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YOGA COM SOTAQUE BRASILEIRO

Atualizado: 5 de jan.

Há algo profundamente suspeito quando alguém afirma ensinar “o verdadeiro yoga”. A suspeita não é apenas epistemológica, é política. É de casta, de classe, de desejo. E, no Brasil, essa suspeita ganha um som específico: um r vibrando na garganta, um corpo que nunca coube no ideal védico, uma língua que nunca foi dócil às purezas de ninguém. Talvez seja isso que chamo de yoga com sotaque brasileiro: não uma adaptação superficial, mas uma subversão decolonial, um corpo que se infiltra no yoga e o reconstrói por dentro, como quem monta um terreiro nas ruínas de uma catedral.


O yoga que chega ao Brasil não entra pela porta da filosofia — entra pelo corpo cansado, pela dívida acumulada, pela ansiedade do Uber atrasado, pelo trauma colonizado, pela dor crônica de insistir em existir num país que te devolve violência como paisagem natural. O yoga não chega como sabedoria antiga, mas mercadoria contemporânea, higienizada, vendida por professores que, muitas vezes, repetem sem perceber a lógica da casta dos brāhmaṇa: “eu sei, eu purifico, eu conduzo, eu ilumino”. Mas nenhum discurso espiritualista resiste ao Brasil. O Brasil mastiga, engole e regurgita, e nesse processo produz algo novo, um híbrido irreverente, contraditório, selvagem e estranhamente eficaz. É o processo antropofágico que nunca terminou.


I. O Yoga como Ferida Aberta

No Brasil, a prática não é promessa de iluminação, é primeiro socorro emocional. Gente cansada, assustada, mulheres esmagadas pelo mito materno, homens perdidos na masculinidade tóxica, jovens ansiosos, velhos deprimidos, trabalhadores precarizados. A classe média espiritualizada procura “autoconhecimento”, pois sabe inconsciente estar mais próxima do trabalhador do que os herdeiros; a periferia procura sobrevivência psíquica. Ambas encontram, no tapete de borracha, um tipo de respiro que não está nos Vedas nem nas revistas de bem-estar. É um yoga improdutivo, frequentemente errado, praticado por corpos que não têm tempo, nem silêncio, nem chão. Mas é exatamente nesse erro que nasce o sotaque. Um yoga torto, suado, emocionalmente saturado, feito de restos, e isso não é defeito: é condição de possibilidade. Porque nada mais brasileiro que uma prática feita de restos.


II. A Ginga contra o Asceta

Toda disciplina rígida do ascetismo indiano, quando importada, chega como caricatura. A vida brasileira não tem austeridade, tem improviso. Não exige silêncio monástico, pois medita com vizinho gritando e motoboy passando na contramão. Onde encontrar gurus sentados no topo da montanha? Aqui, tem professor dando aula no intervalo do expediente, exausto, mas ainda assim tentando transmitir algo que faça sentido para seus alunos.


O corpo brasileiro não "conquista" um padmāsana, ele vive em conflito. Em vez de austeridade, produz ginga; em vez de pureza, produz sincretismo; ao invés de recolhimento, produz transe - e transa ouvindo Caetano de 72. E talvez seja a ginga, essa inteligência corporal ameríndia e afro-ameríndia, que impede o yoga de se tornar exclusiva ideologia reacionária de classe média alienada. O corpo gingado não disciplina: abre linha-de-fuga das capturas neoliberais individualistas.


III. O Sotaque É Político

Gramsci já ensinava: não existem práticas inocentes. Um yoga que fala pretoguês não pode ser o yoga que sustenta castas e gurus. Ele não pode ser servo do wellness neoliberal, nem instrumento de pacificação da classe trabalhadora. Por isso o sotaque brasileiro yoguico é também insurgente: é o yoga que sabe que o corpo é campo de batalha; é o yoga que entende que respiração não resolve miséria; é o yoga que reconhece que espiritualidade sem crítica social vira anestesia - os vejo muito mais próximos dos sadhus e shivaístas sul-asiáticos de ontem do que os de hoje.


Em vez de paz interior, o sotaque brasileiro produz clareza política. Em vez de ascetismo, verte coragem pelas ventas para enfrentar o Real. É um yoga que se recusa a virar seita, marca, franquia ou promessa de felicidade, pois trabalha com a agressividade de Fannon, e o desejo e a frustração de mulheres como Lélia, Adelaide e Nise da Silveira, não para eliminá-los, mas organizá-los com estilo.


IV. O Brasil que Assombra o Yoga

É impossível praticar yoga no Brasil sem ouvir, mesmo que em silêncio, a presença de nossas cosmologias subterrâneas. Há umbanda na respiração, benzimento nos mudrās improvisados, pajelança na relação com o corpo da floresta, catolicismo popular na devoção espontânea. Mesmo quando o professor ignora, o corpo sabe. A cobra que sobe não é só Kuṇḍalinī, é também jararacas, boiúnas e anacondas. O fogo não é só agni, é Exu acendendo caminhos. A meditação não é só sati, é estar com o santo, é incorporar presença como quem incorpora um orixá.


Não se trata de fusão superficial de religiões, mas de uma metafísica do corpo que antecede a teoria. No Brasil, yogar não se transforma em xavante ou angolano: ele se afro-amerindigeniza.


V. Clínica como Prática Corpórea: o Yoga Psicanalítico

No campo da psicanálise, o yoga com sotaque brasileiro revela algo precioso: o yoga não cura, desobstrui. Ele abre pequenas frestas onde a fala pode se reorganizar, onde o gozo pode se deslocar, onde a fantasia deixa de sufocar o sujeito. É um yoga que sabe que não há iluminação, só manejo. Não há transcendência, só transmissão: o corpo é superfície de inscrição do inconsciente purushiano. O praticante tropeça num āsana e encontra um sintoma; respira fundo e encontra o pai; relaxa e encontra o cramulhão na encruza, sempre ele, figura de gozo e desobediência.


Um yoga que aceita sua própria falha torna-se profundamente ético. E é isso que o sotaque brasileiro ensina: quanto mais falho, mais verdadeiro.


VI. A Estética da Desordem: o Brasil Reinventando o Yoga

O ideal de alinhamento perfeito, ângulo exato, pureza postural, tudo isso rui diante da estética da desordem brasileira. Aqui, ninguém alinha o quadril antes de alinhar a vida; a postura aparece no meio da bagunça, como quem monta um altar num quarto apertado. No entanto, essa desordem produz uma beleza própria: a beleza de um corpo que insiste. Yogar com sotaque brasileiro é estético não apesar do caos, mas por causa dele.


É a estética do corpo que dança, do corpo que entorta, do corpo que improvisa, do corpo que ri da própria tragédia. A estética de quem aprendeu a sobreviver com pouco e, ainda assim, inventa mundos.


VII. O Yoga que Não Pede Permissão

No fim, talvez o maior traço do sotaque brasileiro seja esse: um yoga que não pede autorização para existir. Ele não precisa validar-se na Índia, nem em Harvard, nem no Instagram iluminado. Ele fala alto, ri na hora errada, mistura referências, comete heresias conceituais, e continua respirando, porque sabe que o sagrado não está nos Vedas, mas no corpo que funciona apesar de tudo.


E, se o yoga é caminho de libertação, que libertação pode haver quando o praticante copia gestos de uma cultura que nunca foi sua? A libertação acontece justamente quando o gesto encontra outra língua, outra ferida, outro passado, quando deixa de imitar e passa a criar. É aí que o sotaque aparece: como marca, como gagueira, como erro, como assinatura.


Yoga com sotaque brasileiro é yoga que ousa ser local no mundo global. É yoga que devora, desobedece, reinventa. É yoga que sabe que a salvação nunca virá de fora — ela sempre nasce do corpo que fala com sua própria voz.

 
 
 

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