O Corpo.
- PhD. Roberto Simões

- 18 de nov. de 2025
- 4 min de leitura
Atualizado: 5 de jan.

O corpo sempre chega antes de qualquer teoria. Ele respira, tropeça, goza, sofre primeiro do que qualquer outra coisa. É sempre o que sabe antes e o último a ser ouvido, sobretudo em sociedades que se organizam vigiando e punindo corpos que insistem em sair da forma. E talvez seja por isso que, quando tentamos falar dele, a linguagem precise se desdobrar, torcer-se, tatear, porque o Corpo não cabe inteiro em palavra nenhuma. Ele é sempre mais: mais antigo que a fala, mais insistente que a imagem, mais teimoso que qualquer ideal que tentemos lhe impor.
E foi assim que começamos nosso percurso: entendendo que nosso Corpo não é essa peça neutra, silenciosa, obediente, que tantas pedagogias (espirituais) adoram imaginar. Os Corpos são mundos concentrados, histórias comprimidas e políticas encarnadas. Ele não está “a serviço” de nada: nem do espírito, nem da mente, nem da moral. Ele é uma força que nos atravessa por dentro e por fora, que teima em existir mesmo quando toda a cultura tenta domesticá-lo. O corpo não é um instrumento; é a própria cena.
Só que, à medida que falávamos sobre ele, algo emergia: nenhuma experiência corporal acontece no vazio. Há um pano de fundo, uma cartografia, uma língua, um povo, uma ferida. Há memórias que descem pela coluna sem que saibamos de onde vieram; dores que não pertencem só ao indivíduo, mas a gerações inteiras carregando ritmos ancestrais, mesmo quando acreditamos estar apenas “alongando”. O Corpo é sempre habitado por mais gente do que imaginamos. Ele é coletivo até naquilo que chamamos de íntimo.
Então, de repente, percebemos que não se tratava apenas de filosofar sobre o corpo, mas de reconhecê-lo como território político - no sentido mais amplo do termo. O Corpo que acorda num país colonizado não é o mesmo que desperta num palácio europeu. O corpo que dança num terreiro não é o mesmo que se curva numa sala branca de mindfulness. Há mundos diferentes vibrando em cada gesto (ou mudra). E foi preciso admitir: praticar, meditar, respirar, tudo isso tem cor, tem classe, tem história. Não existe neutralidade no corpo.
E quando pensávamos que já tínhamos caminhado bastante, entramos numa região ainda mais instável: a região em que a corporalidade não é nem “matéria bruta” nem “imagem ideal”. Ele é a costura tensa entre um resto que não se deixa dizer e um reflexo que insiste em organizar o caos. Há algo do Corpo que abre linha de fuga, que dói sem nome, que excita sem motivo, que insiste sem justificativa. Esse resto, que jamais se submete ao discurso, é o que chamamos, sem grande precisão, de inominável.
Ao mesmo tempo, desde muito cedo, nos vemos diante de uma imagem de unidade (mesmo que no dualismo em que vivemos hoje), aquela figura no espelho que parece inteira, coordenada, firme. Aquela figura que não sentimos por dentro, mas que, ainda assim, adotamos como modelo. É como se a vida nos desse, logo no início, uma promessa: “você pode ser isso aqui”. E nós acreditamos; agarramos essa promessa como quem agarra uma tábua no meio de um naufrágio. Acreditamos que somos aquela forma limpa, homogênea, elegante, sem lembrar que, por dentro, somos um amontoado de intensidades contraditórias, pulsões desalinhadas, histórias incompletas.
E assim nasce o Eu (ou ego), não como verdade profunda, mas como pacto imaginário. O Eu (essa coisa que se rostifica, por isso mesmo, é corpo também) é um tipo de máscara (rostidade) polida que vestimos para não afundar na desordem do que sentimos. Ele é necessário, claro; sem ele (esse Eu rostificado), não atravessaríamos a rua. Mas também é enganoso: promete toda uma coerência que ninguém realmente tem. Por trás do contorno firme, permanece o infrassom do corpo, as vibrações, os medos, os impulsos, as zonas de sombra que não obedecem à imagem.
Entre esse resto indomável e essa forma que nos estabiliza, surge algo decisivo: a capacidade de simbolizar. Aprender a dar nomes às coisas, mesmo as que não têm nome. Aprender a falar de si sem nunca dizer tudo e transformar experiências brutas em narrativas suportáveis - às vezes nos alienando, mas não é regra. O Corpo, nesse ponto, é o palco onde essa operação acontece: ele sente o que não tem forma e tenta elaborar o que vive mediante signos, palavras, rituais, movimentos. É no Corpo que o impossível toca a linguagem e a linguagem tenta fazer o impossível suportável.
E é justamente aí que o chão começa a tremer de novo... nos desterritorializando. Pois, quando olhamos mais de perto, vemos que esse gesto de simbolizar não é universal. Não há um único modo de transformar o sentir em sentido. Cada povo inventa sua própria gramática corporal. Cada cosmo organiza suas próprias formas de percepção ou ordenador de realidades. O que chamamos de “natureza”, outro povo pode chamar de “gente”. O que chamamos de “animal”, outro povo pode entender como um parente distante. Corpo, afinal, não apenas sente: ele abre portais de mundo.
Quando percebemos isso, algo se amplia: deixamos de pensar o Corpo como objeto e começamos a entendê-lo como perspectiva. Como um corpo se organiza, determina aquilo que vê, aquilo que reconhece como vivo, aquilo que considera comensurável. Um Corpo não é apenas músculo, nervo, ossatura, é uma maneira de existir, uma cosmologia portátil. Há Corpos que veem florestas; outros sentem territórios espirituais. Há corpos que escutam rios; outros tateiam caminhos, veias, parentescos. Corpos que se reconhecem na pele de outros seres e há os que se separam radicalmente da vida dita ordinária, se 'purificando' ao extra-ordinário.
E é nesse ponto que tudo o que estudamos converge: O corpo como território político, promessa de unidade imaginária, superfície de inscrição simbólica e/ou acesso a mundos múltiplos.
O Corpo é o lugar onde o impossível pulsa, onde a imagem tenta organizar, onde a palavra tenta acompanhar e onde o mundo se reconfigura. O Corpo é essa dobra onde o Real fere, o Imaginário seduz e o Simbólico sustenta. É a arena onde nos fazemos e desfazemos, onde as forças se encontram, onde as histórias respiram. É sempre entre, nunca concluído, nunca fechado, sempre prestes a virar outra coisa.
Talvez seja esse o ponto mais importante: o Corpo não é destino, mas processo. E é no calor desse processo que começamos, de fato, a existir.




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