atividade da Default Mode Network ("modo padrão de pensamento") durante estados meditativos (Brewer et al., 2011), sugerindo uma diminuição do pensamento autorreferente e ruminação. Hartmut Rosa (2016), ao pensar a ressonância, destaca a importância do reencontro com um tempo vivo e significativo, i.e., mesmo que entre monges budistas tibetanos e freiras católicas fransciscanas, produzam uma articulação neuronal similares (as mesmas áreas encefálicas "se acedem e/ou se apagam"), uns alcançam o Vazio e elas um encontro com Jesus, gerando, deste modo, experiências com o Real (deles) absolutamente direrentes, mesmo assim, verdadeiras e atuantes em suas vidas-vividas completamente singulares.
Perceba, a neurobiologia não explica o todo da meditação: é um vocabulário que deve ser lido criticamente, respeitando a dimensão irreduzível do real subjetivo. Não é porque foi mapeado o cérebro "em meditação" e que secretamos melatonina, dopamina, serotonina, beta-endorfina e quais suas funções, que se injetando estas substâncias alguém saberá tudo sobre si e o mundo. O mundo continuará um mistério e meditantes continuarão a sentir-se em fatla e precisando de amor, colo, demandas a responder e um "seio bom" para serem humanos.
Considerações finais
No mundo acelerado e fragmentado da contemporaneidade, a meditação crítica torna-se ato de resistência política e poética. Inspirada por Walter Benjamin (1978) e Eduardo Viveiros de Castro (2002), é possível compreender a meditação como uma interrupção que permite trocar de perspectiva, habitar o mundo com olhos de outro, e recuperar uma experiência estética do corpo e do encontro. Essa prática problematiza a ideia de meditação como fuga, "cura" ou passatempo e a afirma como gesto político que desafia as normatividades do sistema vigente. Mais do que transcender samsara/realidade, meditantes críticos visam transformar realidades.
A meditação crítica emerge como uma proposta que rearticula filosofia, neurobiologia e subjetividade numa experiência de resistência contra a captura neoliberal - algo que não pode ser simplesmente uma mimetização de um passado (ancestral) sem articulação com o presente, e visando futuros impossíveis. Habitar o sinthoma, retornar ao corpo, reconhecer a potência da diferença e transformar o silêncio em ato político são movimentos fundamentais para pensar a meditação na contemporaneidade. Este ensaio convida a uma reflexão contínua e situada, que reconhece a complexidade e ambivalência dessa prática milenar e sua reinvenção presentemente.
Referências
Abhinavagupta. Tantraloka (século X).
Benjamin, Walter. (1978). Magia e Técnica, Arte e Política.
Brewer, J. A. et al. (2011). Meditation experience is associated with increased cortical thickness. NeuroReport.
Han, Byung-Chul. (2015). A Sociedade do Cansaço.
Lacan, Jacques. (1975). O Sinthoma. Seminário 23.
Mallinson, James & Singleton, Mark. (2017). Roots of Yoga.
RASTOGI, Navjivan. Yoga in the Monistic Śaiva Traditions of Kashmir. In: SINGH, Satya Prakash (ed.). History of Yoga, Vol. XVI, Part 2. Delhi: PHISPC, 2010.
Rosa, Hartmut. (2016). Ressonância.
Rolnik, Suely. (2003). Micropolítica: cartografias do desejo.
Spinoza, B. (1677). Ética.
Varela, Francisco et al. (1991). The Embodied Mind.
Viveiros de Castro, Eduardo. (2002). Metafísicas Canibais.
White, David Gordon. (2009). Sinister Yogis.




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