Yoga contemporâneo: prática sem promessa, transmissão sem salvação
- PhD. Roberto Simões

- 28 de dez. de 2025
- 4 min de leitura
Atualizado: 5 de jan.

O yoga contemporâneo nasce de uma promessa quebrada, ou talvez de uma promessa discretamente reformulada. Onde antes se falava de libertação, fala-se hoje de alívio. Onde havia a aposta numa ruptura com a ordem do mundo, há agora a busca por adaptação elegante a ela. O sofrimento, que outrora era lido como efeito de ignorância ontológica, de aprisionamento simbólico, de captura do desejo, passa a ser nomeado como estresse, ansiedade, trauma, disfunção do sistema nervoso. Não se trata de um simples deslocamento semântico, mas de uma mutação profunda no estatuto do yoga: de via de transformação radical, ele se converte em tecnologia de regulação do mal-estar.
Essa mutação não é acidental. O yoga moderno se organiza plenamente dentro da racionalidade neoliberal, funcionando como um dispositivo de gestão do sofrimento em sociedades exaustas. Ele não promete mais sair do mundo, mas sobreviver a ele com algum grau de conforto psíquico. Não visa romper com a lógica produtivista, mas restaurar o corpo para que ele continue funcionando. Não interroga a causa estrutural do sofrimento, mas oferece técnicas para administrá-lo individualmente. Assim, o mal-estar deixa de ser político, histórico ou social e passa a ser vivido como falha pessoal, como incapacidade subjetiva de relaxar, respirar ou “praticar direito”.
Nesse contexto, o yoga se torna um aparelho ideológico particularmente eficiente, pois opera sem coerção. Ele não impõe, seduz. Não proíbe, oferece. Não disciplina pela força, mas pelo cuidado. O corpo cansado, explorado e saturado é convidado a se autorregular; a mente fragmentada é treinada para aceitar; o conflito é reembalado como resistência interna; a revolta é (re)decodificada como desequilíbrio energético. O yoga, assim, ajuda a manter a ordem justamente onde a ordem falha, funcionando como amortecedor simbólico da violência estrutural.
Essa transformação atinge diretamente a figura do professor. O professor de yoga contemporâneo já não ocupa o lugar de transmissor de um saber perigoso ou de um corte simbólico, mas o de fornecedor de experiências terapêuticas. Ele oferece alívio, acolhimento, bem-estar, pertencimento. Torna-se uma espécie de técnico do cuidado, um gestor do sensível, frequentemente sobrecarregado por demandas clínicas para as quais não possui nem formação, nem supervisão, nem respaldo institucional. Inflado por expectativas de cura e sustentado por idealizações, esse professor acaba capturado numa posição impossível: deve ser ético sem estrutura, cuidador sem escuta clínica, mestre sem linhagem, terapeuta sem supervisão.
Nesse cenário, um dos equívocos centrais do yoga contemporâneo é a confusão sistemática entre transmissão e transferência. Aquilo que aparece como aprendizado, despertar ou expansão de consciência é, muitas vezes, efeito de transferência não lida: amor ao saber, idealização do professor, fantasia de completude, erotização da autoridade. Sem instrumentos para reconhecer e trabalhar esse fenômeno, o campo do yoga se torna fértil para abusos sutis, dependências emocionais, colapsos éticos e repetições de violência simbólica. A linguagem do amor, da luz e da gratidão frequentemente encobre o que não pode ser dito: o desejo, a agressividade, a rivalidade, o ódio, o poder.
Além disso, muitas práticas de yoga e meditação operam como defesas psíquicas altamente sofisticadas. Longe de serem caminhos diretos para a verdade do sujeito, elas podem funcionar como modos de recalque, anestesia do real, fuga do conflito ou recusa do desejo. O silêncio pode ser evitativo; a serenidade, dissociativa; o controle da respiração, uma forma refinada de domar a angústia sem a atravessar. O corpo, longe de revelar uma verdade essencial, torna-se palco de defesas, sintomas e gozos silenciosos. Ignorar isso é irresponsabilidade clínica; romantizar isso é violência simbólica.
Por isso, é fundamental recusar qualquer noção homogênea de “o yoga”. Há yogas que serviram — e ainda servem — como aparelhos de domesticação: sustentáculos da hierarquia de castas, da ordem védica, do patriarcado e da moralização do corpo e da libido. Mas há também yogas marginais, tântricos, corporais, perigosos, que buscaram tensionar a norma, profanar o sagrado, romper com a autoridade central. O erro do yoga contemporâneo não está apenas em ter se afastado da tradição, mas em ter apagado essa fratura interna, vendendo uma imagem conciliadora, pacificada e despolitizada do que sempre foi um campo de conflito.
Nesse apagamento, o corpo ocupa um lugar central. O corpo do yoga contemporâneo é frequentemente apresentado como natural, neutro, universal, curável. Mas esse corpo não existe. Todo corpo é histórico, sexuado, atravessado por classe, raça, gênero e colonialidade. O corpo não é um meio transparente para a libertação, mas o lugar onde o impasse se inscreve. Onde há gozo, há conflito; onde há prazer, há ambivalência; onde há dor, nem sempre há trauma, às vezes há verdade. Reduzir o corpo a um objeto de harmonização é recusar sua dimensão política e pulsional.
Diante disso, torna-se urgente recolocar a questão da ética. Um yoga ético não é aquele que promete cura, iluminação ou felicidade, mas aquele que reconhece seus próprios limites. O yoga não resolve o desejo, não dissolve o inconsciente, não elimina o mal-estar estrutural. No máximo, e isso já é muito, pode criar condições para que o sujeito sustente o furo sem o tamponar, para que o real não seja imediatamente recoberto por sentido, técnica ou promessa. Um yoga ético é, portanto, um yoga sem salvação.
Essa ética exige estrutura. Não gurus, mas laços coletivos. Não carisma, mas supervisão. Não identidade espiritual, mas estudo crítico. É nesse ponto que se torna inevitável a defesa de um tripé: formação teórica rigorosa, prática situada em corpos e grupos reais, e supervisão contínua dos efeitos produzidos. Sem isso, o yoga segue operando no improviso ético, reproduzindo violências que não reconhece e sustentando fantasias que não pode elaborar.
A aposta final, portanto, não é a de um yoga puro, autêntico ou reconciliado. É a de um yoga crítico, profano, encarnado, consciente de sua implicação histórica e política. Um yoga que não oferece promessa, mas trabalho. Que não produz identidades, mas perguntas. Que não pacifica o conflito, mas cria espaço para que ele seja sustentado sem colapso. Um yoga que se deixa usar contra aquilo em que o próprio yoga foi transformado.
Se o yoga ainda tem alguma potência no mundo contemporâneo, ela não está na promessa de bem-estar, mas na possibilidade de abrir fendas. Não de salvar sujeitos, mas de interromper automatismos. Não de curar o mal-estar, mas de impedir que ele seja imediatamente capturado pela lógica da adaptação. Um yoga sem garantia, sem messianismo, sem promessa, mas com responsabilidade, transmissão e risco.
Esse é o único yoga que ainda vale a pena sustentar.




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