Revisitando Kundalini e Yoga
- PhD. Roberto Simões

- 11 de nov. de 2025
- 7 min de leitura
Atualizado: 5 de jan.

Resumo: O presente ensaio propõe um diálogo entre a teoria psicanalítica da pulsão, formulada por Sigmund Freud e desenvolvida por Lacan, Winnicott e Bion, e a doutrina da Kundalinī Śakti nas escrituras iogues e tântricas. A partir da leitura de Pushpankita Tiwari (2024), que interpreta o Yoga e a ascensão da Kundalinī não como adaptação social, mas como processo de libertação ontológica, analisa-se como ambos os sistemas descrevem uma energia não representável que atravessa o corpo e exige simbolização. O trabalho procura demonstrar que pulsão e Kundalinī são expressões distintas de uma mesma dinâmica vital: a desformação do eu pela potência criadora que o habita.
Palavras-chave: Psicanálise. Yoga. Kundalinī. Pulsão. Corpo.
1. Introdução
A noção de Kundalinī Śakti ocupa posição central na literatura tântrica e iogue clássica. O termo deriva de kuṇḍala (espiral, enrolamento) e designa a energia criativa adormecida na base da coluna vertebral, no Mūlādhāra cakra. Segundo o Ṣaṭ-Cakra Nirūpaṇa (v. 1-3), essa energia “permanece enrolada três vezes e meia, como uma serpente adormecida, fechando a passagem do canal central (suṣumṇā), até que seja despertada pelo poder do Yoga”. De modo convergente, o Haṭha-Yoga-Pradīpikā (III.2-3) declara:
“Dentro deste corpo estão setenta e dois mil canais; entre eles, o suṣumṇā é o mais sagrado, pois é o caminho do despertar.”
Nas interpretações modernas, Kundalinī é entendida como metáfora da ascensão da consciência. David Gordon White (1996) a descreve como “a dramatização fisiológica da experiência mística” (p. 248). James Mallinson e Mark Singleton (2017) a situam como parte da síntese entre hatha e rāja yoga no período medieval.
Pushpankita Tiwari (2024) retoma essa tradição em chave filosófico-clínica, propondo que o Yoga e a ascensão da Kundalinī constituem um modelo de aconselhamento filosófico indiano, diferente das psicoterapias ocidentais orientadas pela adaptação. Seu artigo, Revisiting Yoga and Kundalini for Understanding the Indian Way of Philosophical Counselling, publicado no African Journal of Biomedical Research, fundamenta o presente estudo.
O objetivo deste ensaio é comparar a concepção de Kundalinī Śakti em Tiwari e nas escrituras com o conceito de pulsão em Freud, explorando convergências estruturais e diferenças epistemológicas.
2. Kundalinī e a crítica à adaptação social
Tiwari (2024) observa que a psicologia moderna associa saúde mental à capacidade de adaptação funcional ao meio. O Yoga, ao contrário, busca a libertação da ignorância (avidyā) que mantém o indivíduo identificado ao corpo e aos papéis sociais. Citando o Yoga Sūtra II.3, ela relembra os cinco kleśas ignorância, egoísmo, apego, aversão e medo da morte que aprisionam a mente.
A prática de citta-vṛtti-nirodhaḥ (“cessação das flutuações mentais”, I.2) visa dissolver o ego, não fortalecê-lo.
A ascensão da Kundalinī representa, nesse sentido, um processo de desidentificação progressiva. As escrituras tântricas descrevem três “nós” (granthis) que amarram a energia: Brahma-granthi (materialidade), Viṣṇu-granthi (moral e afeto) e Rudra-granthi (intelecto e ego). Rompê-los significa libertar-se das amarras instintivas, sociais e racionais. A Kaivalya Upaniṣad (v. 23) sintetiza:
“Quando o nó do coração é cortado, todas as dúvidas se dissolvem e as ações cessam; então o ser humano torna-se livre enquanto vive.”
Para Tiwari, essa libertação não implica fuga do mundo, mas transformação ontológica: o praticante deixa de agir por medo ou desejo de reconhecimento e passa a agir por compreensão.
3. Aconselhamento filosófico e interiorização
O “aconselhamento filosófico” indiano descrito por Tiwari baseia-se em três práticas: śravaṇa (escuta), manana (reflexão) e nididhyāsana (meditação). Inspirada no Bhagavad-Gītā VI.5: “Que o homem se eleve por si mesmo, e não se rebaixe; pois o Eu é amigo e inimigo de si mesmo”, a autora interpreta a escuta e a meditação como instrumentos de autotransformação. O papel do conselheiro é análogo ao do guru: conter, sustentar e orientar o fluxo da energia interna.
Tiwari enfatiza que a Kundalinī Śakti não é metáfora mística, mas princípio psicobiológico observável nas modificações corporais e cognitivas decorrentes da prática meditativa. A ascensão da energia reflete o despertar de potencialidades latentes, cognitivas, afetivas e éticas, tornando-se, portanto, um modelo filosófico de transformação, não de ajustamento.
4. A teoria freudiana da pulsão
Freud formula o conceito de pulsão (Trieb) em As pulsões e seus destinos (1915). Ele a define como “uma medida da exigência de trabalho imposta ao psíquico em consequência de sua ligação com o corpo” (FREUD, 1915/2017, p. 121). A pulsão situa-se entre o somático e o psíquico, possuindo quatro elementos: fonte, pressão, objeto e meta. Não se confunde com instinto biológico, pois é plástica, sujeita a desvio e sublimação.
Em Além do princípio do prazer (1920), Freud introduz o dualismo entre pulsão de vida (Eros) e pulsão de morte (Tânatos), reconhecendo que há na vida uma tendência ao retorno, à repetição e ao excesso. A pulsão não visa a adaptação, mas a insistência de uma força que ultrapassa o ego.
Na clínica, o analista (psicanalista) não busca ajustar o sujeito, e sim levá-lo a confrontar-se com essa energia e a elaborá-la simbolicamente. Assim como o Yoga "dissolve" o eu ilusório, a análise desestabiliza o eu imaginário para liberar o desejo.
5. Estruturas análogas entre Kundalinī e pulsão
Kundalinī (tradição iogue) | Pulsão (Freud) |
Fonte: Mūlādhāra (base do corpo sutil) | Fonte: zona erógena (corpo pulsional) |
Pressão ascensional da energia | Pressão constante da excitação |
Ruptura dos granthis (nós) | Ruptura das defesas e recalques |
Transmutação da energia sexual em consciência | Sublimação da libido |
União com o Absoluto (Śiva) | Integração pulsional e ampliação do desejo |
A semelhança estrutural é possível de se estabelecer: ambos os sistemas descrevem movimentos de transformação da energia. A diferença é metodológica: o Yoga trabalha com práticas corporais e meditativas; a psicanálise, com a linguagem e a transferência, poderíamos resumir, mesmo que de forma didática aqui.
6. A pulsão e o despertar energético como forças criadoras
A Kundalinī Śakti, também chamada cit-śakti (“poder de consciência”), é força criadora feminina que gera e dissolve o universo. Freud descreve Eros como tendência à união e à ligação. Ambos são princípios de coesão e criação. O despertar da energia, segundo Tiwari (2024, p. 171),
“destrói padrões enrijecidos de pensamento e comportamento antes de estabelecer nova ordem interior” (tradução nossa).
Do mesmo modo, a análise, ao liberar o sujeito da repetição, provoca desorganização/desterritorialização transitória antes da reorganização psíquica.
7. Leituras contemporâneas: Lacan, Winnicott e Bion
Lacan reformula a pulsão como circuito que gira em torno de um vazio (objeto a). O gozo (jouissance) é seu excesso: satisfação que ultrapassa o princípio do prazer. A ascensão da Kundalinī pode ser lida - miticamente e/ou linguagem própria yoguica como passagem pelos diferentes modos de gozo (sensorial, afetivo, simbólico) até o toque do Real, onde o sujeito perde suas referências.
Winnicott descreve o espaço transicional como zona intermediária entre o interno e o externo, necessária para o jogo e a criação. O Yoga opera espaço análogo na meditação: um campo potencial onde o self verdadeiro pode emergir.
Bion propõe a função alfa, que transforma experiências brutas (elementos β) em pensamentos (α). A ascensão da Kundalinī representa simbolicamente essa metabolização da energia instintiva em consciência: a força vital torna-se linguagem.
8. Intersecções entre pulsão e Kundalinī
A aproximação entre pulsão e Kundalinī Śakti permite reconhecer o corpo como campo de transformação.
Ontologia comum: ambas designam forças imanentes que ligam corpo e psique. O corpo não é obstáculo à consciência, mas seu veículo.
Movimento ascensional: a travessia da energia, seja libidinal ou espiritual, exige elaboração — sublimação na psicanálise, transmutação no Yoga.
Função simbólica: em ambos os sistemas, a cura depende da capacidade de simbolizar o indizível.
Ética da desformação: tanto o analisante quanto o yogue atravessam crises de dissolução do eu. O fim não é adaptar-se, mas sustentar o excesso e criar nova forma de existência.
É lícito pensar aqui - mesmo que se necessite mais estudos em psicanálise - em Kundalinī Śakti como a imagem mítica da pulsão, uma representação poética da força inconsciente que insiste em viver. E que a pulsão, por sua vez, possa vir a ser (ao menos ao campo social e espiritual moderno do yoga) a formalização da mesma energia que o Oriente figurou como serpente ascendente.
9. Considerações finais
Ao reler o artigo de Pushpankita Tiwari à luz da psicanálise, compreende-se que o Yoga e a ascensão da Kundalinī descrevem processos de transformação que ultrapassam a lógica da adaptação. A Śakti e a pulsão são expressões complementares da potência de vida que desorganiza e recria o sujeito. Deste modo, quando analisandos em processo analítico, descrevem em suas gramáticas experiências próximas a que a autora descreve, podemos - como psicanalistas - aproximá-los de uma linguagem mítica própria.
Na travessia da análise e na meditação profunda de yogues, o corpo deixa de ser instrumento do eu para tornar-se lugar do acontecimento do real. O que se busca não é a normalidade, mas a experiência viva daquilo que insiste: energia, desejo, gozo, prāṇa, inconsciente ou purusa.
Referências bibliográficas
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WOODROFFE, John (Sir Arthur Avalon). The Serpent Power: The Secrets of Tantric and Shaktic Yoga. Madras: Ganesh & Co., 1919.
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