YOGA NO REAL: DESAMPARO, CAPITALISMO E RESISTÊNCIA CULTURAL
- PhD. Roberto Simões

- 21 de set. de 2025
- 4 min de leitura
Atualizado: 5 de jan.

Resumo: Este artigo sintetiza as reflexões desenvolvidas no webinário (a)Fundamentos do Yoga no Real ministrado no mês de setembro de 2025 e disponível gratuitamente na Plataforma EAD Yoga Contemporâneo. Parte da hipótese de que o yoga contemporâneo, ao ser apropriado pelas lógicas neoliberais, opera como tecnologia de gestão dos afetos, em particular, medo e esperança, diante da condição estrutural do desamparo. Articulando contribuições da psicanálise, da filosofia política e da antropologia (Durkheim, Freud, Deleuze & Guattari, Gramsci, Viveiros de Castro e Safatle), propõe-se pensar o yoga como possível linha de fuga: prática situada, decolonial e criativa que transforme a anomia em potência coletiva. O trabalho discute ainda a distinção entre violência destrutiva e violência criadora, e defende a retomada de práticas corporais insurgentes que gestem novos sujeitos políticos.
Palavras-chave: yoga; desamparo; anomia; capitalismo; linha de fuga; decolonialidade.
1. Introdução
O objetivo deste texto é sistematizar, em formato acadêmico, o conteúdo dos quatro encontros do webinário (a)Fundamentos do Yoga no Real e situar teoricamente suas principais proposições. Parte-se da noção freudiana de desamparo para compreender por que o yoga moderno pode tanto reproduzir capturas socioculturais quanto oferecer potencial criativo. O texto busca distinguir as vias de domesticação, o yoga convertido em mercadoria e identidade (e as vias de invenção) o yoga como prática situada de resistência cultural.
2. Desamparo, medo e esperança: o círculo dos afetos
A condição humana elementar do desamparo, descrita na obra psicanalítica clássica, funda a experiência subjetiva: nascemos dependentes e seguimos estruturados por falta. No contexto contemporâneo, o medo (de adoecer, perder, falhar) e a esperança (de salvação, cura, plenitude) organizam circuitos afetivos que vinculam sujeitos a instituições e figuras de autoridade. O yoga, quando instrumentalizado para responder a esse desamparo, tende a produzir uma corporeidade dependente: o praticante busca fora o que não pode ser garantido por completo — identidade, sentido, cura definitiva. Essa dinâmica fomenta formas de despossessão afetiva e deslocamento identitário.
3. Colonialismo, modernização e a captura neoliberal do yoga
Historicamente, o processo de modernização do yoga passou por reavaliações e rearticulações durante o período colonial e a emergência das ciências humanas. Muitas práticas foram higienizadas, reformatadas e apresentadas em termos compatíveis com discursos científicos modernos, originando o yoga postural globalizado. No capitalismo neoliberal, o yoga assume funções de gestão da vida: otimização do corpo, incremento da produtividade, autoajuda. Assim, práticas corporais que poderiam constituir disrupção social muitas vezes se tornam aparatos de governamentalidade, incorporando o medo e a esperança como motores de consumo.
4. Linhas de fuga: Deleuze, Guattari e a revolução cultural (Gramsci)
A partir de Deleuze e Guattari, a noção de linha de fuga desloca a crítica para a criação: não se trata apenas de resistir ao capital, mas de inventar outros modos de existência. Complementarmente, a leitura gramsciana da transformação cultural aponta que mudanças profundas nas subjetividades acontecem, muitas vezes, por via subterrânea, em práticas cotidianas, hábitos e linguagens. Assim, o yoga pode funcionar como espaço de experimentação estética e política quando assume uma postura não-sacerdotal: o yogue-feiticeiro, em vez do yogue-sacerdote, opera por alianças, improvisos e desterritorializações, articulando saberes subalternos e produzindo repertórios de ação coletiva.
5. Anomia, violência criadora e a retomada do hatha-yoga insurgente
Durkheim concebeu a anomia como condição de desregulação normativa que produz desorientação e graves consequências sociais. Autores contemporâneos (p. ex., Safatle) argumentam que a anomia tornou-se estruturante no capitalismo tardio: a instabilidade permanente e a precarização das referências são mecanismos de governança. Nesse quadro, o yoga moderno frequentemente responde à anomia com desempenhos identitários e práticas de autogovernança que reforçam a situação: autopunições, regimes de purificação, busca de linhagens idealizadas.
Contudo, a tradição do hatha-yoga oferece outra memória: a de práticas corporais que historicamente gestaram corpos insurgentes, capazes de desestabilizar hierarquias sociais (por exemplo, ascetas de baixa casta que adquirem prestígio espiritual). A violência aqui pensada não é mera destruição; é violência criadora quando serve para romper estruturas e abrir espaço para o novo. A travessia do desamparo exige, portanto, práticas que sustentem a falta sem a recobrir por ilusões e que convertam afetos como raiva e tristeza em potência coletiva.
6. Entre não-violência, autopunição e criação política
O princípio ético da não-violência (ahimsa) ocupa lugar central no imaginário yoguico contemporâneo, e sua repetição muitas vezes funciona como sinal de uma ferida não trabalhada: a sensação de ter sido violentado por sistemas que negam possibilidade de ser. Quando a resposta à anomia reduz-se a práticas pacificadoras que evitam conflito, arrisca-se institucionalizar uma passividade política. Por outro lado, quando a energia disruptiva do corpo é redirecionada para autopunição e regimes de purificação, reproduz-se a lógica de domesticação. A saída requer equilibrar a responsabilidade ética pela vida com a disposição política de romper estruturas, produzindo, por meio do corpo e da prática coletiva, novas formas de solidariedade e ação.
7. Conclusões e perspectivas
As quatro aulas do webinário convergem para a necessidade de repensar o yoga como prática situada, decolonial e criativa. Isso implica: (a) recusar a redução do yoga a produto de bem-estar; (b) não idealizar recuperações nostálgicas de tradições; (c) recuperar a dimensão insurgente das práticas corporais; (d) construir espaços coletivos de experimentação que transformem a anomia em possibilidade criadora. A perspectiva proposta é, em última análise, política: o yoga do real não promete salvação, mas convoca à invenção contínua de formas de vida que ampliem a potência de agir e o sentido de pertencimento.
Referências
DELEUZE, G.; GUATTARI, F. Mil Platôs: capitalismo e esquizofrenia. Rio de Janeiro: Editora 34, 2011.
DURKHEIM, É. O Suicídio. São Paulo: Martins Fontes, 2010.
FOUCAULT, M. O Nascimento da Biopolítica. São Paulo: Martins Fontes, 2008.
FREUD, S. Inibições, Sintoma e Ansiedade. Rio de Janeiro: Imago, 1926.
GRAMSCI, A. Cadernos do Cárcere. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001.
SAFATLE, V. Circuito dos Afetos / Anomia e Política Contemporânea. São Paulo: Autêntica (obras selecionadas).
SINGLETON, M. Yoga Body: The Origins of Modern Posture Practice. Oxford: Oxford University Press, 2010.
SPINOZA, B. Ética. Belo Horizonte: Autêntica, 2014.
VIVEIROS DE CASTRO, E. Metafísicas Canibais. São Paulo: Cosac Naify, 2015.




Um webinario que, para mim, foi empoderador, fazendo-me ainda saltar algumas décadas nas minhas buscas nessa torre de babel que vivenciamos atualmente (anomia).