top of page

O mestre, o discípulo e o não-saber: Lacan, Bion e as ressonâncias espirituais

Atualizado: 5 de jan.


Resumo. O ensaio reconstrói a questão do vínculo mestre-discípulo a partir das categorias lacanianas (sujet supposé savoir, objet petit a, não-saber) e da técnica clínica de Wilfred Bion (a sessão iniciada “sem memória, sem desejo, sem compreensão”), e investiga as convergências e desdobramentos dessas formulações no campo da transmissão encarnada (professores de yoga, mestres espirituais, terapeutas). Realiza-se uma explicitação do objet petit a “do zero”, discute-se a genealogia teórica de Lacan e a técnica bioniana, e traçam-se paralelos históricos com Sócrates, Buda, J. Krishnamurti e Alan Watts. O texto termina com implicações pedagógicas e protocolos práticos para evitar a captura transferencial e promover uma transmissão ética.

Palavras-chave: mestre; discípulo; não-saber; Lacan; objet petit a; Bion; Krishnamurti; pedagogia do controle.


1. Introdução: por que perguntar sobre mestres hoje?

A prática do ensino, seja de yoga, meditação, canto, artes marciais ou clínica, contém em seu núcleo uma contradição: por um lado, a transmissão exige autoridade (alguma experiência há de ser passada); por outro, toda autoridade carrega o risco real de captura afetiva, moral e institucional. Quando a transmissão toca o que é inominável (experiências-limite, estados de êxtase, efeitos corporais que escapam à linguagem), o problema torna-se particularmente agudo: o que é transmitido não é um conteúdo técnico isolável, mas uma forma de presença, um modo de colocar o corpo-outro em relação consigo mesmo.


A aula/ensaio que aqui se amplia quer deslocar a pergunta: mais do que “ter mestres ou não?”, interessa-nos pensar qual tipo de mestre e/ou posição ética, técnica e institucional o mestre ocupa, como essa posição pode ser formulada para reduzir a pedagogia do controle e aumentar a responsabilidade subjetiva dos discípulos. Para tal deslocamento servimo-nos de duas tradições teóricas convergentes: a reformulação lacaniana da transferência e do desejo (com os conceitos de sujet supposé savoir e objet petit a) e a radicalização técnica bioniana da escuta (“sem memória, sem desejo, sem compreensão”). Em seguida, examinamos ressonâncias no campo espiritual (Sócrates, Buda, Krishnamurti e Alan Watts) para captar formas não-ocidentais/atlânticas de lidar com a autoridade do mestre.


2. Lacan: genealogia, técnica e a invenção do não-saber clínico

2.1 Trajeto intelectual (breve): de Freud às matrizes filosóficas

Jacques Lacan reconstrói Freud à luz de leituras linguísticas, fenomenológicas e hegelianas; sobe às suas próprias formulações por intermédio de uma leitura intensa de Freud, de Sócrates (ironia), de Hegel (dialética do desejo) e de referências fenomenológicas/ontológicas que ajudam a situar o sujeito como um efeito da linguagem e da falta. Em seu projeto, o inconsciente é estruturado como linguagem, e o laço analítico funda-se numa suposição discursiva, não numa transmissão de conteúdo cognitivo, mas numa operação simbólica que mobiliza a suposição de saber do Outro. (Ver seminários sobre transferência e os quatro conceitos fundamentais).


2.2 O sujet supposé savoir (sujeito suposto saber): o nó da transferência

De modo sucinto: a transferência instala-se porque o sujeito (analisante, discípulo) supõe no Outro (analista, mestre) a posse de um saber sobre seu desejo. Lacan formaliza isso como sujet supposé savoir (SSS). Clinicamente, essa suposição é dupla: ela permite que o sujeito se vincule, confie, peça; mas também constitui a armadilha pela qual o mestre pode ser transformado em autoridade absolutizante. O gesto técnico lacaniano é, portanto, paradoxal: ao mesmo tempo que se admite a suposição (porque sem ela nada começa), o analista/mestre deve operar para desmontá-la (caso contrário, a análise vira dependência). Essa desinstalação não é gesto didático, mas operação transferencial: tornar visível que o saber não é propriedade do mestre, e assim devolver ao sujeito a responsabilidade pela sua própria fala e desejo.


2.3 O não-saber como posição ética e técnica

O “não-saber” lacaniano não significa ignorância prática; é uma tomada de posição ética: o analista atua como suporte, não como fonte. Em termos práticos, o não-saber implica deixar que o sintoma se diga sem completar, resistir ao fechamento interpretativo e usar a suposição de saber como motor (e não como garantia) da cura. Lacan situa Sócrates como figura-modelo (ironia socrática: “sei que nada sei”) e retoma a lição socrática para re-orientar a técnica analítica, trazendo o não-saber para o centro da ética clínica.


3. O objet petit a: explicação exaustiva “do zero”

3.1 O problema inicial: falta, necessidade, demanda, desejo

Para entender o objet petit a precisamos primeiro distinguir três movimentos freudianos reconfigurados por Lacan:

  1. Necessidade — o requerimento biológico (fome, sede, sexo);

  2. Demanda — o que o sujeito pede ao Outro (inclui busca por amor, reconhecimento: a demanda é sempre parcialmente simbólica);

  3. Desejo — aquilo que sobra quando a necessidade e a demanda entram na linguagem; o desejo é sempre desejo de algo mais, de uma falta que não se fecha.

O objet petit a é a resposta teórica a “o que falta?”: ele nomeia aquilo que causa o desejo, e não aquilo a que o desejo visa como satisfação plena.


3.2 Definição técnica e ontologia do a

Objeto-causa do desejo: o objet petit a é a “causa do desejo”, um resto, um excedente, algo que permanece fora da simbolização completa, um vestígio da jouissance que não se integra ao sistema simbólico. Não é um objeto empírico específico (não é “o seio” como tal), mas a função que faz certas coisas serem desejadas como substitutos de um vazio originário. O “a” é um sinal algébrico que Lacan propositalmente preserva em francês para manter seu estatuto virtual/esquemático.


3.3 Exemplos para tornar o conceito concreto

  • Amor romântico: o parceiro parece ter “algo” que preenche; esse “algo” é projeção do a, o sujeito busca um resto que não existe no outro.

  • Obceção por objetos de consumo: o objeto adquirido nunca satisfaz por completo; o consumo repete a busca pelo a.

  • Na clínica: o paciente descreve “um vazio” que o leva a repetir escolhas autodestrutivas; o analista identifica a operação fantasmática que encobre a relação com o a.


3.4 Objetos parciais e modalidades do a

Lacan toma emprestado e redesenha noções de relações objetasis para indicar as modalidades pelas quais o a aparece. Essas formas ajudam a clínica a localizar a insistência do resto: um olhar que captura, uma voz que seduz, um objeto que funciona como substituto do perdido. Importante: estas são pistas operativas, não reduções materialistas do a à coisa.


3.5 O analista como suporte do a

Na prática transferencial, o analista (ou o mestre) funciona muitas vezes como o a: ele é investido pela suposição de ser o objeto que o sujeito procura. O gesto técnico é permitir que essa investidura aconteça, porque ela produz fala e, ao mesmo tempo, conduzir o processo para que a dependência seja gradualmente desmontada. Lacan chega a afirmar que o analista “deve ser objeto” enquanto função transferencial, sabendo porém que, ao final, esse objeto deverá ser descartado pelo sujeito em formação.


4. Wilfred Bion: técnica, “O” e a regra da escuta sem memória, sem desejo, sem compreensão

4.1 Bion em poucas palavras: objetivos clínicos e terminologia chave

Bion, psicanalista britânico do século XX, desenvolve uma teoria da mente centrada na capacidade de pensar as emoções e as experiências brutas. Introduz as noções de alpha function (transformar o dado sensorial bruto em elementos pensáveis), container-contained (função de conter emocionalmente o material do sujeito) e O (a realidade radical, o incognoscível, que demanda uma resposta pensante). Para Bion, a clínica tem a ver com acolher aquilo que é originalmente não-pensado e transformá-lo em pensamento.


4.2 “Sem memória, sem desejo, sem compreensão”: origem, sentido e consequências técnicas

Bion propõe que o analista (ou o mestre escutante) deve procurar iniciar a sessão em um estado de atenção livre de pré-concepções teóricas e emotivas, “sem memória, sem desejo, sem compreensão”, expressão que sintetiza sua orientação técnica. O sentido desta regra é prático:

  • Sem memória → não deixar os episódios passados (lembranças, hipóteses prontas) ditarem a escuta presente; manter a receptividade ao novo.

  • Sem desejo → neutralizar ambições pessoais do terapeuta (curar, comprovar teoria, influenciar) que colonizam o processo; o analista não busca resultados que o satisfaçam.

  • Sem compreensão → recusar interpretações imediatas e compreensivas que fecham o material; permitir que o material se torne gradualmente pensável.


Essa máxima aparece condensada nos escritos e na recepção de Bion, e tem sido analisada em comentários recentes que a leem como uma espécie de atitude apofática: acolher o incognoscível para que ele se transforme em pensamento. A formulação é tratada explicitamente em Atenção e INterpretação e em comentários críticos subsequentes.


4.3 Relação entre Bion e Lacan — convergências e tensões

Convergência: Ambos deslocam a clínica do saber do analista para uma posição de abertura ao enunciado do sujeito; ambos vêem o clínico como suporte de algo que não pode ser preenchido pelo saber técnico. Em termos práticos, “ocupação do vazio” e “acolhimento do incognoscível” convergem.


Tensão/diferença: Lacan enuncia a clínica a partir da linguagem e da estrutura simbólica (o sujeito é um efeito da linguagem; o a é resto da simbolização); Bion trabalha com operações de pensamento e transformação de experiências emotivas brutas (função alpha, container). Há, portanto, um eixo linguístico/estrutural em Lacan e um eixo epistemológico/processual em Bion. A convergência clínica se dá no gesto prático: suspender a voz do mestre, sustentar a falta, abrir espaço para o novo.


5. Do clínico à pedagogia do corpo: implicações práticas e protocolos éticos

5.1 Risco institucional e técnica pessoal

Programas de formação (yoga, meditação, práticas corporais) frequentemente reproduzem hierarquias que tornam o corpo do professor objeto de devoção. A leitura lacaniana+bioniana orienta práticas contrárias: contratos claros, supervisão obrigatória, rotinas de devolutiva e espaços para que alunos possam questionar. Técnicas concretas: sessões supervisoras, grupos de pares para olhar a transferência, cláusulas contratuais que limitem contacto isolado sem testemunha institucional.


5.2 Exercícios técnicos para formação (ideias operativas)

  1. Treino da escuta bioniana: em pares, um fala 20’ sobre uma dificuldade enquanto o outro apenas “contém” (silêncio atento); troca e discussão sobre memórias/impulsos surgidos no ouvinte.

  2. Experimento do SSS: na formação, um formador aceita a pergunta do grupo (sujeito suposto saber) e, propositalmente, devolve perguntas ao grupo até que o grupo assuma responsabilidade sobre a resposta, exercício de desinstalação da suposição.

  3. Mapeamento do a em sala: cada participante descreve um objeto/gesto que seus alunos idealizam; análise grupal de como esse objeto funciona como resto do desejo.


5.3 Protocolos mínimos de segurança afetiva

  • Supervisão contínua e obrigatória;

  • Código ético explícito sobre relações sexuais/afetivas entre professores e alunos;

  • Espaços de denúncia e mediação externos à instituição;

  • Diversificação de referências didáticas (evitar sistema de dependência de única figura).


6. Paralelos históricos: Sócrates, Buda, Krishnamurti, Alan Watts

6.1 Sócrates: ironia e modelo do mestre que “nada sabe”

A ironia socrática (o mestre que se declara ignorante para provocar a reflexão) é um antecessor clássico do não-saber técnico. Lacan referencia Sócrates em sua leitura da transferência, usando a ironia como dispositivo que desloca o saber do professor à responsabilidade do sujeito. Essa linha evidencia que a ética do não-saber tem ancestrais filosóficos antigos, antes de se tornar técnica clínica.


6.2 Buda: o mestre que recusa respostas metafísicas

No cânone budista encontramos mestres que deliberadamente evitam responder questões metafísicas (os chamados “silêncios de Buda”), porque a transmissão aqui é prática, não dogmática. A posição apofática (negativa) do mestre buda tem afinidade funcional com a suspensão do saber: o mestre indica práticas que permitem o agente descobrir por si.


6.3 J. Krishnamurti: dissolução do trono do mestre e encontros com psicólogos/psicanalistas

Jiddu Krishnamurti (1895–1986) foi inicialmente promovido pela Sociedade Teosófica como um “Instrutor do Mundo”; em 3 de agosto de 1929, diante de milhares, ele dissolveu a Ordem da Estrela, recusando o papel de guru e afirmando que “a verdade é terra sem caminhos”. Esse gesto (e sua pedagogia subsequente, centrada na observação livre e na negação de autoridade) ressoa com a crítica lacaniana ao guru que ocupa o trono do saber. Krishnamurti manteve interlocuções com psicólogos e pensadores ocidentais, em encontros com psicanalistas nos EUA houve diálogos que aproximaram sua prática da reflexão clínica sobre dependência e autonomia.


6.4 Alan Watts: mediação do Zen e aproximação entre mestre zen e terapeuta ocidental

Alan Watts (1915–1973), importante divulgador do zen e do pensamento oriental no Ocidente, produziu obras que dialogam explicitamente com psicoterapia, notadamente Psychotherapy East and West (1961). Watts descreve o mestre zen que usa koans e silêncios para desestruturar a certeza do discípulo, prática que guarda parentesco operacional com a atitude clínica de não-dar-respostas. Seu trabalho popularizou no Ocidente a ideia de que certas tradições contemplativas “treinam” uma forma de atenção e de desapego que pode complementar psicoterapias ocidentais.


7. Discussão: convergências teóricas e políticas da proposta

  1. Técnica vs. ethos: a proposta clínica (Lacan + Bion) não é anti-técnica; antes, redefine técnica como ética do lugar ocupado pelo mestre.

  2. Suporte ≠ indiferença: ser suporte do desejo (ser a na função transferencial) não é ser indiferente ou negligente; é, ao contrário, uma técnica exigente que demanda contenção, supervisão e trabalho teórico.

  3. Política pedagógica: desfazer o trono do mestre tem consequências institucionais: formas mais democráticas de organização pedagógica, rotinas de accountability e ênfase na autonomia do aprendiz.

  4. Risco de mal-uso: discursos que glamourizam “não-saber” podem ser apropriados para justificar a inépcia; é preciso distinguir entre atitude técnica responsável e desmazelo retórico.


8. Conclusão — mestres que sustentam a falta, não que a preenchem

A proposta que sai desse cruzamento teórico é simples em sua ética e complexa em sua técnica: transformar a função do mestre de fonte de completude a dispositivo que sustenta a falta: um lugar que permite a emergência do desejo singular. Isso implica mudanças substantivas: formação que ensine a escuta sem memória/desejo/compreensão; estruturas institucionais que limitem a captura transferencial; pedagogias que valorizem a responsabilização do sujeito. Dito de outro modo: queremos mestres que estimulem a autonomia do discípulo, não mestres que a suprimam.


10. Bibliografia (formato ABNT)

BION, W. R. Attention and Interpretation. London: Tavistock Publications, 1970.

FINK, Bruce. The Lacanian Subject: Between Language and Jouissance. Princeton: Princeton University Press, 1995.

KIRSHNAMURTI, Jiddu. The First and Last Freedom. London: Victor Gollancz, 1954.

LACAN, Jacques. O Seminário, Livro 8: A Transferência (Le Transfert). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1992.

LACAN, Jacques. O Seminário, Livro 11: Os Quatro Conceitos Fundamentais da Psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.

LACAN, Jacques. Écrits. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.

WATTS, Alan. Psychotherapy East and West. New York: Pantheon Books, 1961.


 
 
 

Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação
bottom of page