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Vāsanās, Vṛttis e o Encontro com o Real: Para Além do Yoga como Anestesia Espiritual*

Atualizado: 5 de jan.

Há uma ilusão muito disseminada no yoga contemporâneo: a de que uma prática bem conduzida, independentemente da linhagem, nos conduziria naturalmente a uma espécie de esvaziamento perfeito, um samādhi psicologicamente asséptico, como se bastasse atravessar algumas posturas, respirar de um certo modo e repetir um mantra para que toda a maquinaria inconsciente se dissolvesse harmoniosamente. A promessa é sempre a mesma: pratique e tudo se resolve. O sofrimento se aquieta, os vṛttis diminuem, os saṃskāras se desmancham, as vāsanās evaporam como névoa.


Mas a realidade – tanto no yoga quanto na vida, insiste, retorna, resiste. E é justamente aí que a prática costuma falhar: não no esforço físico, nem na disciplina, nem na devoção, mas no enfrentamento com aquilo que emerge quando os movimentos mais superficiais da mente diminuem. Porque a maioria das escolas modernas prepara o praticante para “acalmar” o mental, mas não para suportar o que aparece quando o mental se acalma.


Vāsanās e vṛttis: o inconsciente que respira

No vocabulário do yoga, as vṛttis são as oscilações da mente – pensamentos, emoções, flutuações que ocupam o campo consciente. Já as vāsanās são as tendências latentes, marcas profundas que residem no interior do sujeito, moldando suas reações, escolhas e destinos. São as sementes da repetição, do hábito, do retorno do mesmo.


Quando a prática é suficientemente profunda para silenciar os vṛttis, é natural que as vāsanās se tornem mais visíveis. O que muitos chamam de “vislumbre do puruṣa” é, muitas vezes, o choque de encontrar aquilo que se tentou evitar a vida inteira: o medo infantil soterrado, a gana de controle, a agressividade que nunca se assumiu, o desejo que se reprimiu sob a capa do espiritualismo moralista.


Se o yoga não prepara o praticante para lidar com isso, o encontro vira trauma, não libertação.


Pulsão de vida e de morte: o motor subterrâneo

Aquilo que o yoga chama de vāsanā, a psique conhece como tendência pulsional. Há forças que empurram o corpo para a criação, para o vínculo, para a vida; e há outras que puxam para a repetição vazia, para o colapso, para a fragmentação. Ambas coexistem. Ambas se alternam. E nenhuma prática espiritual honesta pode negá-las.


O que ocorre no yoga moderno é uma fantasia higienista: acredita-se que basta “elevar a frequência” para que o negativo desapareça. Como se a pulsão de morte fosse um defeito que pudesse ser purgado com respiração de fogo ou com um pouco de gratidão performática. Não se concebe que aquilo que destrói também estrutura, que aquilo que repete também mantém o sujeito vivo, que aquilo que sabota também protegeu um dia.


O yoga só ganha verdade quando o praticante aceita que dentro dele há ambos os polos pulsionais – que meditação não é anestesia, é contato.


O princípio de realidade: o que falta ao yogue contemporâneo

É aqui que a prática esbarra: os meditantes e yogues de hoje demonstram pouca tolerância ao princípio de realidade. Preferem permanecer na fantasia de que, se praticarem o suficiente, nunca mais sentirão raiva, medo, inveja, ciúme, agressividade, solidão. Que o corpo se tornará dócil e a mente transparente. Que a iluminação é um estado de integração perfeita, e não um modo de sustentar o conflito sem se desintegrar.


O princípio de realidade exige “jogo de cintura”, plasticidade, capacidade de suportar o limite, o outro, a falta, o acaso, o imprevisto. Exige que o yogue reconheça que o mundo não se curva ao seu tapete, que o puruṣa não é um colete à prova de realidade, que a meditação não impede o real de insistir. Praticas que não ensinam isso produzem sujeitos espiritualizados, mas frágeis, meditantes que respiram bem, mas que não sabem viver.


O impasse contemporâneo: samādhi sem elaboração

Muitos yogues encontram suas vāsanās, mas não sabem o que fazer com elas. A prática revela, mas não elabora. Mostra, mas não integra. Aproxima, mas não dá meios para compreender.


E então proliferam discursos dogmáticos:

  • “Siga os yamas e niyamas e tudo se harmoniza.”

  • “Medite e os vṛttis desaparecerão.”

  • “Quando a consciência se elevar, o sofrimento se dissolverá espontaneamente.”


São frases que produzem culpa estrutural: se o sofrimento não cessa, a falha é sua. Se o padrão retorna, você não praticou direito. Se a vāsanā insiste, é porque você não tem fé o suficiente.


Essa moralização espiritual é a forma mais sofisticada de não lidar com o inconsciente.

O que fazer com o que emerge?

O que falta ao yoga atual não é mais técnica, nem mais posturas, nem mais métodos respiratórios. Falta espaço de elaboração, acolhimento, escuta, simbolização, mas sobretudo, capacidade de sustentar junto do praticante aquilo que emerge quando os vṛttis se aquietam e as vāsanās se levantam.


A tradição – a paramparā – não se transmite mais pela letra-morta das escrituras, nem pela autoridade de gurus infalíveis ou coaches com suas fórmulas universais. Se há algo a resgatar, é a tradição como relação viva, como processo inter-humano, como laço, como espaço de fala e escuta, onde o que retorna pode finalmente ganhar nome, corpo, palavra.

Porque sem elaboração, o yoga se torna apenas um mecanismo de repetição espiritualizada, uma coreografia para fugir de si-mesmo.


Conclusão: um yoga capaz de suportar o real

Um yoga maduro não promete apagar o sofrimento. Promete outra coisa muito mais radical: ser capaz de sustentá-lo sem sucumbir. Ser capaz de acolher a pulsão de vida e de morte sem as negar, de olhar para as vāsanās que emergem e reconhecê-las como parte do campo psíquico, de transformar repetição em criação, de encontrar no princípio de realidade não um inimigo, mas um limite que estrutura e que ensina.


O que me parece se ausentar das antessalas do yogar contemporâneo não é espiritualidade, mas a coragem psíquica. E isso só flui aos que deixam de se anestesiar por práticas purificadoras e se tornam travessias de si - nascemos um nada, percorremos o vazio para alcançar coisa alguma no final, mesmo porque daqui, ninguém vai sair vivo. Entrementes, podemos aprender a nos divertir caminhando com outros.

 
 
 

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