Yoga Sem-Linhagem, Mestiço e Híbrido: poder, subalternidade e política da legitimidade no campo yoguico
- PhD. Roberto Simões

- 10 de jan.
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O chamado Yoga Sem-Linhagem (YSL), com seus yogues e yogamentos mestiços e híbridos, é raramente reconhecido como yoga legítimo.
Muitos ensinamentos falsos e incompletos têm sido divulgados em seu nome… a palavra ‘Yoga’ tem sido vulgarizada e atualmente não possui significado (citação de blog sobre yoga "tradicional").
Essa recusa não se sustenta em critérios técnicos consensuais, nem em avaliações sistemáticas de eficácia, coerência prática ou fidelidade textual às escrituras "clássicas" (coloco entre aspas, pois o conceito de clássico e tradição são frutos da cultura e distintos pelos que a dominam). Ela opera, antes, como um mecanismo de distinção simbólica, próprio de campos sociais estruturados por disputas de legitimidade, autoridade e capital cultural. Como formula Pierre Bourdieu:
Os sistemas simbólicos cumprem a função política de legitimar a ordem social, convertendo relações de força em relações de sentido (Bourdieu, 2003, p. 10).
Nesse sentido, o YSL não aparece como uma falha interna do yoga, mas anomalia política (e "espiritual") para o yoga institucionalizado - leia-se dominante do subcampo espiritual yoguico. Trata-se de uma exclusão que recai sobretudo a todos os corpos, trajetórias e saberes expulsos ou nunca admitidos nas tradições reconhecidas (subalternos). O campo yoguico funciona, assim, como um espaço regulado por regras implícitas de pertencimento, onde a legitimidade não é distribuída igualmente, mas acumulada segundo capitais simbólicos específicos: linhagem, certificação, língua sagrada, reconhecimento transnacional.
Quando yogues constroem seus próprios yogamentos, inventam métodos e transmitem práticas fora das linhagens autorizadas, ocorre uma reconfiguração do valor simbólico e econômico do yoga. Essa reconfiguração não é acidental, mas expõe uma estrutura na qual a informalidade é necessária, desde que permaneça deslegitimada. Me explico melhor: Bourdieu já havia indicado que campos simbólicos produzem simultaneamente ortodoxias dominantes e práticas toleradas apenas enquanto subordinadas, pois:
a eficácia simbólica de um sistema depende da crença coletiva em sua legitimidade (Bourdieu, 2003, p. 12).
Reconhecer o YSL como "Yoga" implicaria admitir que os yogas formais dependem estruturalmente desses yogues informais para existir: seja como mão-de-obra precarizada, seja como reserva simbólica de adaptação cultural: um yoga de tradição só funciona quando há outro em que eu possa negá-lo como tal, me afirmando legítimo. Não há senhor sem o escravo! A negação, portanto, não é técnica, poios não há um conjunto estável e neutro de critérios objetivos que separe o “verdadeiro” yoga de suas supostas deformações. O que existe é uma negação política, sustentada por regimes de autoridade e escassez simbólica.
A tradição Natha, criadora da linhagem Hatha-Yoga, surge pelos corpos, ideias e trajetória de dois budistas influenciados pela mística e alquimia islâmica (sufis), a religião Tantra e elementos da medicina ayurveda.
Essa política da legitimidade se manifesta também por meio de uma estética da pureza. O yoga institucionalizado tende a valorizar altares “limpos” de divindades estrangeiras, a sacralização do sânscrito como língua exclusiva da transmissão legítima e uma gramática simbólica da ordem, da completude e da harmonia - como se nada faltasse. Tudo aquilo que escapa a essa gramática é classificado como confuso, exagerado ou espiritualmente inferior (latino-americano demais para ser tão clean). Mary Douglas demonstrou que tais classificações não descrevem propriedades naturais das coisas, mas protegem sistemas simbólicos ameaçados:
A sujeira não é um dado absoluto. Ela existe aos olhos do observador. Onde há sujeira, há sistema (Douglas, 2012, p. 44).
Nesse enquadramento, os YSL (mestiços e híbridos) não são caóticos por natureza; eles são percebidos como ameaça porque tornam visível o processo histórico que o yoga formal tenta apagar de si. Nos YSL, o processo aparece sem verniz nem assepsia simbólica: é Pai-Nosso entoado junto aos hinários daimistas e shanti, shanti, shantih ao final da prática, meditação com uso ritual de ganja, Yemanjá disputando espaço com Durga, Parvati e Pomba-Gira, Surya Namaskar atravessado por gestos da capoeira, leituras da Bhagavad Gītā dialogando com Chico Xavier, Pretos-Velhos, senhoras reikianas e benzedeiras da rua acionadas como operadores de cuidado e terapias holistas, astrologia védica combinada com ebó, convites para Vipassana, seshin zen e cerimônias de ayahuasca em contextos híbridos. E tudo no mesmo final-de-semana e geografia espiritual
A recusa em reconhecer tais práticas como yoga não é filológica ou epistêmica. Trata-se de uma decisão política sobre o que pode ou não contar como discurso legítimo. Aqui, a noção de subalternidade é decisiva. O yogue sem-linhagem (e aqui incluiria também toda(o)s os terapeutas holistas) pode ensinar, praticar e transmitir, mas sua voz não é reconhecida como yoga (ou racionalidade médica/terapêutica). Gayatri Spivak mostrou que o subalterno não é simplesmente aquele que fala, mas aquele cuja fala não encontra reconhecimento institucional:
O subalterno não pode falar porque não existe um espaço de escuta que reconheça sua fala como discurso (Spivak, 2010, p. 66).
A história do yoga (moderno ou tradicional), entretanto, parece desautorizar qualquer pretensão de pureza originária. Estudos filológicos e históricos contemporâneos demonstram que o que hoje se chama “Yoga” sempre foi plural, conflitivo e adaptativo; as próprias escrituras clássicas (Bhagavad Gītā, Yoga Sūtra, Haṭha Pradīpikā, Gheraṇḍa Saṃhitā, Yoga-Bīja) testemunham disputas internas e rearranjos doutrinários contínuos, e não um sistema homogêneo. Os pesquisadores Mallinson e Singleton são explícitos ao afirmar que:
O yoga nunca foi uma tradição única e unificada. Sempre foi plural, adaptativo e contestado (Mallinson & Singleton, 2017, p. xv).
Assim, a tentativa de exclusão e apagamento do YSL não diz respeito à fidelidade textual ou à ortodoxia histórica, mas à manutenção de uma hierarquia simbólica contemporânea imaginada (ou delirante). O debate sobre yoga com ou sem-linhagem não é periférico: ele diz respeito à forma como poder, economia simbólica e autoridade espiritual se articulam no presente. Chamar de “impuro” aquilo que mistura, traduz e resiste é menos uma descrição do real do yoga do que um esforço contínuo para preservar uma ordem fantasmática que depende, paradoxalmente, daquilo que se tenta negar.
Referências Bibliográficas
BOURDIEU, P. (2003). A economia das trocas simbólicas. São Paulo: Perspectiva.
DOUGLAS, M. (2012 [1966]). Pureza e perigo: um estudo dos conceitos de poluição e tabu. São Paulo: Perspectiva.
SPIVAK, G. C. (2010 [1988]). Pode o subalterno falar? Belo Horizonte: Editora UFMG.
MALLINSON, J.; SINGLETON, M. (2017). Roots of Yoga. London: Penguin Classics.




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