YOGAS CANIBAIS


Há muitos yogins que pensam precisar se transformar em indiano para ser yogin; mas há também aqueles que entendem a necessidade de explicar, interpretar, contextualizar e racionalizar o pensamento yoguico de motrizes indianas para fazer (dar) sentido no seu mundo.


Entrementes, o yogar mais autêntico pode estar no aprender a utilizar os yogas, no sentido de tirar suas consequências e, o mais interessante e revelador no cuidar de si aliado ao yoga, experienciar|vivenciar (na carne) seus efeitos na produção de nosso próprio território: processos de desterritorialização e reterritorilização após incursões samadhísticas - quando desmontamos, com injeções de prudência, estratos que nos compõem para tecer relações nas yoguicidades.


Observando incursões yoguicas canibais por aí, a boniteza de tudo está na transplantação do pensamento yoguico em geofilosofias distintas construindo novas corporeidades - nunca deixando de ser quem se é, mas estar sendo com|e na relação com novos povoamentos.


E essa postura (ou descompostura), fruto de uma flexibilidade permeável cognitiva, passa longe da busca comparativa por universais do pensamento humano. Nada disso, é a aventura em mergulhar até a terceira margem do rio darsana-yoga de Patox e neo-tantra “humanista” ou Yoga Dance, assim como Yoga Vinyasa e AUMbanda (yoga e umbanda); e, lá de baixo, tocando o fundo do rio, em águas frias, escuras, lodosas e quase sem ar, algumas vezes, se admirar da riqueza rizomática dos yogas nos auxiliando a sentir intensidades passar. Há que atravessar o espelho|Purusa, como Alices, para discernir|vivekear yogas sendo: devir-yogin.


Muitas vezes percebo que todo esse movimento em neutralizar yogas “não-tradicionais” como inautênticos e|ou sem identidade, relegando-os como superficiais e|ou “meros exercícios físicos” e demais retóricas depreciativas são apenas isso mesmo, retóricas. Atuações que mantém uma pseudo-elite com verniz de “superiores”: o ritornelo das castas sempre voltando, como refrão de um bolero barato.


Estes necessitam dos jogos polarizadores do bem contra o mal, o falso e o verdadeiro, o belo e o feio, tradição e modernidade, centrais e periféricos, pois se alimentam dessa energia-forma. Sem o transcendente que os habitam - duais ou não-duais - se tornam ordinários, como qualquer um de nós. E eles detestam se sentirem comuns; daí surgem as vestes alaranjadas, nomes estranhos que adotam e dieta diferenciada ou jejuns lunares. Maravilha de quem os realiza como propostas de sentido e experiencial, mas triste são os performáticos: aqueles que gostariam ser e não são, por isso desejam a falta ou o déspota.


A contenda entre magia e religião é um exemplo que cabe aqui e se arrasta por séculos, ilustrando o rolê. De um lado os sacerdotes, guardiões das escrituras, formadores de gurus e interpretes oficiais da “palavra”; e do outro, as bruxas, os feiticeiros, marginalizados, bichas, gordos, os yogins proto-alguma-coisa, "aqueles que não eram" até outros nomearem o que deveriam ser. E tanto faz se rezam para Brahman, Shiva, Kali, Durga, Jesus ou Vishnu, pois são sempre os excluídos que estabelecem pactos com entidades menores, são vendidos como “escravos” de coerções mágicas de cunho divinatórios, terapêuticos e|ou feiticista - os drávidas e os dalits lá, os pretos e pobres cá: "aquelas rebolam demais, não podem ser “sérias no yoga que praticam”, aqueles tem “sotaque”, portanto, não compreendem bem o sânscrito. Entenda, aqueles são pastores televangelistas atacando espiritualidades de matriz africanas “cultuadores de Exú”. Há muitas Damares no campo do yoga.


Para quem não pegou a ideia ainda. Não é nômades contra sedentários, não tio, esse é o jogo deles. Os yogins em devir-canibal devoram o inimigo-cunhado, e continuam sendo nós (povoamentos incorporados). Os sacerdotes yoguicos também devoram, mas para aniquilar e não incorporar o diferente por medo de não serem mais o que nunca serão. Tanto que, em canais midiáticos, se orgulham de "não ensinar técnicas, mas escrituras" - sempre perfeitas em si-mesmas. Lembra da frase clássica das formações de yoga dos anos 2000 (ou até hoje, sei lá): “o Hatha prepara para o Raja?”. Se você só sabe ensinar Hatha (= posturas e outras técnicas) não é assim tão yogin. Yogin mesmo, “são aqueles que ensinam Raja e Jnana” (yoga da nobreza e do conhecimento, respectivamente).


Há um pensamento selvagem yoguico, indomável, que não pede explicação mas constrói sentidos; aqueles sentidos que não podem ser ditos de outros modos. Então, ao invés de buscar origens, que se alcancem os sentidos da relação yoga-humano e suas populações. Pensemos, para facilitar aos sedentários, que todos bebemos de uma mesma cultura “universal” mas experienciada por naturezas|corpos (sobretudo o sem-órgãos) diferentes. Corpos|naturezas praticando yoga como uma máquina-de-guerra produtora de conceitos ou “símbolos que representam a si mesmos”.


O yoga posto em movimento (yogar ou práxis yoguica), como prática de sentido, é um dispositivo autorreferencial de produção de conceitos.


Por tudo aqui exposto em formato de ensaio, não quero explicar um yoga-Outrem qualquer (indiano hindu, indiano jaina, egípcio kemet ou brasileiro restaurativo), isso deixemos aos sedentários, lancemos-nos, nós nômades e selvagens, a compreender e expor a boniteza de multiplicar o meu e o seu mundo yoguico com os deles. O yoga-Outrem continuará lá (eterno em seus devires) e o meu e o seu, aqui, eterno também, todos em devires. Os yogares, quaisquer que estejam sendo, são povoados de “todos esses exprimidos que não existem fora de suas expressões”.