O meditante desamparado: entre o olhar do Outro e a liberdade sem projeto
- PhD. Roberto Simões

- 23 de nov. de 2025
- 4 min de leitura

Há um instante, tão inaugural quanto esquecido, em que o sujeito (antes indivíduo) se reconhece apenas porque alguém o olha. Antes disso, não há rosto, não há nome, não há “eu”. Há um corpo que tenta se erguer, falho, dividido, exposto... imerso no todo. A imagem que devolvem a esse corpo frágil é o contorno que o organiza, mesmo que ao preço de uma alienação definitiva: para ser alguém, é preciso caber na forma que o Outro oferece. O eu nasce, portanto, como um reflexo - não como essência, mas como adaptação, como ficção estruturada para satisfazer o desejo alheio: somos um acontecimento.
É esse o drama inaugural que a psicanálise e um yogar maduro (pode) nos ensinar: ser é sempre ser-para-o-Outro. E, ser totalmente para o Outro é perder-se: uma alienação (ou avidya). Carregar para sempre a ferida de ter nascido dependente de um olhar que legitime, certifique e garanta nosso contorno humano sujeitado ao social em que nasceu e o acolheu, ensinando-o o que é ser ali, no meio do Outro que o observa. Hamlet e Arjuna encarnam, de seus modos, esse desvelamento: quando as figuras que deveriam lhe oferecer um mundo estável desmoronam, veem-se diante da vertigem de pensar/agir por conta própria, sem aval e bancando seus desejos. O preço de ver demais, de deixar cair a venda (viveka), é suportar a sensação do desamparo que acompanha toda autonomia verdadeira.
Não é por acaso que a modernidade se constrói sobre essa ferida. O yogue/analisando-analisado e inventado é aquele capaz de improvisar respostas diante da ruína dos discursos seguros. A consciência que desperta, ao perceber a precariedade das garantias coletivas, descortina o abismo de uma pergunta impossível: quem sou eu quando ninguém me confirma? - em citta-vrtti-nirodha ou quando cesso (voluntariamente) as impressões dos outros na minha consciência?
Essa pergunta, que costuma ser abafada na vida comum, retorna com força no campo espiritual, especialmente no yoga e na meditação, mundos que, por ironia, se pretendem caminhos de autonomia, mas reproduzem frequentemente a dependência infantil do olhar do mestre, da proteção da linhagem, da segurança dos textos sagrados e aprovação comunitária de uma instituição "perfeita em si-mesma". A figura do “iluminado” opera como um grande Outro que tudo vê, tudo diz, tudo sabe. Ali, o yogue se reconhece porque o guru o reconhece. A linhagem funciona como a autoridade que o legitima. A comunidade lhe fornece um espelho identitário estável: “Aqui, você é alguém; aqui você pertence.”
Mas que tipo de liberdade pode surgir se o sujeito permanece apoiado em garantias que o protegem do vazio?
O meditante contemporâneo, agora atravessado pelas tecnologias do narcisismo digital, encontra uma versão ainda mais sedutora desse mesmo espelho. Likes, comentários e seguidores tornam-se a nova linhagem; algoritmos substituem mestres; o feed confirma a existência mais rapidamente do que qualquer mantra ancestral. Mesmo a prática dita “silenciosa” frequentemente se orienta pelo desejo de aparecer sábio, centrado, luminoso aos olhos do Outro. A meditação vira desempenho; o yoga, apresentação de si. O sujeito continua dependente, mas agora dependente de um olhar difuso, anônimo e insaciável.
O que restaria, então, de um caminho espiritual sem-linhagem?
Um yoga sem mestres infalíveis, sem heranças metafísicas, sem um projeto universal de salvação. Um meditante despido das roupas espirituais que garantem posição de “quem sou eu” - sem turbante identitário, sem títulos ou comendas, sem a proteção imagética de uma comunidade, mesmo que seja digital. Um praticante-ninguém que ouse permanecer exposto ao desamparo estrutural do existir sem modelo.
Tal figura não é romântica. É trágica. Porque essa liberdade não vem como promessa de paz. Vem como luto: o abandono das garantias simbólicas que organizavam o imaginário do pertencimento. É o reconhecimento de que não há destino cósmico traçado, não há karma que explique tudo, não há linhagem que salve, não há guru que garanta. Esse meditante/yogue é raro.
Sem esse abandono, toda meditação permanece infantilizada; todo yoga, capturado pela fantasia de proteção.
A maturidade espiritual - se quisermos chamá-la assim - começa quando o sujeito suporta que nenhum Outro o confirme, e volte a se sentir indivíduo em meditação. Quando pratica mesmo sem ser visto, aplaudido e sem fazer parte de coisa alguma, apenas da vida-vivida-na-vida-real. Quando a respiração já não é técnica nem ritual, mas gesto de sustentar a própria ausência de garantias, um corpo se desinstrumentaliza de qualquer de ideia de superação, apenas testemunha da própria vulnerabilidade.
É nesse ponto que o desamparo deixa de ser problema e se torna potência: yogue/meditante sem medo ou esperança. Porque, sem um enredo previamente determinado, o yogue não precisa corresponder a nenhum ideal. Não há “homem/mulher feito/a”, “santo realizado”, “iluminado verdadeiro”. Há apenas alguém que aceita a condição de construtor sempre provisório de si, este que não sabe quem é, e que, justamente por isso, está vivo-liberto.
Kaivalya, nirvana, samadhi deixam de ser metas transcendentes e passam a ser nomes possíveis para esse acontecimento: a queda do Outro como garantia e, com ela, a emergência de um sujeito que não precisa mais ser alguém para ninguém. A liberdade aqui não é triunfo espiritual, mas a lucidez de viver sem esperanças e sem medos - não por indiferença, mas por contato radical com a própria contingência.
Um meditante desamparado não é solitário. Ele apenas recusa a tutela simbólica que o infantiliza. Ele se relaciona, ama, trabalha, sofre sem buscar no olhar alheio a confirmação do que deve ser, pois sabe que a única coisa que realmente o constitui é a coragem de não se apoiar em nada.
O resto - títulos, linhagens, gurus, tradições - são apenas sombras projetadas para acalmar o terror do espelho (purusa). O meditante/analisando que já atravessou esse terror sabe que o único rosto verdadeiro é aquele que aparece quando o espelho, finalmente, é só um espelho.




Comentários