Quem 'sustenta' a ilusão dos Yogueterapeutas e como criar linhas-de-fuga?
- PhD. Roberto Simões

- 21 de dez. de 2025
- 4 min de leitura
Atualizado: 5 de jan.

Supervisão como gesto ético no campo do cuidado contemporâneo
Há um momento silencioso na trajetória de muitos yogaterapeutas, professores de meditação e terapeutas holísticos que raramente é nomeado. Ele surge depois da formação, depois dos certificados, depois da sensação inicial de pertencimento a uma linhagem, método ou escola. É o momento em que o profissional se vê, enfim, sozinho diante do outro.
Sozinho diante do sofrimento alheio. Sozinho diante da transferência, da idealização, da demanda. Sozinho diante dos próprios limites, afetos, fantasias e esgotamentos. É justamente aí que o campo do cuidado, tal como hoje se organiza, costuma falhar.
O desamparo pós-formação
A maioria das formações em yoga, meditação e terapias espirituais opera sob uma lógica semelhante: transmissão de técnicas, narrativas de origem, promessas de transformação e, muitas vezes, a inscrição do praticante em uma tradição apresentada como completa e suficiente. Mas o que acontece quando a formação termina?
O que resta, em muitos casos, é um vazio de sustentação. Não há espaço para elaborar impasses reais da prática. Não há lugar para pensar o fracasso, o conflito, a agressividade, o desejo, o cansaço. O profissional é empurrado a manter uma imagem, de equilíbrio, de presença, de consciência, mesmo quando sua experiência interna aponta o contrário.
Diante desse vazio, outro tripé costuma se apresentar como solução pronta e sedutora: livro sagrado, guru iluminado e a seita (formal ou informal) que legitima a devoção. Esse tripé oferece pertencimento, identidade e sentido, mas cobra um preço alto: a suspensão do pensamento crítico, a moralização da experiência e a substituição da leitura clínica por explicações doutrinais.
O risco do cuidado sem mediação
Quando o cuidado se organiza apenas a partir de textos sagrados, figuras idealizadas e comunidades que exigem fidelidade, algo se perde: a possibilidade de pensar o que acontece. Conflitos viram “ego”. Angústia vira “falta de fé”. Exaustão vira “fraqueza espiritual”. Desejo vira “desvio”. O que poderia ser elaborado torna-se pecado, falha ou ignorância. E o profissional, em vez de sustentado, passa a ser controlado por um ideal. Nosso projeto nasce como uma recusa explícita a essa lógica.
Um projeto maior: estudo, clínica e supervisão
A proposta que apresentamos não é um método alternativo, nem uma nova escola espiritual. Trata-se da construção de um campo de sustentação ética para quem atua no cuidado, organizado a partir de três dispositivos que se articulam sem se confundirem.
Os grupos de estudo oferecem teoria crítica. Não para criar adesão a uma doutrina, mas para fornecer instrumentos de leitura: do corpo, do sofrimento, do desejo, do poder, da espiritualidade e de seus atravessamentos culturais e políticos. Estudar aqui não é decorar conceitos, mas aprender a pensar melhor a prática.
Os grupos terapêuticos, em base psicanalítica, são o espaço da experiência viva. Onde o corpo fala, o conflito emerge e o sujeito pode elaborar aquilo que não se resolve com técnicas ou discursos de positividade. Eles lembram que o cuidado não é harmonização, mas trabalho com o que insiste e retorna. E é nesse campo já tensionado entre saber e experiência que se inscrevem os Grupos de Supervisão.
Supervisão: sustentar quem sustenta
A supervisão não existe para ensinar o “jeito certo” de conduzir grupos, nem para avaliar desempenho ou corrigir condutas. Ela existe para sustentar a posição de quem cuida, oferecendo um terceiro ponto onde a prática pode ser lida, interrogada e elaborada.
Nos grupos de supervisão, o foco não está no aluno, no paciente ou no grupo em si, mas na posição ocupada pelo facilitador: onde ele se implicou demais, onde se defendeu, onde tentou salvar, onde se ausentou, onde o corpo falou antes da palavra.
Ao invés de respostas prontas, a supervisão devolve perguntas. Ao invés de ideais, oferece limite. Ao invés de isolamento, produz laço entre pares que compartilham a mesma responsabilidade. Supervisionar é impedir que o cuidado vire sacrifício, messianismo ou esgotamento silencioso.
Uma alternativa ao modelo doutrinal
Diferente do tripé livro–guru–seita, este projeto não oferece identidade pronta, não promete iluminação e não exige fidelidade a uma tradição. Ele aposta em algo mais raro e mais trabalhoso: a sustentação do não-saber como condição ética do cuidado.
Aqui, o profissional não precisa acreditar mais, mas ler melhor. Não precisa se purificar, mas se implicar. Não precisa obedecer, mas responder pelo lugar que ocupa.
Trata-se de um recorte específico dentro do campo do yoga e das terapias espirituais: aquele que recusa tanto o vazio neoliberal do “cada um por si” quanto o fechamento religioso-doutrinal das seitas e linhagens idealizadas.
Um campo para quem já está em prática
Este projeto não é para iniciantes curiosos, nem para quem busca respostas rápidas. Ele se dirige a quem já atravessou formações, já conduz grupos e já percebeu que o cuidado, quando levado a sério, cobra um preço subjetivo.
A supervisão, integrada ao estudo crítico e à clínica grupal, não resolve tudo. Mas ela sustenta algo fundamental: a possibilidade de continuar cuidando sem se perder de si, sem violentar o outro e sem se refugiar em ideais. Em um campo saturado de promessas, talvez essa seja a proposta mais radical: criar um espaço onde o cuidado possa ser pensado, compartilhado e sustentado: sem livros sagrados, sem gurus iluminados e sem seitas que silenciam o conflito.
Como funciona os Grupos de Supervisão
Serão encontros quinzenais sempre as segundas das 18h30-20h. Os encontros são divididos entre os supervisionandos que trarão os casos reais de alunos-yogandos-meditantes-pacientes e os ouvintes da supervisão. Todo(a) supervisionando precisa estar em análise ou terapia pessoal (individual ou em grupo), essa é a diferença entre os ouvintes.
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