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Patañjali: a construção histórica de um autor e a invenção de um yoga “clássico” no divã

Atualizado: 5 de jan.

RESUMO

Este ensaio propõe uma leitura psicanalítica da figura mítica de Patañjali - atribuído pela tradição como autor do Yoga Sūtra, texto que se tornou eixo normativo do yoga moderno. Não se trata de reconstruir uma biografia impossível, mas de explorar qual estrutura subjetiva pode ser deduzida do projeto ético-filosófico que verte no texto: um sujeito que tenta separar radicalmente consciência e corpo, puruṣa (o inomeável) e prakṛti (o material), desejo e mundo. O ensaio toma a liberdade de constituir Patañjali como personagem clínico, situando-o na economia das estruturas psicanalíticas (neurose, psicose ou perversão) e examinando como seu legado moldou o ideal do yogue brasileiro contemporâneo.


Introdução

A figura de Patañjali ocupa um lugar singular na história intelectual da Índia: é simultaneamente um nome quase vazio para a historiografia crítica e, paradoxalmente, uma presença imensa na imaginação religiosa, filosófica e pedagógica do yoga moderno. Quase todos os professores contemporâneos - especialmente no Ocidente e no Brasil - citam Patañjali como o “pai do yoga”, o “grande sistematizador”, o autor de um manual que prometeria descrever o caminho da libertação de todo sofrimento humasno. Contudo, tanto a antiguidade desse personagem quanto a própria autoria unitária dos Yoga-Sūtra são objeto de debate erudito, cujos contornos raramente atravessam o discurso popular do yoga.


Historicamente, o nome “Patañjali” aparece em diversos contextos distintos. Há o célebre gramático, autor do Mahābhāṣya, datado geralmente no século II a.C.; há o Patañjali comentador de textos ayurvédicos (medicina tradicional indiana); e há, finalmente, o Patañjali associado ao Yoga, e será este que nos interessaremos aqui.


As tradições indianas posteriores, sobretudo as medievais, tenderam a unificar essas figuras em um único sábio, atribuindo-lhe um estatuto quase sobrenatural, por vezes identificado como uma manifestação de Ananta-Śeṣa, uma serpente cósmica sobre a qual Viṣṇu (uma das divindades que compõem o vasto panteão védico ou hindu) repousa. Contudo, a pesquisa filológica contemporânea - representada por estudiosos como Phillip Maas, Edwin Bryant, James Mallinson e David Gordon White - sustenta que não há evidência suficiente para considerar o autor dos Yoga-Sūtra o mesmo que o gramático. Na ausência de dados biográficos, o Patañjali do yoga surge menos como uma pessoa histórica e mais como uma função autoral, uma personalidade que dá coesão a um corpo textual fragmentário e estratificado, mas sobretudo, na construção imaginária que sustenta o simbólco do campo social e espiritual do yogar atual.


A datação dos Yoga-Sūtra permanece aproximada; a maior parte dos especialistas situa o texto entre os séculos II e IV a.E.C., embora haja hipóteses mais antigas ou mais tardias. O que se sabe com maior segurança é que o comentário tradicionalmente atribuído a Vyāsa, o Yogabhāṣya, parece estar materialmente vinculado à composição dos próprios sūtras ou aforismos que compõem a "Bíblia do Yoga Moderno". Para alguns autores, como Maas, ambos os textos podem ter origem comum ou ter sido produzidos em proximidade temporal, talvez pelo mesmo círculo intelectual. Trata-se, portanto, menos de um “livro autoral” e mais de uma montagem teórica, resultado da sedimentação de doutrinas samkhya-yoguicas anteriores e práticas meditativas diversas presentes no contexto ascético da Índia clássica.


Mesmo assim, o imaginário moderno trata Patañjali como se fosse um legislador do interior humano, e isso não é casual. O Yoga-Sūtra apresenta um projeto moderno de ordenamento da experiência yoguica indiana, uma engenharia do mental que organiza o sofrimento, o desvio, o erro e a libertação espiritual de modo quase geométrico. O yogue ideal que emerge desse texto - disciplinado, recatado, silencioso, voltado ao controle dos impulsos, à purificação do corpo e à dissolução das flutuações psíquicas - torna-se exemplar para séculos posteriores. Na própria Índia medieval, mas sobretudo a partir dos séculos XIX e XX, quando o yoga é reinventado por reformadores hindus e por instituições transnacionais, Patañjali é retraduzido como patriarca, "cientista" da consciência, precursor da "psicologia yoguica" moderna e filósofo "universal". Muito do yoga contemporâneo - inclusive o praticado por professores brasileiros - repousa sobre essa imagem idealizada.


Assim, descrever historicamente Patañjali e sua personalidade é também analisar como a modernidade escolheu projetar sobre ele seu próprio desejo de ordem, de pureza, de técnica da interioridade e seus possíveis transtornos. É significativo que o Yoga-Sūtra seja um texto relativamente marginal na maior parte da história do yoga pré-moderno, eclipsado por tradições mais corporais, devocionais ou tântricas. Contudo, no século XX, ele é canonizado como “fundamento”, como se representasse a "essência" original do yoga, anterior à multiplicidade. Essa operação - ao mesmo tempo filológica, política e pedagógica - transforma Patañjali em um “autor clássico” no sentido ocidental do termo, algo que dificilmente corresponde ao funcionamento da autoria na Índia antiga.


Ao final, Patañjali permanece uma figura paradoxal: mítico e erudito, vazio e excessivo, histórico e intempestivo. Sua existência empírica pode ser incerta, mas seu poder simbólico é inegável. Ele ocupa o lugar do “legislador silencioso”, aquele que organiza a interioridade humana através de fórmulas concisas e austeras contidas em seu Yoga-Sutras. O que as tradições modernas chamam de “yoga clássico” é, em grande medida, uma construção retrospectiva em torno dessa imagem, como dissemos. E o que hoje consideramos o ideal de yogue disciplinado, ético, purificado e introspectivo deriva, em grande medida, de uma leitura moderna seletiva, moralizante e, por vezes, profundamente ocidentalizada de um texto cuja história é bem mais complexa.


Patañjali, portanto, não é apenas o suposto autor de um manual antigo: é um espelho onde os modernos projetaram sua fantasia de (desejante) estabilidade subjetiva e de personalidade. E talvez por isso sua sombra continue tão presente entre nós.


Hoje, praticamente todo professor de yoga brasileiro - mesmo sem saber - opera sob a sombra de Patañjali. Sua noção de “controle da mente”, sua ética de renúncia e seu ideal de pureza modulam silenciosamente tanto as fantasias espirituais quanto a moralidade comportamental do yoga contemporâneo. Escrever, deste modo, um ensaio psicanalítico sobre Patañjali não é apenas conjecturar uma estrutura subjetiva antiga, mas também lançar luz sobre o fantasma que governa as práticas modernas, o “supereu yogue” que prescreve autocontrole, pureza, virtudes morais e silêncio do corpo. É, entrementes, uma leitura clínica do próprio dispositivo yoga.


A queda que respira: fluxo narrativo de Patañjali em análise

Ele caminha. Ninguém sabe para onde, e ele também não, mas há poeira nos pés como se sempre viesse de longe, e o longe sempre fosse uma ficção. Não há começo, porque o começo é sempre atribuído depois, quando alguém insiste que a história precisa de origem. Ele caminha, isso basta. A brisa da madrugada faz pequenas dobras em sua roupa, mas ele não percebe a manhã. Ele só percebe o intervalo entre uma respiração e outra, como se cada tempo vazio fosse uma chance de liberar-se do excesso do mundo. Ele sempre quis ser isso: uma borda. Uma fresta. Um espaço mínimo onde nada toca, onde nada pressiona, onde nada exige. Um intervalo.


E é nesse intervalo que o analista aparece - não como pessoa, mas destino, como se cada dobra no tecido de sua vida o empurrasse lentamente para esse ponto onde ele teria finalmente que falar, sem sūtra, sem métrica, sem a dignidade dos olhos erguidos.


Ele chega com o gesto de quem não chega. Senta-se com o corpo que tenta não ter corpo. Respira com o peito que tenta não ser peito. Tudo nele ainda tenta manter a ilusão de que a vida é uma disciplina. De que a disciplina vence o inconsciente. De que o inconsciente, se existir, é como poeira no chão que pode ser varrida com um instrumento adequado, talvez uma palavra, talvez um mantra ou um silêncio mais decidido.


Mas nada disso acontece. Ele abre a boca e uma serpente cai.


A serpente não é necessariamente Isso (Id), mas algo entre um sopro e uma memória que não sabe se veio do ventre da mãe dele ou do mundo. Ele tentaria dizer que Isso é apenas imagem, mas imagens o assustam, porque ele sabe - sabe sem querer - que as imagens pensam. Elas o observam. E nada atormenta tanto quanto ser visto pelo que deseja expulsar. Ele tenta controlar a imagem nomeando-a: Puruṣa (ou "espelho", o imutável e que não pode ser descrito). Mas o nome não segura a queda.


O analista não diz nada. Talvez sorria. Talvez não. Mas o sorriso - se existe - não é julgamento: é acolhimento do colapso.


Nas primeiras semanas, Patañjali tenta sustentar sua própria doutrina como se fosse uma colete laranja salva-vidas no mar revolto. Repete, não em voz alta mas como vibração interna: yogaś citta-vṛtti-nirodhaḥ (ou a "diminuição voluntária das flutuações da consciência). Repete porque teme que, se parar, a mente o engolirá inteiro. E o engolir é sempre corpo demais, história demais, sangue demais, mãe demais, serpentes demais. Serpentes são quem ele sonhou ter fecundando sua mãe - seus Pais?


O ideal de pureza - esse deus pessoal - funciona como colchão entre ele e o corpo. Ele sempre teve medo dos seus corpos. Ela é escura, úmida, espessa, insistente. Seus corpos insistem desejar. Ele teme que seja mordido.


E ele quis não querer nada.


Mas desejar não querer é ainda libido que flui, e o inconsciente sabe disso. E o corpo - esse animal silencioso - sabe ainda mais. Começam a vir pequenos sonhos, sopros de memórias erráticas, nômades no deserto ou piratas nos oceados. Ele vê uma coluna de luz, reta, branca, imóvel. A luz tem textura de cerâmica, polida, quase divina. É o puruṣa. Não como ensinamento, mas como fetiche ou feitiço - estaria ele enfeitiçado? Imagina uma pureza que o protege do mundo/prakrti. Ele quer entrar nessa luz como quem perfura um templo que não tem portas. Mas o sonho torce. A luz vibra. A cerâmica racha. O estalo é insuportável: ele acorda com o peito ardendo.


Volta ao analista e diz: Não deveria fissurar. E o analista, com aquela calma que esmaga e cura ao mesmo tempo, responde apenas: Fissura o que existe só como defesa.


Isso o deixa furioso. Ele não está habituado à fúria. A violência é corpo, pensa. Ele a sente subir como uma serpente que se ergue para dominar o ar. Ele quer golpeá-la com a mente, mas ela o observa. O percebe com aquele olho demasiado vivo, atento, demasiadamente... feminino?


A serpente sabe. E ele sabe que ela sabe.


A cada sessão o corpo vai ficando mais presente, não porque ele tente, pois falha em se ausentar. Falha gloriosa, necessária e que o devolve ao que nunca quis ser: alguém situado, atravessado, marcado por sonhos, memórias, restos, erros, desejos e cortes.


Um dia ele chega mais leve, e nessa leveza há perigo. Ele diz que finalmente entendeu o silêncio. Que o silêncio é o seu reino. Que no silêncio ele reencontra o puruṣa - esse espelho vazio que reflete o mundo que tanto teme. O analista não compra a versão. Olha por um instante, e basta ser obervado para que Patañjali também perceba: está mentindo para si mesmo. O silêncio que ele cultiva não é paz; é fuga. É operação de apagamento. É o desejo de não ter desejo: a libido mais violenta de todas.


E a partir desse ponto, algo se solta. As sessões viram fluxo. Ele fala do pai-serpente, não como mito mas incômodo. Fala da mãe-água que o depositou na ânfora, e essa ânfora é como útero quebrado, mistura de nascimento e abandono. Fala das letras que o formaram, da rigidez do sūtra (aforismo) como armadura, do medo de que qualquer emoção furasse o que ele desejava ser: um texto sem corpo. Fala dos discípulos imaginários que o pediam transcendência, e de como ele temia decepcioná-los caso se revelasse humano demais.


Depois começa a rir. O riso surge como contração involuntária. Riso deslocado. Riso que não sabe de onde vem. O riso é sintoma, é rachadura. O riso é porta.


E na sessão seguinte ele traz um novo sonho. Um sonho-limite que parece escrito pela própria lógica do inconsciente: a queda do puruṣa. A queda interminável. A queda, repete, que não leva a lugar algum, pois puruṣa nunca esteve aqui ou lá. A queda que revela o fundo falso da sua própria pureza.


No sonho, ele tenta amparar a luz que desmorona, mas quanto mais toca, mais ela se desfaz. Os dedos viram serpentes. O corpo vira córrego escuro. A luz cai, e ele permanece. E é exatamente isso que o destrói e o liberta de alguma desforma.


Quando conta o sonho, ele não chora. Mas o silêncio após a narrativa tem a densidade de décadas. O analista diz apenas: Então agora você sabe que pode cair sem morrer.


Esse é o ponto de virada. Não é transcendente. Não é luminoso. Não é nirvânico. É humano, demasiadamente humano. O tipo de queda que devolve um corpo ao próprio peso, ao próprio ritmo, ao próprio gozo.


A partir daí, as práticas dele mudam. Ele ainda senta para meditar, mas não para suprimir o pensamento. Senta porque gosta da fricção entre o ar e a pele. Respira não para purificar, mas porque respirar dói e o alivia ao mesmo tempo. Observa a mente, mas não como inimiga, ela é companheira inquieta que precisa de espaço. Não tenta mais ser testemunha pura; é testemunha atravessada.


Não teme mais a serpente.


Ela volta... em sonhos, na respiração, nos lapsos sempre com o mesmo olhar. Todavia agora, a deixa passar pelo corpo como quem permite que uma sombra seja sombra. A serpente não pede redenção, exige lugar.


E quando chega o dia do fim, ninguém diz que término. Ele apenas senta, menos ereto, menos vigilante, quase indisciplinando-se. Há um cansaço bonito em seus ombros, quase alegre. Ele diz, sem anunciar nada: A testemunha não é essência. É função. E essa frase vibra como um verso/sutra inesperado.

O analista não intervém. Ele continua: A vida inteira tentei ser puro demais para ter inconsciente. Mas o silêncio… descobri que o silêncio é só intervalo. O intervalo onde o pensamento respira. Onde eu respiro. Onde a serpente, finalmente, dança.


O analista pergunta: E o puruṣa? Ele sorri com um canto da boca, um sorriso que nunca dera. Um riso que não é iluminação, mas aceitação. Caiu, diz. E eu não precisei me afundar com ele.


Há algo como paz, mas não a paz transcendental que prometem. É uma paz que tem carne. Uma paz que tem sombra e aceita estar incompleta - inplena.


Ele se levanta, não muito rápido, nem devagaringo, apenas no ritmo. O seu ritmo. Passa a mão no tecido da própria roupa como quem testa a realidade. Abre a porta. Não olha para trás. Nem precisa.


Lá fora, a tarde parece mais cheia e densa. Ele caminha de novo, mas agora não busca distância. Caminha porque tem pés. Porque o corpo pesa. Porque a serpente no ventre se move com calma.


E, pela primeira vez desde o nascimento, não tenta sustentar o mundo. Permite que o mundo o sustente. E segue, assim... impuro mesmo. Sem luz inquebrável, espinha ereta ou coração totalmente tranquilo. Segue firme com suas fissuras que o abrem as suas próprias sombras, serpenteando com a vida.


CONSIDERAÇÕES FINAIS: O FANTASMA DE PATAÑJALI NO YOGA BRASILEIRO

O yoga contemporâneo - especialmente no Brasil - tomou a prescrição de Patañjali como ideal de personalidade. O “bom yogue” se exige puro, calmo, disciplinado, controlado, benevolente, silencioso, moralmente irrepreensível. Esse modelo, que muitos tentam imitar sem crítica, é justamente o sintoma que Patañjali construiu para si. Se reproduz, assim, ainda hoje, essa fantasia de que existe uma consciência separada do corpo, um sujeito sem conflito, uma mente sem ruído: indivídiuo descolado da realidade.


Essa idealização, além de impossível, produz culpa, vergonha e sensação crônica de inadequação nos praticantes, pois ninguém encarna o mito que o próprio mito talvez tenha criado para sobreviver a si mesmo. Descrever de forma fictícia de Patañjali é, no fundo, desvelar o que o yoga moderno encobre, i.e., todo ideal de pureza é a defesa de um sujeito dividido. O yogue que tenta repetir esse ideal, sem crítica, repete não a libertação, mas a defesa obsessiva de um homem mítico que deseja calar a "mente" porque teme alguma coisa que nunca ousou dizer. A meditação, cerne de qualquer yogar maduro, exige coragem em se desnudar de suas projeções e transformar seus sintomas em material de análise de si em dialética com o mundo e não uma fuga deste, na busca por um ideal que só reforça os sintomas que, muitas vezes, são, justamente, o que lhe carregou a praticar yoga.

 
 
 

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