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O Corpo.

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O corpo sempre chega antes de qualquer teoria. Ele respira, tropeça, goza, sofre primeiro do que qualquer outra coisa. É sempre o que sabe antes e o último a ser ouvido, sobretudo em sociedades que se organizam vigiando e punindo corpos que insistem em sair da forma. E talvez seja por isso que, quando tentamos falar dele, a linguagem precise se desdobrar, torcer-se, tatear — porque o Corpo não cabe inteiro em palavra nenhuma. Ele é sempre mais: mais antigo que a fala, mais insistente que a imagem, mais teimoso que qualquer ideal que tentemos lhe impor.


E foi assim que começamos nosso percurso: entendendo que nosso Corpo não é essa peça neutra, silenciosa, obediente, que tantas pedagogias (espirituais) adoram imaginar. Os Corpos são mundos concentrados, histórias comprimidas e políticas encarnadas. Ele não está “a serviço” de nada: nem do espírito, nem da mente, nem da moral. Ele é uma força que nos atravessa por dentro e por fora, que teima em existir mesmo quando toda a cultura tenta domesticá-lo. O corpo não é um instrumento; é a própria cena.


Só que, à medida que falávamos sobre ele, algo emergia: nenhuma experiência corporal acontece no vazio. Há um pano de fundo — uma cartografia, uma língua, um povo, uma ferida. Há memórias que descem pela coluna sem que saibamos de onde vieram; dores que não pertencem só ao indivíduo, mas a gerações inteiras carregando ritmos ancestrais, mesmo quando acreditamos estar apenas “alongando”. O Corpo é sempre habitado por mais gente do que imaginamos. Ele é coletivo até naquilo que chamamos de íntimo.


Então, de repente, percebemos que não se tratava apenas de filosofar sobre o corpo, mas de reconhecê-lo como território político - no sentido mais amplo do termo. O Corpo que acorda num país colonizado não é o mesmo que desperta num palácio europeu. O corpo que dança num terreiro não é o mesmo que se curva numa sala branca de mindfulness. Há mundos diferentes vibrando em cada gesto (ou mudra). E foi preciso admitir: praticar, meditar, respirar — tudo isso tem cor, tem classe, tem história. Não existe neutralidade no corpo.


E quando pensávamos que já tínhamos caminhado bastante, entramos numa região ainda mais instável: a região em que a corporalidade não é nem “matéria bruta” nem “imagem ideal”. Ele é a costura tensa entre um resto que não se deixa dizer e um reflexo que insiste em organizar o caos. Há algo do Corpo que abre linha de fuga — que dói sem nome, que excita sem motivo, que insiste sem justificativa. Esse resto, que jamais se submete ao discurso, é o que chamamos, sem grande precisão, de inominável.


Ao mesmo tempo, desde muito cedo, nos vemos diante de uma imagem de unidade (mesmo que no dualismo em que vivemos hoje) — aquela figura no espelho que parece inteira, coordenada, firme. Aquela figura que não sentimos por dentro, mas que, ainda assim, adotamos como modelo. É como se a vida nos desse, logo no início, uma promessa: “você pode ser isso aqui”. E nós acreditamos; agarramos essa promessa como quem agarra uma tábua no meio de um naufrágio. Acreditamos que somos aquela forma limpa, homogênea, elegante — sem lembrar que, por dentro, somos um amontoado de intensidades contraditórias, pulsões desalinhadas, histórias incompletas.


E assim nasce o Eu (ou ego) — não como verdade profunda, mas como pacto imaginário. O Eu (essa coisa que se rostifica, por isso mesmo, é corpo também) é um tipo de máscara (rostidade) polida que vestimos para não afundar na desordem do que sentimos. Ele é necessário, claro; sem ele (esse Eu rostificado), não atravessaríamos a rua. Mas também é enganoso: promete toda uma coerência que ninguém realmente tem. Por trás do contorno firme, permanece o infrassom do corpo — as vibrações, os medos, os impulsos, as zonas de sombra que não obedecem à imagem.


Entre esse resto indomável e essa forma que nos estabiliza, surge algo decisivo: a capacidade de simbolizar. Aprender a dar nomes às coisas, mesmo as que não têm nome. Aprender a falar de si sem nunca dizer tudo e transformar experiências brutas em narrativas suportáveis - às vezes nos alienando, mas não é regra. O Corpo, nesse ponto, é o palco onde essa operação acontece: ele sente o que não tem forma e tenta elaborar o que vive mediante signos, palavras, rituais, movimentos. É no Corpo que o impossível toca a linguagem e a linguagem tenta fazer o impossível suportável.


E é justamente aí que o chão começa a tremer de novo - nos desterritorializando. Pois, quando olhamos mais de perto, vemos que esse gesto de simbolizar não é universal. Não há um único modo de transformar o sentir em sentido. Cada povo inventa sua própria gramática corporal. Cada cosmo organiza suas próprias formas de percepção - ou ordenador de realidades. O que chamamos de “natureza”, outro povo pode chamar de “gente”. O que chamamos de “animal”, outro povo pode entender como um parente distante. Corpo, afinal, não apenas sente: ele abre portais de mundo.


Quando percebemos isso, algo se amplia: deixamos de pensar o Corpo como objeto e começamos a entendê-lo como perspectiva. Como um corpo se organiza, determina aquilo que vê, aquilo que reconhece como vivo, aquilo que considera comensurável. Um Corpo não é apenas músculo, nervo, ossatura — é uma maneira de existir, é uma cosmologia portátil. Há Corpos que veem florestas; outros sentem territórios espirituais. Há corpos que escutam rios; outros tateiam caminhos, veias, parentescos. Corpos que se reconhecem na pele de outros seres e há os que se separam radicalmente da vida dita ordinária, se 'purificando' ao extra-ordinário.


E é nesse ponto que tudo o que estudamos converge: O corpo como território político, promessa de unidade imaginária, superfície de inscrição simbólica e/ou acesso a mundos múltiplos.


O Corpo é o lugar onde o impossível pulsa, onde a imagem tenta organizar, onde a palavra tenta acompanhar e onde o mundo se reconfigura. O Corpo é essa dobra onde o Real fere, o Imaginário seduz e o Simbólico sustenta. É a arena onde nos fazemos e desfazemos, onde as forças se encontram, onde as histórias respiram. É sempre entre — nunca concluído, nunca fechado, sempre prestes a virar outra coisa.


Talvez seja esse o ponto mais importante: o Corpo não é destino, mas processo. E é no calor desse processo que começamos, de fato, a existir.

 
 
 

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